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O Dia em que a Tela Parou

Como o Coronavírus pode ter mudado para sempre a indústria do cinema

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Cinema, Covid

O início de 2020 parecia um ano como qualquer outro para a indústria cinematográfica. Os estúdios divulgaram suas apostas para levar às salas de exibição milhões de pessoas que, por sua vez, deixariam alguns bilhões de dólares nos cofres de Hollywood. O Senso Incomum até fez uma matéria sobre alguns dos filmes mais esperados do ano, como 007: Sem Tempo para Morrer, Viúva Negra e Mulan.

Viúva Negra: um dos filmes que teve a data de estreia adiada

E, então, o mundo foi obrigado a entrar em prisão domiciliar graças à chegada de um vírus que causou alguns milhares de mortes e consequências terríveis para a economia. Se quase todos os setores do comércio e das artes sofreram com as quarentenas e medidas draconianas impostas pelos governos, uma boa parte dos negócios e serviços têm chances de voltar ao normal enquanto o mundo começa a retomar suas atividades. Porém, isso pode não valer para a indústria cinematográfica.

Cinema online

As medidas restritivas fecharam cinemas em todo o planeta, já que aglomerações causariam a transmissão descontrolada do coronavírus, segundo a Organização Mundial da Saúde. Um duro golpe para os cinemas – hoje, em sua maioria, pertencentes a grandes redes de exibidores. A ordem para fechar a maioria dos cinemas americanos em 18 de março causou, por exemplo, uma enorme crise para a rede AMC Theatres, dona de 8200 das cerca de 40.000 salas de cinema nos Estados Unidos. Como pagar o aluguel dos prédios que alugam e honrar os salários de funcionários quando uma empresa é obrigada a permanecer sem renda por cinco ou seis meses? A empresa pode apelar a seus cofres, mas a situação coloca em risco sua sobrevivência a médio prazo.

O Homem Invisível: disponível para aluguel digital um mês após a estreia nos cinemas

Por sua vez, os estúdios de cinema, quase sempre partes de bilionários conglomerados de entretenimento, adotaram certas táticas quando notaram que suas produções não poderiam chegar ao público. Uma dessas táticas já era esperada: adiaram as datas de estreias em vários meses. O novo 007, por exemplo, foi adiado de 9 de abril para 19 de dezembro. Outra estratégia foi lançar seus filmes já lançados na telona rapidamente para o aluguel digital. O terror O Homem Invisível, por exemplo, estreou nos cinemas americanos em 28 de fevereiro e conseguiu uma bilheteria expressiva de US$ 132 milhões ao redor do mundo, contra um orçamento de produção de apenas US$ 7 milhões. Mas, com o fechamento dos cinemas, a Universal Pictures decidiu disponibilizar o filme para aluguel digital, no sistema de Video on Demand, apenas um mês após sua estreia na telona – a demora normal costuma ser de dois a três meses. Outros estúdios seguiram o exemplo, como a Disney com o desenho Dois Irmãos, a Warner com Aves de Rapina e a Sony com Bloodshot.

A princípio, as redes de cinema não se manifestaram contra essa estratégia. Afinal, com os cinemas fechados, os estúdios precisavam fazer com que seus filmes já lançados rendessem o máximo possível em um curto espaço de tempo, já que não podiam mais continuar em exibição nas salas. Porém, as redes não gostaram nem um pouco quando a Universal anunciou que a animação Trolls 2, aguardada continuação de um sucesso de 2016, seria lançada por apenas duas semanas em alguns poucos cinemas ainda abertos em 10 de abril e, na mesma data, ficaria disponível para o aluguel on demand. O aluguel arrecadou mais de US$ 100 milhões de dólares para o estúdio em apenas um fim de semana, um recorde para esse tipo de lançamento.

A animação Trolls 2 mostrou à Universal a possibilidade de um novo modelo de negócios

Animada com o sucesso, a Universal anunciou planos para, dali em diante, disponibilizar seus filmes para aluguel digital apenas duas semanas após a estreia nos cinemas. A rede AMC não ficou nada feliz com a declaração do estúdio e anunciou que, em represália, não exibiria mais os filmes da Universal em seus cinemas, um potencial desastre para a Universal, que teria grandes prejuízos se perdesse sua parceria com a rede.

A estratégia do aluguel digital, porém, se espalhou por outros estúdios. Estúdios cancelaram seus lançamentos nos cinemas e começaram a ser disponibilizados para aluguel digital. A Sony, após anunciar por meses a estreia do drama de guerra Greyhound: Na Mira do Inimigo, escrito e estrelado por Tom Hanks, cancelou a chegada às salas de exibição e vendeu os direitos da produção orçada em US$ 50 milhões para o serviço Apple TV+ por US$ 70 milhões. O mesmo caminho foi seguido por outras produções que antes tinham como destino a tela grande, como a animação Scooby! O Filme, a aventura juvenil Artemis Fowl: O Mundo Secreto e a comédia Bill & Ted: Encare a Música.

Prometido para o cinema, o drama Greyhound acabou vendido para a Apple TV+

No streaming e no Drive-In

Com tanta gente presa em casa, aconteceu o inevitável: o acesso aos serviços de streaming como Netflix e Amazon Prime aumentou, em média, 73%. O serviço de streaming Disney Plus (ou Disney+, como ficou estilizado) viu um aumento de 43% em suas assinaturas entre março e abril. Os serviços se tornaram as melhores fontes para novos filmes e a Netflix conseguiu grande audiência para algumas das suas superproduções como The Old Guard, baseado em uma HQ da Image Comics.

O interesse do público cinéfilo em ver filmes em tela grande acabou criando um novo fenômeno. Os drive-ins, em que as pessoas vão para assistir a filmes em um estacionamento e dentro do ambiente protegido de seus próprios carros, voltaram a ser populares após décadas quase esquecidos. Mas, sem filmes novos para exibir, os drive-ins começaram a ganhar dinheiro com a exibição de produções que há anos já rodam pelas TVs e no mercado de vídeo, como Os Caça-Fantasmas original, De Volta para o Futuro e Os Goonies. Já a rede de exibição Regal Movies, que reabriu algumas de suas salas em 10 de julho, passou a reapresentar com exclusividade produções como Rocky: Um Lutador, Jurassic Park e Batman: O Cavaleiro das Trevas.

Clássico de 1984, Os Caça-Fantasmas voltou aos drive-ins com sucesso

Todos os estúdios de cinema estão preocupados, mas talvez a situação mais complicada seja a da Disney. A empresa se apoia há anos em uma arrecadação contínua de seus filmes nos cinemas e nas bilheterias de seus parques de diversão. Com os cinemas e os parques fechados, a empresa se viu frente a um grande problema de fluxo de caixa, o que fez com que suas ações na bolsa perdessem muito valor em pouco tempo. De olho no sucesso que a Universal teve com Trolls 2, a empresa anunciou que Mulan, versão com atores de um de seus grandes sucessos na animação, não chegará mais aos cinemas, mas será disponibilizado em 4 de setembro para os assinantes do Disney+ dispostos a pagar 30 dólares para ter o filme disponível por tempo ilimitado

Se uma família de quatro pessoas fosse ao cinema para ver Mulan, despenderia cerca de 80 dólares – pagando os 30 dólares pelo acesso digital, a família economiza 50 dólares. É uma jogada que pode vir a mudar a forma como os filmes chegam ao público. Se funcionar e gerar lucro o bastante, muitos estúdios poderiam privilegiar esse método de lançamento para muitos de seus filmes, disponibilizando-os diretamente para o aluguel em casa. Nesse formato, para angariar uma “bilheteria” de US$ 500 milhões de dólares, um filme precisaria ser alugado por cerca de 17 milhões de famílias. Não é algo impossível: segundo a Netflix, um de seus filmes de maior sucesso, o terror de ficção científica Bird Box, estrelado por Sandra Bullock, foi visto em cerca de 89 milhões de residências ao redor do mundo apenas em seu primeiro mês de exibição. De qualquer maneira, vale notar que viralizou na internet o vídeo de um dono de cinema destruindo um display de Mulan em protesto contra a atitude da Disney.

Mulan, um dos filmes mais esperados do ano, direto para o aluguel digital

Pesquisas recentes indicam que as pessoas querem muito voltar a frequentar cinemas. No Brasil, ainda não há uma data exata de quando as salas voltarão a abrir em todas as regiões, mas nos Estados Unidos a expectativa é de que a maioria dos cinemas volte a funcionar normalmente a partir de setembro em muitas cidades. Porém, isso ainda não deixa os estúdios aliviados. Afinal, a volta será regida por diversas restrições, como a diretriz de que uma sala de cinema só poderá ser ocupada em 40% de sua capacidade por sessão, para manter o distanciamento entre os espectadores. Isso certamente fará com que o retorno financeiro de um filme demore muito mais a ser alcançado.

Se produções como Vingadores: Ultimato conseguiam arrecadar US$ 1,5 bilhão em apenas oito dias de exibição e salas lotadas, nas condições de distanciamento conseguiria “apenas” US$ 600 milhões nesse período. Mesmo que ainda seja um valor considerável, daqui em diante pode ser mais difícil para os filmes baterem recordes de bilheteria. Por isso, teriam que ficar muito mais tempo em exibição, o que levaria os estúdios a diminuírem sua produção anual e a apostar apenas em filmes que têm mais chances de gerar lucro, como as produções de aventura, ficção científica e terror. Com isso, muitos dramas e comédias menores deixariam de ser produzidos ou, na melhor das hipóteses, migrar para os serviços de streaming.

Um sucesso como o de Vingadores: Ultimato pode não se repetir tão cedo nas bilheterias

De volta aos cinemas

Há outros fatores a serem levados em consideração: enquanto não houver uma vacina ou cura comprovada para a Covid-19, o público pagante pode vir a frequentar menos as salas de cinema para evitar riscos. Filmes com altas bilheterias geralmente significam que muitos vão vê-lo no cinema repetidamente, até quatro ou cinco vezes. Mas, com o medo da pandemia, muitas dessas pessoas podem ir ao cinema apenas uma vez e evitar a repetição, com medo de se arriscar vezes demais em uma sala com desconhecidos.

O público pode deixar de consumir guloseimas vendidas pelo cinema

Para os próprios cinemas, há mais um possível complicador. Como se sabe, a maior parte do lucro obtido por um cinema vem da venda de pipoca, bebidas e doces. Mas, com a preocupação com higiene frente ao vírus, o público pode se tornar menos propenso a ingerir comida e bebida manuseada por terceiros e deixar de consumir as guloseimas disponibilizadas na sala de espera, o que diminuiria ainda mais o lucro das salas exibidoras.

Até o momento, nada é certeza para a indústria do cinema e todos os envolvidos nela parecem estar tomando precauções para garantir sua sobrevivência. A Universal Pictures, por exemplo, fez um outro anúncio recente para colocar panos quentes em sua relação com a AMC. O Estúdio vai passar a atuar com um novo modelo de distribuição, em que seus filmes serão exibidos exclusivamente nos cinemas por apenas dezessete dias antes de serem disponibilizados para o aluguel digital, como já queria, mas fez um acordo com a AMC para repassar parte dos valores do aluguel para essa rede exibidora. A diretoria da AMC ficou feliz com o acerto, mas ele gerou protestos de redes como a Regal e outros concorrentes da AMC, que já ameaçam parar de exibir os filmes da Universal, uma vez que foram excluídos da jogada.

O acordo entre a Universal e a AMC pode mudar a indústria do cinema

Que consequências tudo isso trará para o hábito de ir ao cinema e para a viabilidade econômica da indústria cinematográfica ainda é uma incógnita, mas não parece difícil que o público em geral comece a consumir mais e mais filmes em plataformas digitais e que os estúdios tenham cada vez mais esse público como alvo principal. E, com tantas mudanças e tantas variáveis surgidas nos últimos meses, o cinema como conhecemos por mais de cem anos talvez nunca mais volte a ser como era.


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Maurício Muniz

Maurício Muniz é jornalista especializado em cultura geek, tradutor e editor de quadrinhos, livros e revistas e do blog O Pastel Nerd. É coautor dos livros Vampiros na Cultura Pop e O Império dos Gibis e do quadrinho Kris Klaus: Papai Noel Casca-Grossa

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