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Monomania

A Lei de Rothbard está destruindo o Brasil

Do que as pessoas mais falam é exatamente daquilo de que menos entendem. Em tempos de assuntos monotemáticos, esta obsessão destrói nossa inteligência

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Murray Rothbard

Um dos maiores problemas do mundo atual – digital, polarizado, obsessivo, repetitivo – é a Lei de Rothbard. É raríssimo encontrar quem não seja afetado por ela.

A Lei de Rothbard preconiza que as pessoas se especializam naquilo de que menos sabem. Murray Rothbard, um economista bem porra-louca, usava Milton Friedman como exemplo: suas críticas ao socialismo eram perfeitas, sua análise dos males da concentração de poder e do uso do Estado para corrigir desigualdades (gerando mais e novas desigualdades) era importantíssima – mas havia algo de que Friedman pouco entendia: funcionamento de moeda corrente. Qual era o principal assunto de Milton Friedman? Sua defesa obsedante do uso da moeda elástica.

É curioso que a Lei de Rothbard se aplique tão bem, natürlich, ao próprio Murray Rothbard: homem brilhante, com conhecimento histórico bastante singular sobre a América, tinha um defeito infranqueável: uma cultura nula sobre formação de Estados, povos e códigos de conduta sociais. Qual foi sua maior idéia fixa, pela qual ficou conhecido? A Teoria Geral do Estado, ou melhor, sua doutrina fanática, abstrata e francamente ridícula do “anarco-capitalismo”.

No mundo digital do século XXI, a Lei de Rothbard galgou patamares com saliências inimagináveis. É fácil encontrar homens que são grandes pais, grandes estudiosos, grandes cozinheiros e esportistas, grandes conhecedores da Europa, grandes marqueteiros do próprio trabalho, mas que não entendem muito de nazismo.

Nunca estudaram livros com opiniões divergentes sobre a formação antropológica das famílias. Desconhecem por completo a história da Igreja, ou as diferentes relações da humanidade com Deus do Antigo Testamento até o califado do Estado Islâmico.

Não fazem idéia do que uma tradição que vai de Platão e Aristóteles a Kuehnelt-Leddihn e Kenneth Minogue (passando por São Tomás e Dante, Jefferson e Disraeli) analisa criticamente a idéia de democracia.

Adivinhe qual o único assunto sobre o qual essas pessoas escrevem obsessivamente, dia e noite, apontando dedos, semeando inimizades, cobrando autoridades com mecanismos acima das leis, querendo ensinar quem conhece mais do assunto do que eles próprios?

Se a situação é crítica – ridícula, triste e desesperançosa – entre o palpitariado profissional, não é menos nociva, infeliz e desalentosa em qualquer grupo de Zap, ou observando por alguns minutos a timeline de qualquer pessoa que posta 20 vezes por dia entre seus amigos.

Sobre aquilo que você mais fala, muito provavelmente, falta algo que transforma o assunto em algo desastroso.

É exatamente o problema de nossa era, que cultiva “especialistas”, a um só tempo em que trata o “generalismo” como um mal em si – sem perceber que o futuro pertence ao polímata, ao pândita, ao que conjuga conhecimentos, ao que estuda MAIS do que aprendeu na faculdade, ao que consegue enxergar uma notícia de ontem à luz da antropologia tribal, ou uma briga no grupo da família pela ótica de uma peça de T. S. Eliot, ou uma querela moral lembrando de processos históricos ocorridos 5 séculos antes (a história se repete, é um clichê do qual todos se esquecem das conseqüências).

Hoje as pessoas são monotemáticas e monomaníacas. Além da revolução sexual (já o maior monotematismo da história do globo e a maior monomania da humanidade), o próprio comportamento repetitivo, em assuntos repetitivos, com palavras repetitivas e preocupações repetitivas é prova da nossa atual mesquinhez e falta de profundidade – ficar repetitivo, afinal, é chato, e ninguém agüenta palavras repetitivas sendo tratadas como profunda explicação, mesmo que sejam repetidas repetitivas vezes com pseudo-grandiloqüência.

Você acha mesmo que são “especialistas” e comentadores dizendo termos cheios de “-ismos” e “-fobias” que sabem o que está acontecendo no mundo? A chance é francamente zero. E o mesmo vale para quem usa slogans fora do âmbito meramente marqueteiro – fora das eleições, é preciso pensar em termos mais profundos, e não em bordões eleitorais.

Infelizmente a Lei de Rothbard ficou ainda mais grave no século em que tudo parece informação – em que basta logar em uma rede social e esperar que seu feed te mantenha informado, atualizado e escolhendo o lado certo da história por você. Todos ficamos monomaníacos, com fontes unificadas e pensamentos saídos de linhas de produção fordistas, já devidamente encaixotados e rotulados.

Vencer a preguiça, a explicação fácil e a vontade de aceitação grupal se tornou a conditio sine qua non para conseguir alguma sobrevivência da inteligência individual neste novo século.

Do contrário, só veremos pessoas mostrando como precisam ser acreditadas – e obedecidas – porque o que defendem é “democrático” e contra o “racismo” e o “fascismo”, com uma capacidade de explicação destes conceitos inferior ao que você sabia deles na oitava série. E isto está virando lei, sem nem precisar ser discutido por representantes eleitos. Tudo pela democracia.

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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record).

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