Semiótica

O discurso do Bolsonaro não foi feito para você

Dividindo opiniões dentro da própria direita (como sempre), Bolsonaro fez um pronunciamento que não foi voltado para o público da internet

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Você se chocou com o discurso de Bolsonaro em cadeia nacional ontem, antes do Jornal Nacional? É, eu também. Estava esperando dados, planilhas, demonstrações de que está fazendo algo comparável aos países mais avançados do mundo, algumas informações de dar nó na cabeça de jornalista.

Ao invés disso, indireta para Dráuzio Varela, comentar que é atleta, repetir a piada (bastante fraca, para dizer o mínimo) da “gripezinha”. Também saí criticando para todo mundo.

O problema veio quando furei um pouco minha bolha de isolamento com álcool gel 70 (vocês descobriram isso ano passado, eu acendia churrasqueira com isso em 1993), do alto do meu poderosíssimo home office com Notepad e tive de enfrentar, ainda que via delivery, o game mais chato lançado em 2020: a realidade.

É diarista reclamando que acorda 5 da manhã e dorme 11 da noite, e que quando a quarentena terminar, vai trabalhar sábado e domingo, só de raiva. É polícia no Nordeste entrando em empresa (nada a ver com produto hospitalar) e só faltando mandar prender todo mundo (acha que não tem nenhum governador querendo lucrar com a crise com isso? imagine os presidenciáveis de Rio e São Paulo, então). É Santa Catarina sem Correio – e não é para entregar meus livros importados da Amazon, não. Tem quem vá à falência sem receber seu trabalho pelos Correios. E assim por diante.

Mesmo assim, dormi com uma sensação ruim, que externalizei para vários amigos: o presidente tem de falar com todo mundo. Como presidente, precisa passar uma mensagem para a dona Rosana da limpeza, e também uma mensagem falando em curva de crescimento de progressão geométrica segurada com confinamento para nós, pessoas que falam “home office”.

No dia seguinte (ou seja, hoje), os comentários sobre o discurso se intensificaram de uma maneira bem impensada por mim. Dentro da nossa bolha de internet, foi um festival de “Bolsonaro acabou de entregar o cargo para o Doria!”. Fora da bolha, era: “Bolsonaro fala como a gente”. Ok, não teve a parte que esperávamos, em que Bolsonaro fala com os universitários de Humanas (que, convenhamos, raramente deveriam emitir opinião). Mas estes seres (ou seja, nós) já temos Bolsonaro no Facebook, no Twitter, no Instagram, nos 400 grupos de WhatsApp, nos cartazes da faculdade, nas intermináveis arengas dos jornalistas cujos nomes conhecemos.

Bolsonaro não estava nem aí para a gente. Queria falar com o seu João Almeida Campos que mora na Pavuna ou em Perus (não, Jardim Cabuçu fica muito perto, você chega no ponto mais distante do metrô em apenas uma hora, e se consideram Jaçanã). E olha que minhas metáforas bairrísticas se reduzem a grandes cidades como São Paulo e Rio – imagine como é no interior de Sergipe ou de Tocantins.

Bolsonaro quis falar com gente que tá completamente alheia até agora. Gente para quem você pergunta sobre Felipe Moura Brasil, Ricardo Noblat e Miriam Leitão, e a resposta deles vai ser algo como “Que novela eles fazem?”. O grande percentual do Brasil para quem as expressões “Trending Topic” e “depois da live, pegue o link na bio” soam como alguém falando em malaio. Ou como a Dilma.

Acontece que o povo está cansado de ficar confinado – e não é comendo no iFood, deixando os filhos brincando cada um em um quarto cada um com seu videogame, enquanto fica no escritório depois da sala de jantar. Não, é em casas de 42 m² com vista para esgoto a céu aberto só pela frente e 4 filhos – não dá nem para aproveitar como era a vida sem TV.

A verdade é que o público médio da internet, de quem comenta em redes sociais – e não é sobre BBB –, aqueles rostos que escrevem sem (muitos) erros de gramática, compartilhando a visão do The Guardian e do El País sobre Bolsonaro, compõem apenas aquilo que o psicólogo social Jonathan Haidt chamou, sardonicamente, de W.E.I.R.D – Western, Educated, Industrialized, Rich and Democratic (Ocidental, “Educado”, Industrializado, Rico e Democrático).

Ou seja, São Paulo e Rio, mutatis mutandis, são o equivalente brasileiro à Manhattan – que, como a eleição de Trump demonstrou, não revela nada da América. No nosso caso, do Brasil profundo. Aliás, não revela nem mesmo sobre nossas periferias, antes mesmo de chegar a Guarulhos ou São João de Meriti.

Por exemplo, um momento que pareceu ter sido bastante infeliz foi o comentário de que escolas devem voltar a funcionar. Eu falei para todos os meus amigos – a turma pró-Bolso até o tutano e os que insistem que Bolso é pior do que a Dilma – que achava isso um absurdo, independentemente de qualquer acerto. Mas me informaram logo cedo: para muitas famílias, escola significa dar merenda para as crianças. Adivinha o que elas estão fazendo sem merenda? Exatamente: não estão comendo.

Vendendo bala contra o coronavírusJá mostramos aqui: motoristas estão sendo demitidos. Só no DF, bares e restaurantes já demitiram mais de 3 mil. Em Natal, só há 30% de ônibus – logo, ao invés de mais “espaço”, todo mundo anda apertado – e quem precisa ir ao médico, não vai.

Em suma, Bolsonaro foi para a TV para conversar com essas pessoas – se Bolsonaro é bronco, deixe-me te apresentar: esse cara se chama Jair Bolsonaro. Fala para quem está na linha de frente do sofrimento (sabe o lance de ao menos isolar os idosos? duvido que o cara do posto tem um quarto só para os idosos da casa). Até elogia o Ustra e ganha bonito depois. E sabe como passa segurança pra população? Justamente falando que é atleta – mesmo depois de tomar uma facada. Vale para nós? Não. Vale para quem tá apertado no busão, vendendo o almoço para comprar a janta? Sinto muito, mas a resposta é óbvia. Ainda mostrando que a Globo está contra elas.

Se falasse em dados, o Joaquin Teixeira teria desligado a TV e olhado umas bundas no Zap.

O porteiro, o lixeiro, o caminhoneiro, o garçom, a manicure, o cabeleireiro, o cara fazendo 12 horas de Uber por dia, a tia que vende bolo na saída do metrô, o mendigo que vive de esmola – quem vai pagar a janta deles? A Vera Magalhães e o Diogo Mainardi?

Enquanto isso, um certo João Doria sabe que a única chance que tem de ser engolido a contragosto pelo público é com uma crise econômica destruidora. Tal como a Empiricus do Antagonista, quanto pior, melhor. Tal como os jornalistas isentões – por trás de cada discurso de “preservar a população”, há uma torcida descarada por uma crise absurda para colocar os seus políticos do establishment e da esquerda no lugar do milico bronco.

Era falar em gripezinha para atleta enquanto protege os velhos, ou fingir choro como Ciro Gomes e falar em “gerenciamento” como Doria. Um papo tão sonolento que só pode funcionar para quem encara 12 horas de colunistas da Folha por dia.


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