Articulação

A medida mais urgente do governo precisa ser acabar com o fundo eleitoral

Outras medidas importantíssimas são cortas verbas e salários de políticos, do STF, de todas as sinecuras

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A crise gerada pela notícia monotemática do planeta, o coronavírus, precisa de muito dinheiro para ser, na melhor das hipóteses, amortecida. O dinheiro necessário existe: o Brasil é um país rico, com muitos recursos naturais, mas cujo dinheiro fica concentrado em poucos bolsos em Brasília. 

Explique o Brasil para qualquer americano e ele ficará chocado. Aqui, a população paga algo moralmente bizarro como o fundo eleitoral. 

A idéia do fundo eleitoral é simples: todo mundo – você, eu, a dona Cleide da faxina – precisa pagar as campanhas dos políticos, porque eles, coitados, não têm tanto dinheiro como nós, então precisam de um fundo com os nossos fundos, assim, nossas economias guardadas até o fundo vão para o fundo eleitoral, e os políticos passam a mão no nosso fundo até o fundo enquanto nós temos de dar o fundo para sobreviver.

A idéia parece mongolóide? Bom, não é nem a ponta do iceberg do problema. Se a estrovenga já é imbecil e imoral, se torna tirânica a seguir. O cidadão comum – você, eu, a dona Cleide – somos obrigados a financiar a propaganda de quem não gostamos e daqueles nos quais não votaríamos nem na paulada para eles fazerem propaganda para nós, para nos convencer de que são anjos e, além do dinheiro que já nos tomaram, de que merecem mandar em nós e em mais ainda do nosso dinheiro.

Estamos no fundo do poço? Não, espere, podemos cavar um pouco. A distribuição da verba do fundo eleitoral funciona sob um critério científico: quem já venceu eleições, fica com mais fundo. Quem venceu menos, fica com menos. E quem não tem nenhum, fica com o pau na mão, sem fundo para se divertir.

Não é sensacional? Um sistema feito para se perpetuarem no poder exatamente aqueles que provavelmente gostaríamos de não eleger nem para o almoxarifado. E sob o glorioso argumento da democracia e das instituições funcionando!

Pois sempre as pessoas sensatas do país quiseram acabar com essa bizarrice. Bolsonaro, com recorde de votos, correu a um partido que só não foi de aluguel porque não foi comprado, com um único deputado para fazer fundo para um tsunami inteiro, não gastou tudo o que arrecadou via crowdfunding, não conseguiu doar o dinheiro, gastou menos para virar presidente do que alguns gastam para virar deputados, e é um dos primeiros grandes nomes do país a pensar em se livrar do fundo.

Como chefe do Executivo, depende do Legislativo para que os congressistas aprovem uma proposta obviamente daquele Poder. Naturalmente, é o Poder que mais quer saber do fundo – ou seja, de ter dinheiro fácil para se reeleger – ainda mais porque os eleitos são os que mais têm dinheiro, para evitar a troca de poderes e que alguém tome o seu lugar.

Rodrigo Maia, alçado por artimanhas sem nenhum apreço por vontade popular a chefe do Legislativo (Câmara, para muito, é prioritária ao Senado), era contra se livrar do Fundo. 

Maia, atual ídolo da isentolândia (quase toda ela liberal), dizia que “Fundo eleitoral é necessário para equilibrar campanhas”. Ou seja, se só empresários doam, tem de forçar a população a, digamos, “doar” até para políticos nos quais ela não quer ver eleitos nem pintados de ouro – como Rodrigo Maia. Pagamos para financiar nossos inimigos, em nome do Estadodemocráticodedireito.

Afinal, sem fundo eleitoral, como o pobrezinho Maia vai se eleger sem o nosso dinheiro?

Bolsonaro sugeriu a idéia de acabar com o fundo eleitoral (proposta de sua base de apoio) e transferi-lo, por exemplo, para a Infraestrutura.

Foi o próprio Rodrigo Maia quem respondeu, em seu estilo perfeito para gerar manchetes como um “estadista que pensa em todos”, que é um direito do presidente”, mas que “os deputados” iriam reagir: “Ele veta o que ele quer, e a gente vota a pauta da Câmara e do Senado.”

É a típica linguagem escorregadia de diplomatas que Ezra Pound criticava. Ou seja: Maia sabe que vai forçar deputados a derrubar o veto (lembra de quantos liberais, como Alexandre Borges e o MBL, falavam em “articulação”?) e se entupir do nosso dinheiro – mas não admite isso, preferindo falar no plural coletivo indefinido: “eles”. Eles, os deputados. Dos quais ele é o chefe da articulação.

Ainda, à época, afiançou que o fundo eleitoral não afetaria saúde ou educação. Não foi cobrado ainda pelo despropósito.

Rodrigo Maia agora aparece “admitindo” corte de salário de parlamentares e uso dos fundos partidário e eleitoral para o coronavírus. É assim que foi noticiado: como se Maia, que tanto lutou para ter fundo, fosse agora o herói da nação, que está envidando tantos esforços em se sacrificar pelo triste povo brasileiro, que está “liderando” e talvez até tomando a iniciativa de diminuir salários.

Alguém comentou que quem propôs se livrar do fundo eleitoral e mandá-lo para a saúde foi a turma de Luiz Philippe de Orleans e Bragança, Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli e outros da “ala ideológica radical” do Parlamento? Desses que até são chamados até de “gabinete do ódio”?

É isso que precisa ser feito agora – e, ao contrário do que a mídia vai noticiar (ou ocultar), isso nada tem a ver com Maia.

Está na hora de combater o coronavírus com o dinheiro que sobra no país: o do salário dos políticos. Das mamatas da Câmara e do Senado. Algum parlamentar aí já cortou gastos supérfluos? Não só viagens – motoristas, jantares e tantos gastos. Como os jantares com lagosta e vinho caro do STF. 

Está na hora, afinal, de transferirmos dinheiro de políticos para o povo. A começar por fundos eleitorais, desenhados de maneira extremamente imoral. E sabermos, desde já, que Rodrigo Maia e sua gangue com tentáculos midiáticos admitirem, sobretudo, que se essa ajuda for aprovada (e é uma gota no oceano do gargalo da saúde), será APESAR de Maia, e não por causa dele.

A saúde espera e desespera.


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