Crônica da Semana

Araguaia Peçanha não admitia soluços

Araguaia Peçanha. Comunista clássico na juventude, perdeu o chão quando Kruchev caguetou os horrores do stalinismo. Ainda assim, seguiu rezando pela cartilha do velho PCB por entendê-la humanista, até mesmo evangélica - latu sensu, latu sensu, calma aê

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Toda sexta-feira – esse era o intuito original – publicamos crônicas que corram em desabalada carreira das discussões diárias, do áspero que é moído por gente sem imaginação, e agarrem-se àquilo que nos é mais caro e cativo: nossas fantasias.

Como é sabido de todos e de ninguém, o senso de dever do Senso Incomum é abrir espaço para o grandes cronistas da humanidade – no caso do momento, eu mesmo. Mas não me furto a reverenciar aqueles que, mesmo escondidos e, o que é pior, querendo a todo custo se esconder, estão léguas acima do meu brilhantíssimo talento.

De modo que, não obstante, tanto cá quanto lá, poteito potato, noves fora, desce dois, abro hoje a brecha para um iluminadíssimo cronista e, o que me entope de orgulho, um especial amigo: Luigi Marnoto.

Luigi, vire-se com a fama agora.

Um abraço,

Carlos de Freitas

 

Araguaia Peçanha. Será o nome perfeito para o  personagem principal do livro que nunca escreverei. Mas, acreditem, existiu um Araguaia Peçanha na vida real. Filho de nacionalista fanático, foi o terceiro de quatro irmãos, todos com retumbantes nomes nacionais: Brasil Peçanha, Jari Peçanha e Jacirema Peçanha.    

Singular como o nome, Araguaia colecionava idiossincrasias mil. Uma delas, digna de nota: não admitia soluços – não o do choro desenfreado, mas daquele ruído do reflexo que se manifesta por contração espasmódica e involuntária do diafragma. Motorista de um táxi mirim (pra quem não frequentou o século passado, consistia num fusca sem o assento dianteiro e carregava três passageiros espremidos atrás), expulsou, sem dó, a pontapés, alguns passageiros acometidos dos tais reflexos involuntários. 

Araguaia Peçanha. Comunista clássico na juventude, perdeu o chão quando Kruchev caguetou os horrores do stalinismo. Ainda assim, seguiu rezando pela cartilha do velho PCB por entendê-la humanista, até mesmo evangélica – latu sensu, latu sensu, calma aê…

Quando o conheci (me viu nascer), não passava de um velho putanheiro anarquista, praticante amador de pequenas vigarices, um tanto descrente da humanidade e leitor voraz dos clássicos. 

Foi uma espécie de avô querido e amoroso, abrigado por nossa família (anticomunista, diga-se). Soube por terceiros, pois perdi contato, que morreu rezando um terço, fazendo as pazes com Deus.

E já que Deus entrou na conversa, segue uma historinha que o velho me contou na corda bamba dos meus dezesseis anos, quando era jovem, idiota e, consequentemente, comunista.

Meados dos anos 40. Num rolê lá pelo centro de São Paulo, Araguaia deu uma entradinha purificadora na igreja do Mosteiro de São Bento. Num dos bancos, ajoelhado, as mãos postas, contrito, Carlos Marighella rezava com unção.

Lavrou o flagrante:

– Rezando, hein, seu comunista de araque?

– Pela alma do Stalin, seu merda – rebateu o futuro terrorista e recente negão retinto.

Luigi Marnoto

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