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Vachina

Uso emergencial não é vitória da ciência – é da política

A arte da política é fazer coisas que pareçam ser vantajosas para os ignorantes. A aprovação para uso emergencial da droga chinesa é uma delas

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Há uma piada que diz que se um político precisar dizer que a Petrobras perdeu 70% do valor de mercado, ele dirá que o seu governo salvou 30% do valor da Petrobras. Em um país em que petrolífera dá prejuízo, em que temos de explicar piada, em que temos de explicar piada para fact-checkers, em que qualquer piada parece light perto da realidade, em que liberal é pró-comunismo chinês e em que Doria quer virar presidente com sua “vachina”, a piada parece até inocência infantil.

A Coronavac foi ridicularizada no Washington Post, que deu destaque para a vacina que “só funciona metade das vezes”, em reportagem de Terrence McCoy e Eva Dou, há 4 dias. Mesmo assim, foi liberada pela Anvisa para uso emergencial.

Uso emergencial é, ehrr, emergencial. Quando você já apela para chá de boldo, florais de Bach, simpatia da sua vizinha e começa a rezar por deuses que não são da sua religião. Chega a dar vergonha ter de explicar isso para gente que se acha cientista nas redes sociais por seguir canal “nerd” no YouTube.

Afinal, o sr. João Doria torrou 90 milhões de dólares (cerca de R$ 476 milhões, quase meio bilhão de reais) com uma vacina que bateu na trave. Por 0,38%, não seria aprovada pela Anvisa. Qualquer droga no mundo que está sendo chamada de “vacina” funciona melhor do que a Coronavac (qualquer uma). A China não fez política pública com a Coronavac – prefere vender para algum trouxa que compre enquanto usa Sinopharm.

E o que se fará com meio bilhão torrado, se não sair espetando gente a esmo e à força por aí? Basta dizer que é “vitória da ciência”! Mas isso foi uma vitória de políticos que conseguiram transformar uma batata quente totalitária em uma narrativa positiva.

Conheça a verdade: obedeça aos seus donos. Clique antes que te mandem pra China.

Os resultados da “vachina” foram adiados duas vezes – será que o balão de ensaio caiu duas vezes, nestes chatos acidentes? Foram de “mais de 90% de eficácia” para descobrirem que ficaria abaixo dos 50% exigidos pela Anvisa. Milagrosamente, no último momento, bateu 50,38%! Certamente foi pura ciência! Uma trave científica!! Um gol de mão científico do Maradona!!

Estes 0,38% tão científicos! Só terraplanistas para desconfiar do bom coração do Partido Comunista Chinês mesmo! Como disse o Instituto Butantan, “Quem põe em dúvida o resultado apresentado especula contra a ciência e só favorece teorias conspiratórias”, o que nós nunca faremos, porque eles são a ciência!

Mas uso emergencial é assim: vale até 50,38%, canja de galinha, Yakult e homeopatia, ainda mais se você já pagou meio bilhão por isso com o dinheiro do povo.

Isto não significa que a ciência está dizendo que a vacina funcione, este mero detalhe – não viu o Atila afirmando que não tomaria vacina, deixaria para o povão tomar por ele, e se e somente se essas cobai… digo, se “a vacina funcionasse” (que construção curiosa de frase!) é que tomaria? Pois então, só vão usar a vacina, mesmo que ela valha só pra metade das pessoas.

É uso emergencial, não é “uso científico garantido, testado e comprovado”. O teste será em você! E a comprovação… bom, vamos torcer para você sobreviver!

E os efeitos colaterais possíveis e prováveis? Ocorreu com a vacina da Pfizer, com resultado bem mais robusto do que da Coronavac, mas que acabou matando 23 idosos na Noruega. Ora, se ocorrer algum efeito negativo com a Coronavac, o Partido Comunista Chinês toma total responsabilidade, e até o Doria e o STF vão disponibilizar todos os custos com o seu caixão para que você não tenha preocupações. Seu filho inclusive receberá aumento no seguro de vida, então pode morrer em paz.

Hahahah… estou brincando, óbvio. Se você tiver alguma complicação de saúde ou morrer, após o Estado te obrigar a tomar uma droga que ainda não foi testada em larga escala, te usando como cobaia, você que se lasque! =)

Está no contrato que a Sinovac não tem responsabilidade nenhuma, mas você tem obrigação de ser cobaia!

A propósito, a Anvisa não teve acesso à posologia da tal “vacina vitória da ciência”. O número de voluntários foi considerado muito baixo por qualquer entidade de saúde mundial (ok, excluindo totalitarismos comunistas). Sabe o resultado de “100% de eficácia em casos graves”, número que nem aspirina deve apresentar? Foram só 7 voluntários, e todos do grupo placebo! Isto para um país de 200 milhões de pessoas com etnias, idades, anamneses totalmente diferentes! Efeitos colaterais de longo prazo? Teoria da conspiração da extrema direita! Eles devem acreditar em nanotecnologia chinesa, só falta.

A “política de saúde” da tal “vachina” (que é uma droga ainda não testada com cauda longa, e você será uma cobaia compulsória) é 99,9999% política, e 0,0001% saúde. E uso emergencial não é ciência: é emergencial, gênio. Agora é rezar, que costuma funcionar melhor.

Quem ganhou foi a política. A “ciência” é só uma palavrinha que te mandam repetir como o pateta que você é no grupo de Zap da família, berrando “Fora Bozo”. Sem usar vírgulas.


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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record).

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