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Suspeito

Por que Barroso se considera suspeito para julgar João de Deus?

Ministro do STF não se considerou suspeito nem para julgar ações que favorecem quem o indicou. Por que com João de Deus é diferente?

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O ministro do STF Luiz Roberto Barroso se auto-declara suspeito para julgar o assim chamado “João de Deus”, médium e curandeiro acusado de abusos sexuais.

Na verdade, é até difícil determinar do que João de Deus é acusado. Em um primeiro momento, 12 mulheres o acusaram de abuso sexual, em circunstâncias que revelam um certo “comportamento de seita”, com intensa lavagem cerebral e culpas comungadas. Depois, 38 mulheres quebraram o silêncio e as acusações de abuso sexual se intensificaram contra o apadrinhado de Chico Xavier. Depois, João Teixeira de Farias foi acusado também de tráfico e assassinato, até mesmo tendo estuprado uma adolescente perto de um riacho e disparado três tiros contra ela.

É consabida a proximidade de Luiz Barroso com João de Deus, tendo inclusive elogiado o curandeiro com a declaração: “há alguma coisa totalmente transcendente nesse poder que ele tem de exalar o bem, de curar pessoas e de extrair o que há de melhor nas pessoas” (veja video no Terça Livre).

Para o Diário do C. do Mundo, foram “bolsonaristas” que resgataram a fala. Para a Revista Fórum, Allan dos Santos resgatou o vídeo “para defender Bolsonaro do ‘terraplanismo'”, seja lá o que esse título estúpido queira dizer. Mas nem os sites de extrema esquerda conseguiram afirmar que o vídeo é “fake news”, como é a nova moda.

Mas a dúvida que surge é: por que Barroso se considera suspeito de julgar logo João de Deus? Por que logo de João de Deus, e não de tantos outros casos?

Barroso foi advogado do assassino Cesare Battisti, comunista procurado internacionalmente pelo assassinato de quatro inocentes que estavam no caminho do seu grupo terrorista “Proletários Armados pelo Comunismo” (ainda que, hoje em dia, seja considerado “teoria da conspiração” afirmar que há terroristas, armados e pelo comunismo).

Battisti era protégé de Lula e Dilma, que o mantiveram no Brasil com toda a mordomia, maculando internacionalmente a imagem do país, que passou a ser entendido como protetor de assassinos, simplesmente graças ao alinhamento ideológico de Lula e Dilma (esta última, inclusive, não teve um histórico muito diferente do de Battisti). Uma das primeiras ações de Bolsonaro no governo foi devolver o assassino para a Itália.

Battisti estava no Brasil protegido especialmente pelas conexões de José Dirceu. Barroso não se viu impedido para julgar um indulto a José Dirceu (!), simplesmente o livrando da pena pelos crimes do mensalão, apenas porque Dirceu, tal como Battisti, era um protégé de Dilma. Dilma indicou Barroso ao STF, sendo do mesmo partido de Lula e Dirceu. Barroso, que defendeu Battisti, julgou um indulto que favoreceu Dirceu.

Nada disso abalou o digníssimo ministro, que muitos afirmam ser o maior constitucionalista do país. Por que João de Deus o afeta?

Recentemente, Barroso acendeu o alerta sobre a, digamos, imagem séria do STF ao fazer uma live com o youtuber adolescente Felipe Neto. A caixa de comentários foi provisoriamente deixada de fora da live. Gostaríamos, por exemplo, de perguntar ao ministro se ele concorda com algumas declarações de Felipe Neto, como a de que “homens não sabem chupar b*****”, feita em um canal de público infantil. Outros vídeos de Felipe Neto mostram o seu público-alvo só pelos títulos, como “Misturei Todos Os Chicletes e Provei” ou “O Melhor Brinquedo do Mundo de R$ 500!! (Hot Wheels Star Wars)”.

Dirceu não incomodou Barroso. Felipe Neto não incomodou Barroso. Mas João de Deus o deixa com a pulga atrás da orelha.

Também é consabida a proximidade de João de Deus com algumas figuras do alto Judiciário. O curandeiro estava presente, por exemplo, na cerimônia de posse de Rosa Weber. O médium já “atendeu” também Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Luiz Fux e, claro, Weber e Barroso. Provavelmente no mesmo lugar onde aconteciam os abusos sexuais e possíveis demais crimes do curandeiro anti-científico – já bastante esquisito para um tribunal tão preocupado com supostas “fake news” e querendo impor visões “científicas” para a sociedade, além de tratar como verdade a teoria da conspiração das supostas “milícias digitais”. Barroso, inclusive, fala em “terraplanismo” com desprezo hoje, a um só tempo em que acredita que João de Deus “cura” pessoas por “algo transcendente”.

Dizem à boca miúda que João de Deus tem uma delação em mãos que pode afetar muita gente poderosa, inclusive no Judiciário. É fácil atribuir a auto-suspeição de Barroso e outros a um mero coleguismo, respeito pelo passado, ao contrário de um suspeitíssimo medo de revelar segredos, que sabemos que Barroso certamente não teria.

Apenas chama a atenção que Barroso não se considera suspeito para julgar toda a estrutura de poder partidário pelo qual foi indicado (Lula que é do PT, que indica Dilma que é do PT, que indica Barroso, que defendia Battisti, que julga indulto para Dirceu e assim sucessivamente), mas por que João de Deus é um homem capaz de fazer com que os impolutos, semi-perfeitos e sensacionais ministros do STF pedirem suspeição um a um?

Por que João de Deus é capaz de algo de que nem Lula é capaz?


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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record).

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