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dilma boca

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Não precisamos nos vergar sob o peso da polícia política do politicamente correto para falar uma verdade incontestável: sabemos que a maioria dos nossos leitores são de Humanas como nós e, como nós, chutaram tudo “C” na parte de matemática do Vestibular.

Mas, para a grande discussão nacional hodierna, podemos esclarecer tudo com uma continha das mais simples, só precisando de três dedos das mãos.

A questão no debate público do país é se o processo de impeachment de Dilma Rousseff constitui um “golpe”, como é chamado o processo pelos caudatários do Partido dos Trabalhadores.

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Isto acende uma chama importante, num pais com 2 grandes golpes em um século: há risco de golpismo no Brasil? Antes de analisarmos o caso, já podemos responder: sim, há.

Um “golpe” de Estado, por definição, significa tomar todo o poder pra si (ou você conhece “golpe” que dividiu o poder com o adversário?). Não há “golpe” que não tome todo o aparato estatal, via de regra modificando as instituições para a manutenção dos golpistas no poder, ou ao menos conclamando leis de exceção para governar com mão-de-ferro uma guerra civil.

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Ora, se Dilma cair através do processo de impeachment (e também pode cair pela Lava Jato, pelo TSE – o que impugnaria toda a sua chapa, incluindo seu vice, Michel Temer – ou ainda pelos desdobramentos do TCU – esta mulher não brinca em serviço), tal impeachemnt não vai dar todo o poder para ninguém (nem mesmo pro bicho-papão-mor, Eduardo Cunha).

O processo de impeachment é algo normal e previsto pelas instituições para proteger as próprias instituições de quem tenta tomá-las para si. Collor, naturalmente, tampouco sofreu um “golpe” – já Jango sofreu, embora tenha sido um golpe apoiado pela população.

A instituição do impeachment serve justamente para se evitar que a única forma de depor um presidente seja através de um golpe, que – este sim – gera instabilidade política, o que pode levar ao oportunismo, ao populismo e ao autoritarismo.

Claro, um sistema parlamentarista, como adotado por praticamente todo país com instituições políticas funcionais no mundo hoje (a América é o único exemplum in contrarium), já teria feito com toda a facilidade, em questão de uma semana, a derrubada de Dilma e de Eduardo Cunha na semana seguinte, para todos continuarem vivendo sua vida normalmente. O presidencialismo é que exige esta longa delonga, provando que o modelo não funcionou em lugar nenhum, exceto a América.

Dilma e o PT tampouco têm todo o poder nas mãos atualmente: têm uma parte dele, e estavam comprando o restante. Ou seja, crescendo por dentro. O que ficou provado no mensalão, que teve tantas agências de publicidade na fila de pagamento, é que a caríssima campanha de Lula em 2002 – a mais cara da história brasileira até então, e os números petistas apenas inflaram desde lá – foi paga a posteriori, tendo-se certeza da vitória do petista e garantindo-se que o dinheiro roubado de estatais poderia pagar as agências de publicidade através de falsos contratos de “propaganda”.

Ou seja, o PT controla o Poder Executivo federal. Apenas na federação, são três poderes (sempre assim divididos também nos estados e municípios). Ou seja, o PT, teoricamente (pois na prática é bem diferente), mesmo tendo sido eleito, teria um terço do poder.

Pensemos: se você quiser dar um golpe e ter todo o poder, é mais fácil fazer de dentro do governo, ganhando mais uma parte dele (uma prefeitura em Quixeramobim que seja) ou de fora, tendo de conquistar todo o poder um a um?

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A conta aqui é simples: se há três poderes (Executivo, Legislativo, Judiciário), é mais fácil dar um golpe não tendo nenhum destes poderes ou tendo algum deles? Qual está mais próximo de 3, o número 1 ou o número 0?

Então, uma matemática básica: golpe não é impeachment, que é um mecanismo de uma instituição para proteger a própria instituição de quem quer dominá-la e/ou substituí-la. Golpe é tomar e aparelhar uma instituição para ter mais poder através dela. Não é uma diferença sutil: é a diferença entre uma cassação de mandato através de voto e do nazismo e do bolchevismo. Parece significativo.

Golpe, portanto, é o mensalão, que foi uma compra de voto para se governar apenas pelo Executivo, neutralizando o “contrapeso” que existiria caso o Legislativo não acatasse qualquer medida do Executivo obedientemente (todos os saques verificados no mensalão, por exemplo, caíram nos exatos dias das votações envolvendo o estatuto do desarmamento, que mesmo tendo a vitória mais acachapante para o “Não”, teve o resultado das urnas ignorado pelos petistas). Não é apenas corrupção: é totalitarismo. É uma tomada de poder à força (e aos nossos custos) que não é narrada como é de fato.

Do Executivo, toma-se o Legislativo (ou a maioria que faz a diferença), minando a divisão de poderes.

Golpe é colocar o advogado do PT no STF, servindo não a uma instituição jurídica impessoal, mas ao próprio Partido dos Trabalhadores. Dias Toffoli tornou-se o ministro que obviamente sempre vota com precisão cirúrgica naquilo que o PT defende, não importando quais sejam os fatos. Isto é uma tomada de poder à força, tornando uma instituição que deveria zelar pela lei fazer, pelo contrário, a zeladoria do Partido dos Trabalhadores.

Do Executivo, toma-se o Judiciário, ignorando-se até mesmo poderes que não são ocupados através de voto popular.

Usando-se três dedos, é possível então perceber que o Brasil sofre um sério risco de golpismo. Mas não é o que o jornalismo e as celebridades estão chamando de “golpismo”. O que nos leva a mais um ponto.

Golpe é usar estatal pra dar dinheiro pra companheirada que faz propaganda travestida de jornalismo (como se o Banco do Brasil precisasse do blog do “GGN” ou do Brasil 171 para ter “publicidade” e não falir) ou para a rouanetosfera defender o PT, como a turma que vai de Chico Buarque e Caetano Veloso a Daniela Mercury e Tico Santa Cruz.

Isto para não falar na concentração de poder econômico no BNDES, o banco que fomenta “empresários” que apenas mamam no Estado-Babá em troca de apoio (inclusive dinheiro para campanhas) e que faz com que todos os jornais e emissoras do país devam alguma coisa ao governo ou mediada por algum órgão estatal, fazendo com que todos os que ousem criticar o governo, ou mais exatamente o PT (que adora confundir governo com Estado e a si próprio com toda a sociedade), acabem sofrendo sanções econômicas fortíssimas. Como resultado, todo o noticiário dá algum espaço para algum mamador de tetas estatais chamar o processo de impeachment de “golpe”.

De uma só feita, temos em curso no país um golpe capaz de tomar Executivo (nem comentamos sobre as maracutaias investigadas pelo TSE e pelo TCU), o Legislativo, o Judiciário e também a imprensa e a classe de espermatozóides verbosos que vai criar um imaginário coletivo capaz de fazer a idéia de “golpe” pegar entre os que refletem pouco antes de adotar uma palavra pronta.

Fazendo uma simples conta de 0 a 3, conclui-se que a única maneira de preservar as instituições brasileiras de um golpe em curso há mais de uma década, portanto, é justamente apoiando o impeachment.

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  • Mariana

    Sofisma total. Impeachment como método de reverter o resultado das urnas é golpe sim. Mesmo que o poder não caia automaticamente no colo de quem propõe essa medida, ela só surge em função de uma irresignação contra a expressão da vontade popular da maioria nas urnas. O que caracteriza o golpe ou o golpismo não é apenas querer o poder todo para si, mas tentar apear quem chegou a ele pelo voto. Aí se tecem dezenas de frases de efeito para justificar tal medida e para dizer que ‘golpe é o que o PT faz’. Porra nenhuma, Flávio. O BNDES não financia só ricos, Quem aparelhou os três poderes foi justamente quem hoje promove o golpe. Tanto é que tucanos não são investigados e punidos, mesmo com provas e delações e que o TCU, braço do Legislativo, atua como tribunal político impugnando coisas que nunca impugnou em governos anteriores. O executivo estadual e municipal nunca esteve subordinado ao federal nem por subterfúgios, isso é delírio teu. Jà a grande mídia, esta se subordina si ao grande capital que é aliado ao PSDB por razões ideológicas e por genealogia próxima. Vamos falar a verdade: você tenta justificar o injustificável e alinhavar pretextos para o golpe cuja única razão de ser é não aceitar a democracia. A CF prevê várias coisas, mas quando são invocadas fora do contexto legitimador, podem ser a expressão de um arbítrio ou golpe. Das verbas publicitárias dadas à grande mídia – em valor exponencialmente maior que aos pequenos blogs – você não fala. Claro, só se arregimenta argumentos a favor do que queremos impor como verdade. Tua fala é tão equivocada que o ‘advogado do PT’ no STF só vota contra o PT, já reparou?

    • Flavio Morgenstern

      Dilma ganhou apertadíssima, não teria ganho se a eleição fosse na semana seguinte, está sendo investigada pelo TSE, pelo TCU e pela Lava Jato a respeito de “irregularidades” na campanha (ou seja, “ganhou” com fraude). Fora o apoio de 68% da população ao impeachment. Todo impeachment “reverte” o resultado das eleições. É a própria idéia do mecanismo: ter um dispositivo para alguém eleito que traiu as aspirações do povo (mentiu, enganou etc) não continuar com poder absoluto. Pela sua concepção, o PT praticou ou tentou praticar 4 golpes, então deveria até ser uma legenda cassada, de tão corrupta. Quer dizer que os 3 poderes hoje são dos tucanos? A grande mídia selfie com Dilma é tucana? O “grande capital” não está com Dilma? Você trata “verba publicitária” não como publicidade, mas como apoio ao partido claramente – e ainda reclama de a grande mídia ter “mais verba exponencialmente” do que pequeno blog (por que será?!)? Essa lógica de petista “argumentando” pegando discurso pronto de blog financiado pelo PT (e ainda achando anti-ético não ter financiamento!), e com o NOSSO dinheiro, é prova cabal da destruição que o petismo gerou na mentalidade brasileira.

  • Ola, Flávio.
    Sou de exatas, veja você. E acompanho e admiro sou trabalho.
    Apesar de ser mais novo que você, enxergo grande sabedoria numa pessoa ainda de pouca idade, e faço votos que continue contribuindo com análises sérias e mantendo a alta cultura viva.

  • Walter

    Ótimo texto! Eu queria pedir sugestões ao Flavio Morgenstern e aos outros leitores com relação a dicas de sites e jornais para me manter informado, além do Senso Incomum. Ademais, dicas de livros que possibilitem aumentar meu conhecimento sobre política.

    • Flavio Morgenstern

      Walter, estamos trabalhando em um painel. Fique de olho.

  • Italo Salomão

    Por isso que insisto numa faxina geral liderada pelos militares. Destituição total dos três poderes, cadeia nos bandidos, fuzilamento na corja e convocação de novas eleições em no máximo 6 meses. Precisamos dar um reset no Brasil!!!

    • Flavio Morgenstern

      Não é a mesma coisa que os bolivarianos querem?

  • Eu tenho uma resposta mais simples ao petista:

    “Impeachment é golpe, concordo. Qual partido pediu impeachment de TODOS os presidentes desde a redemocratização? O PT. Logo, o PT é o partido mais golpista de todos.”

    Headshot.

    • Jean

      Show!

  • Eduardo Carvalho

    Impecável! Uma ilha nas manchetes do dia! Acho que o Sr. complementa o Antagonista com textos mais analíticos. Os deles são mais curtos, mas não menos importantes relevantes.
    Esse imaginário coletivo mencionado no texto, da imprensa e dos espermatozóides verbosos, insufla a ideia de golpe e constrói uma paralaxe cognitiva de oligofrênicos que não enxergam essa conta elementar didaticamente explicada pelo Sr. Morgenstern.
    Fazer o quê? Estamos na geração dos filhos dos educados pelo método Paulo Freire. Viva os macaquinhos..

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