Prudência and Sofisticação

Confira o que de melhor aconteceu nas manifestações pelo o olhar doce e tenro de Vera Magalhães

Elegante e serena, translúcida, vibrante, Vera Magalhães vem se consolidando como uma voz fanha e estridente. A favorita de nove entre dez paranóicos histéricos

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Já faz algum tempo que a nossa querida Vera Magalhães, jornalista profissional, porta-voz da classe, tem se destacado pela sua temperança e serenidade nas notícias que costuma comentar a cada 3,7 segundos, no Twitter.

Demonstrando sabedoria, comedimento e muita resiliência, Vera destila a mais fina ironia em posts divertidíssimos. Mas é séria e contundente quando tem que ser. Ontem, dia de manifestação a favor do presidente da república, Jair Bolsonaro, Vera brilhou como uma tampa de latinha de cerveja Cristal refletida pelo sol do meio-dia. 

Adepta do estademocraticodedireito, da glória articulada do poder legislativo e do poder executivo estadual, mais precisamente, do estado de São Paulo, nossa heroína (sem trocadilhos, por favor!) é das figuras públicas mais achincalhadas, mais maltratadas pela realidade nua e crua.

Outro dia, vomitou o mesmo número de vezes com que Pedro negou Cristo. E é no sofrimento que conhecemos a verdadeira face de uma pessoa, é quando seu rosto se revela por inteiro, sem base, pó, corretivo, blush, iluminador, lápis de sobrancelha, máscara de cílios, gloss e oito mil e seiscentos filtros nas fotos. 

Talvez, injustamente, seja essa indissociação entre o encruado cão que chupa uma manga e o rosto sofrido de Vera que cause estranheza na gente do povo. Mas Vera não é do povo, não é gente comum: é uma jornalista profissional. Zela pela informação como quem acalenta um melão para que ele adormeça.

Rendo aqui minhas homenagens a essa desusada senhora de aparência ruminante, digo, rutilante. Quero mostrar ao mundo o fruto de sua lucidez e singeleza nesses tuítes tão carregados de sentimento criador. Tuítes que, pela linguagem simples e direta, são registros verdadeiramente históricos. Dão conta de que, em meio ao caos e à histeria, alguém manteve a sanidade.

“O bolsonarismo se guia, como já foi dito, por uma pulsão de morte, pela fé em conflitos apocalípticos e no destino messiânico da liderança forjada na violência daquela esquina em Juiz de Fora.”

Magalhães, Vera

Embora a frase não ligue nada a coisa alguma, é uma verdadeira peça de arte contemporânea. Esculpida com matéria verbal em forma de cocô, lapidada por jatos de vômito, denota a ausência de sentido formal, restando ao consumidor tatear as sílabas em busca do valor primitivo.

É possível rastrear as referências tantas que brotam dali.

“Pulsão de morte no bolsonarismo” é a quintessência do barroco. “Destino messiânico da liderança forjada na violência daquela esquina em Juiz de Fora” bebe na fonte do surrealismo dos hospitais psiquiátricos que Breton frequentava. 

Há mais, muito mais. 

“Com a tempestade perfeita acionada pela pandemia na vida real e na economia, terá oportunidade única para testar ao limite suas motivações, salvo a hipótese de um surto de racionalidade de última hora abater-se sobre o país.”

Jornalismo profissional também é arte, oras. A verve escatológica, ao melhor estilo Guia do Mochileiro das Galáxias é notável. O resultado é, sem dúvida 43.

“A você que foi à Paulista: você é um irresponsável que pode morrer ou matar alguém.”

Aqui, Vera abandona um pouco a pena literária para falar sobre saúde pública. Alerta máximo. Vera não se conteve. Mesmo os espíritos mais sutis uma hora perdem o prumo. Foi demais não falar nada sobre as aglomerações em bares, em eventos, nas festas, em metrôs, trens e ônibus, nos escritórios, etc… Mas nas ruas, num domingo, para apoiar a “pulsão de morte do bolsonarismo” é o fim.

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“E aqui estamos indo às ruas no #CoronaDay. Esse dia será lembrado nos livros de história. Podem anotar. 15/3/2020. Não é 2015, talkey? E a imagem do presidente cumprimentando pessoas em meio à pandemia irá para as páginas.”

Esses arabescos memoráveis saíram, pasmem, de uma única mente. Urge dizer que isso é supimpa. Dercy Gonçalves não faria melhor.

“Vi muita foto de idosos e desavisados nas ruas, com lenços que não protegem de coronavírus, segurando nas mãos de crianças. Mas ainda não vi as imagens dos influenciadores que ficaram instigando as pessoas a irem. Cadê? Estão em quarentena? Posta aí, gente.”

No livro, A Crítica da Razão em Kant na Elaboração de Uma Festa Infantil, Xuxa Meneguel diz que se pode avaliar o estilo de alguém pelo modo que faz uso das preposições. Maria da Graça ainda acrescenta: “Nem sempre o que não se entende tem algum sentido, às vezes é merda mesmo.”

Imprensa-vera20

“Ao calarem e se acovardarem diante de atos golpistas com a presença e o apoio do presidente, Maia, Alcolumbre, Toffoli e demais ministros e parlamentares mostram que o método de acossá-los é efetivo e permitem que se parta para o próximo passo. Tem de ser hoje a reposta.” 

Nesse pedido emocionado, apesar de tantos erros ortográficos, semânticos, sintáticos, gramaticais, lógicos, Vera apela aos poderes que edificaram nossa república, que sempre lutaram para deixar o país como está, num miserê danado. Sua esperança no que o país tem de pior é comovente.

Bem, o espaço e o tempo são limitados para quem tem alguma vida. Poderíamos aqui tecer loas páginas a fio, não restando tempo para a higiene básica, sobre os tuítes que Vera publicou em vinte minutos no dia de ontem. 

É uma sombra  de sabedoria que paira sobre as cabeças de tudo que é nego torto, das loucas e dos lazarentos, isso aqui ô ô, é um pouquinho de Brasil iá iá, adocica, meu amor. Dinheiro no bolso e canja de galinha. Que mal há?

Com um amplo leque de pensadores que a amparam, desde os personagens do Thundercats, passando por Cazuza, Mario Gomes, Mama Brusqueta, até figuras que ainda buscam a glória em meio a tanta poeira, Vera é um norte para qualquer um que queria manter alguma consciência, alguma acuidade nos tempos de hoje. 

Tudo que ela é a favor, basta ser contra.

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