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La garantia soy yo

Um néscio na corte

Em entrevista ao Estadão, ministro Toffoli revela toda a riqueza e a complexidade inexistentes no seu pensamento

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Acaba de ser publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo uma entrevista com o nosso respeitável e magnânimo ministro do STF, Dias Toffoli. Entrevista essa que tem tudo para se tornar a mais transparente dos últimos anos. Transparente porque são necessárias horas e horas de investigação minuciosa, de esgotamento nervoso, de quase automutilação, para que se vislumbre um contorno que seja do nosso inodoro ministro.

A grande revelação da entrevista, que surpreende até o mais insensível dos mortais, é que Dias Toffoli se chama… José Antônio. Nome singelo, sóbrio, pouco afeito a multidões. Quem vocês mais admiram na vida? José Antônio! Impossível, não?

Pois passemos aos finalmentes.

O carinho com que o jornalista se dirige a seu entrevistado beira o amor carnal. Todas as perguntas são feitas para que o ministro saia por cima. Essa chama que arde sem se ver parece que queimou os neurônios do jornalista, ou será que foi algo mais natureba que o deixou assim bestializado?

Palco montado para o show, foi a vez de Toffoli brilhar. Mas, triste sina do falso artista, o ministro não brilha nem com toneladas de purpurina despejadas em sua caricata persona. Alguém desavisado pode até se impressionar (tem gente que sente verdadeiro frenesi diante de um prato de jiló) e é por isso que essas mal traçadas linhas se fazem cruciais. 

Pondere-se algumas de suas colocações:

“Eu sempre disse: juiz não pode ter desejo. O juiz que quer ter desejo tem que largar a magistratura e ir para a política. Eu elogio aqueles que fazem isso”, diz José Antônio. A frase é bonita, não fosse pelo detalhe quase irrisório de que a vida inteira de Toffoli foi cercada por política. Por acaso, em sua vida pregressa, Dias Toffoli foi advogado trabalhista, fiduciário, tributário ou criminal?

Não! José Antônio Dias Toffoli passou a quase totalidade da sua vida como advogado do Partido dos Trabalhadores. O partido responsável pelo maior e mais competente assalto aos cofres públicos já registrado na nossa breve história enquanto humanos na terra. Por acaso isso não é política? 

Não poderia se esperar nada mais concatenado de quem foi reprovado duas vezes no exame para a magistratura. Ao menos o ministro não tem aquele freio interno que se chama consciência e que, na maioria dos casos, impede o que denomina-se, em linguagem culta, de ridículo. Deve se orgulhar disso.

Diz ainda que instaurou um inquérito contra os ataques aos ministros para proteger a democracia. O que enche o povo de apreensão é a ideia que o ministro tem da democracia. Os vinhos e as lagostas não podem ser incomodados de jeito nenhum. Isso é uma afronta à democracia, pensa o ministro.

Comenta também a estapafúrdia decisão sobre a prisão em segunda instância. Psicólogo nato, o ministro não acha que a percepção do povo no que tange às punições contra bandidos tenha sido afetada com o veredito da nossa corte suprema. José Nêumanne deu a resposta definitiva ao Excelentíssimo Reverendíssimo Ministro Marco Aurélio Mello (não queremos incomodar Marquinho com pronomes de tratamento pouco ressonantes).

Zê Antônio, ao ser questionado pelo admirador, quer dizer, entrevistador, sobre o comentário do ministro Barroso que disse ser necessário aprender javanês para entender seu voto sobre o Coaf,  julga (verbo infeliz, eu sei) seu voto perfeito não pelo que ele entende do que escreveu, pela clareza e fluidez, mas pelo que outros dizem. “O meu voto foi elogiadíssimo pelos membros da UIF (Unidade de Inteligência Financeira, antigo Coaf), que o consideraram tecnicamente perfeito. Então, os membros da UIF entendem muito bem de javanês”, disse orgulhoso o ministro.

Sempre respaldando suas decisões na ausência de convulsões sociais, como se estivéssemos vivendo além do arco-íris, Toffoli nos brinda com sua visão primitiva de mundo. “Os nacionalismos são uma reação à globalização”, diz o ministro confundindo alhos com bugalhos. 

Há os momentos de lucidez, como os há em qualquer amalucado que transite por uma via de trânsito reclamando da imprudência dos motoristas ao mesmo tempo que diz ser o Papai Noel. Mas nesses momentos não vemos nenhum lampejo de autocrítica, de uma real análise do atoleiro em que se encontra a nossa corte suprema. 

De todo esse caldo de chuchu, dessa rebordosa de conceitos, pode-se concluir que o projeto de país do ministro, que ele diz ser fundamental ao país, é nenhum.

Dias Toffoli faz jus à ideia de que os poderosos brasileiros empolaram sua linguagem de modo a parecerem verdadeiros Hegels. Mas quando o ouvido é treinado, percebe-se que, por trás da aparência hegeliana, esconde-se a substância de um Nerso da Capitinga.

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Carlos de Freitas

Carlos de Freitas é o pseudônimo de Carlos de Freitas, redator e escritor (embora nunca tenha publicado uma oração coordenada assindética conclusiva). Diretor do núcleo de projetos culturais da Panela Produtora e editor do Senso Incomum. Cutuca as pessoas pelas costas e depois finge que não foi ele. Contraiu malária numa viagem que fez aos Alpes Suiços. Não fuma. Twitter: @CFreitasR

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