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Jornalistas profissionais se calam sobre plano parlamentarista de Maia na Espanha

Sem tempo para lidar com futilidades, como os chantagistas do Congresso, imprensa quer mesmo é saber se Bolsonaro afivela o cinto corretamente e se sua mesa de café da manhã é de verdade

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No debate público brasileiro, estimulado pela incapacidade motora e mental dos jornalistas profissionais, nada mais parece ter a devida importância. Ao fazer alarde sobre qualquer deslize de etiqueta de Bolsonaro, a oposição e a imprensa neutralizaram seus próprios movimentos. Nem discussão de boteco é tão ruim.

O Tal Guilherme Amado vai buscar uma fonte confiabilíssima: Alexandre Frota.

A inteligência dos ungidos guardiões da informação paga é tanta que é melhor pedir a opinião de um flanelinha do que a de um deles. A perda do contato com a realidade é brutal. O fosso que separa o castelinho de cristal da elite tagarelante do mundo de quem trabalha só aumenta.

Parece que a Graça Celestial deu uma ajudinha para o povo. 

 


O padrão de normalidade da classe jornalística é a mentira e a autolatria. Para se integrar ao meio, o jovem jornalista perde toda sua capacidade de discernimento e adere feito um patinho aos mandamentos daqueles com mais prestígio. A base que moldou o mundo da pessoa se rompe. O que vimos nos episódios envolvendo Patrícia Campos Mello e Vera Magalhães demonstra isso claramente.

Pegas na mentira, coube ao bando vir em defesa de suas representantes.

 

Som e fúria

Bolsonaro se torna cada vez mais o alvo do rancor e da inveja dos profissionais do jornalismo. Não há um movimento seu que escape. Com todos os seus olhos voltados ao presidente e seu em torno, Congresso e STF colocaram as mangas de fora. 

Os maiores desmandos e afrontas às instituições passam despercebidas pelos jornalistas. Uma parte recebe bons nacos de dinheiro para fazer vista grossa, outra parte, obediente, empana sua atenção no presidente.

Por isso, Celso de Mello pode atacar o presidente, recebendo toda a atenção e carinho dos profissionais do texto.

A declaração do Juiz do STF, aliás, também é um ataque às instituições. Para piorar, Celso de Mello manifestou-se contra o presidente com base em fofoca jornalística. Daí, talvez, a enorme popularidade que o senhor Celso de Mello (quem?) possui junto ao povo que não o elegeu.

Por isso, Cid Gomes pode invadir um quartel com uma retroescavadeira, ameaçando a vida de dezenas de pessoas, ser contido na bala e ainda sair na mídia como a vítima. E seu irmão, o coroné Ciro, xinga quem quiser e ainda causa emoção nas pregas de muitos dos profissionais.

Por isso, Rodrigo Maia pode viajar para a Espanha, traçar planos pouco transparentes sobre um possível parlamentarismo no Brasil, e ninguém publicar uma linha na grande imprensa. A própria embaixada, pega em flagrante, apagou o tuíte em que mencionava a movimentação do fã de baconzitos. 

Maia volta da Espanha como um touro. Não um touro bravo e musculoso, daqueles que enfrentam toureiros; apenas o touro sedentário e comilão que sempre foi; tão faminto de poder que não quer esperar as eleições para testar toda sua popularidade. Quer resolver agora mesmo a parada, na base do conchavo.

E está recebendo todo o suporte dos jornalistas profissionais. 

Rebaixando o debate público a um jogo de cartas com trapaça permitida, a mídia se afundou num lamaçal do qual será difícil sair. Ao dar mais importância a uma mensagem de WhatsApp compartilhada pelo presidente do que aos constantes desmandos de ministros do STF e congressistas – lembre-se que ninguém manifestou repúdio à fala de Marcelo Freixo propondo destruir o governo – a mídia oficial e profissional, exaltada por Vera Magalhães, não merece o menor crédito.

O jornalismo profissional sofre com o “pavor do ocaso sob o teto, o crepúsculo que esfuma os contornos, adensa as formas e dá a sensação amaríssima da cegueira gradual”, como Fidelino de Figueiredo descrevia certas pessoas. 

O importante mesmo, nos assuntos do subsolo da vida, é que Maia não pode usar dinheiro público para traçar novos planos para a política brasileira no exterior. Isso não é conspiração? 


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Carlos de Freitas

Carlos de Freitas é o pseudônimo de Carlos de Freitas, redator e escritor (embora nunca tenha publicado uma oração coordenada assindética conclusiva). Diretor do núcleo de projetos culturais da Panela Produtora e editor do Senso Incomum. Cutuca as pessoas pelas costas e depois finge que não foi ele. Contraiu malária numa viagem que fez aos Alpes Suiços. Não fuma. Twitter: @CFreitasR

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