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Lagostas como elefantes brancos

As lagostas do STF

A linha de passe do STF tem bobó de camarão, camarão à baiana, medalhões de lagosta, bacalhau à Gomes de Sá, frigideira de siri, moqueca, arroz de pato, vitela assada, codornas assadas, carré de cordeiro e medalhões de filé. Faltou o rabo de tatu

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Uma das prerrogativas do estadodemocraticodedireito brasileiro, cantado em prosa e verso por renomados estúpidos, é que os poderosos merecem gozar das mais sublimes regalias. O povo, oras, não é lá muito cuidadoso e tem gostos pra lá de duvidáveis. 

E é pra se descolar do povo e de suas esquisitices que gente poderosa gosta de parecer chique, mesmo que sua ideia de “chiqueza” seja bem parecida com a do povão que eles desprezam. 

Vinhos chiques e lagostas povoam o imaginário de gente jeca que pensa ser elegante, assim como a necessidade de ser tratado com reverência e pompa pelo populacho. A psicologia dos poderosos é bem simplória, diga-se.

É até simples de explicar: quem nada tem em seu interior precisa revestir sua aparência com os ornamentos que lhe pareçam mais refinados. De modo que é perfeitamente aceitável que tipos cuja inteligência são esquálidas kitnetes tenham de enfeitar o hall de entrada de tal modo que ninguém nunca lhes faça uma visita.

Nossos ilustríssimos juízes do supremo estão corretos em tragar os melhores vinhos e deglutir saborosas lagostas. O que lhes resta? Pense em Gilmar mendes, o soltador geral da república. Pense em sua vida diária. O que é seu dia senão um amontoado de bons vinhos, mousses e outras iguarias que desembocam num festival irrefreável de peidos? Quanto menos rebuscada a alma, mais expansivo o hábito.

E Toffoli? O garboso advogado repetente deve amar o luxo! Nada mais povão, não? Que o diga Joãozinho Trinta: “quem ama o lixo é intelectual”. E Toffoli, convenhamos, pode ser qualquer coisa: a única pecha que não pode lhe ser dada, nesse e nem em nenhum universo paralelo, é a de intelectual.

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Outro dia mesmo, vimos as caras e as bocas que Vossa Excelência, o Meritíssimo juiz Marco Aurélio Mello fez quando foi chamado de “você” por uma advogada no plenário do Supremo. Que aula de reprimenda deu o magnânimo! Marco Aurélio se encaixa bem na separação entre aparência e substância: a aparência é a de um magistrado romano; a substância é a de um bandeirinha marcando um escanteio.

Claro que o desperdício de recursos deve respeitar algumas regras: nada de reuniõeszinhas íntimas; a farra com o dinheiro dos outros deve ser gasta apenas nos surubões em que, ao menos, duas “altas autoridades” estiverem presentes. Há que se observar a liturgia da mamata! (Sotaque afetado do Você Mello)

O povo deve entender que, entre despachos feitos pelos estagiários e nada pra fazer, os veneráveis juízes merecem a devida merenda. Nossos supremos são verdadeiros espumantes premiados. Comam e bebam bem, ministros!

Eu dou ainda uma ideia: os ministros deveriam pedir que se anexasse em seus amplos gabinetes acarpetados uma salinha do flato. Uma breve licitação milionária, um mês de obras, no máximo, e o nossos semi-deuses poderiam desfraldar boa parte de seus intelectos na mais plena privacidade.

Nelson Rodrigues dizia que, no Brasil, nem as vacas premiadas tem semblante alegre. Nelson, coitado, não teve a honra que tivemos de ver as expressões luminosas dos nossos nababescos ministros do Supremo.

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Carlos de Freitas

Carlos de Freitas é o pseudônimo de Carlos de Freitas, redator e escritor (embora nunca tenha publicado uma oração coordenada assindética conclusiva). Diretor do núcleo de projetos culturais da Panela Produtora e editor do Senso Incomum. Cutuca as pessoas pelas costas e depois finge que não foi ele. Contraiu malária numa viagem que fez aos Alpes Suiços. Não fuma. Twitter: @CFreitasR

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