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O escândalo Doria não é caso de meme: é de impeachment

Não podemos tratar um governador pedir a cabeça de um jornalista que o critica como piada. Como meme. O ato de Doria é ditadura. É coronelismo. É cabresto. É caso de polícia

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Como coisas horrendas, como um genocídio, acontecem? Naturalizando o crime e demonizando a vítima. João Doria, o pior governador da história de São Paulo, capaz de fazer bolsonarista votar em comunista para se ver livre de seu botox, ligou para a rádio Jovem Pan como suposto “direito de resposta” ao comentarista Rodrigo Constantino, que o criticou após Doria atacar violenta e levianamente a prefeita de Bauru, a jovem Suéllen Rosim (Patriota).

O que se seguiu foi um vexame capaz de fazer o infame ataque de pelancas de Orestes Quércia parecer discussão de comadres: João Doria estrilou e, ao invés de contra-argumentar, difamou Rodrigo Constantino, afirmando, reiteradas vezes, sem apresentar provas, que Constantino teria “defendido um estupro” (sic). Nem Orestes Quércia desceu tão baixo.

O “direito de resposta” de Doria foi mera difamação (artigo 139 do Código Penal, com pena de detenção de três meses a um ano, e multa), salpicada por ataques gratuitos e acusações infundadas, como chamar Constantino de “vassalo do Bolsonaro” (?!), de defensor do “terraplanismo” (!!!) e de um “governo homicida” [o de Bolsonaro].

Além de tudo, Doria também disse que Rodrigo Constantino é um “negacionista”, termo só usado historicamente para designar pessoas que negam o Holocausto – e, agora, pandeminions e defensores da ditadura em resposta à crise da peste chinesa usam para quem defende a liberdade. É a versão suéter rosa de chamar discordantes de “nazistas”.

Outra “contra-argumentação” foi chamar Constantino de “pseudo-jornalista”. O que talvez seja considerado argumento só na cabeça de Vera Magalhães. Ou talvez nem na dela.

Coroando o bolo cerejosamente, Doria deu a entender que não aceita que Rodrigo Constantino permaneça como um quadro da Jovem Pan. Sendo o homem que cuida da publicidade de empresas como a Sabesp, companhia de saneamento de água do estado, Doria explicita que quer favorecer jornalistas que o bajulem (é “mera coincidência” que Vera Magalhães e Thaís Oyama foram parar na TV Cultura, gerida por dinheiro controlado pelo governo?), enquanto usa o poder do Estado para afogar financeiramente qualquer crítica. Sem argumentos.

É curioso como todas as coisas mais horrendas da humanidade só precisam ser descritas com um nome bonitinho para que as massas ignaras a defendam – sobretudo se, além de um ditador que as guiem, também forem escudadas e circundadas por uma súcia de intelectuais ou jornalistas a defenderem os desmandos. Demonize o atacado (chame-o de “negacionista”, “terraplanista”, “anti-democrático”, “homicida” etc) e eis o prato feito para o desastre.

Ora, receber uma crítica por uma péssima gestão que está custando vidas e ligar para uma rádio pedindo a cabeça de um jornalista ao vivo é algo que nem mesmo Orestes Quércia fez. É algo digno do coronelismo. Do voto de cabresto. A tal “democracia” em que se controla os votos, e o pensamento (chamar críticas de “fake news” serviu única e exclusivamente para tal fito).

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Não adianta chamar de “direito de resposta”. O que Doria fez foi algo mais autoritário até do que a ditadura militar.

Aliás, Doria não respondeu nada. O ataque covarde à prefeita Suéllen Rosim não foi respondido com fatos: Doria só defendeu a vacina da ditadura chinesa – o país mais parecido hoje com a Alemanha nazista – dizendo que foi “aprovada pela Anvisa”.

Como já explicamos, a vachina foi aprovada unicamente para uso emergencial – já que o governador torrou quase meio bilhão de reais do nosso dinheiro numa vacina que só tem 50,38% de eficácia, vai ela mesmo. A vacina da qual o Washington Post estava tirando sarro há pouco mais de duas semanas.

Ccurioso como com meros 0,38% a menos, a Coronavac não seria aprovada, e até a própria China prefere a Sinopharm – mas políticos conseguem centésimos milagrosos! Pura ciência! Aliás, repetir retoricamente a palavra “ciência” não torna nada científico. É típico de discurso de populista. Pergunte a qualquer neurolingüista ou crítico literário.

Doria se disse “defensor da vida”. Talvez da dele próprio, sobretudo em Miami, enquanto o paulista morre. Morre-se mais em São Paulo do que na média brasileira. Morre-se mais em São Paulo do que na Argentina, considerada mundialmente um exemplo de ineficiência (e com lockdown rígido e tudo).

Como alguém pode chamar um governo com média de mortes menor de “homicida”? Como alguém pode chamar de “direito de resposta” chamar qualquer pessoa que prefira a gestão federal de “defensor de homicida”? É caso de ativar o Código Penal. Faria mais sentido, pela “lógica” Doria, chamar o seu governo de “homicida”. São Paulo só compete em mortes por peste chinesa com os estados mais pobres do Brasil. Faria Lima entre Ceará e Sergipe.

Doria só deixou de esconder o que é: um coronelzinho. Um ricaço que acha que tem o direito divino de ser presidente. Um poderoso político da velha guarda que, por seu poder e por se cercar de jornalistas bajuladores (não merece investigação?!), acha que pode soldar o comércio, trancar o paulista em casa, enquanto vai curtir a vida sem máscara em Miami. E chama o clamor por liberdade do povo de “ataques”. Doria precisa descer do salto e voltar a ficar abaixo das leis.

O que Doria tentou fazer tem nome: censura. Ditadura. Algo que só se viu nos militares mais estúpidos desse país. Curioso como Doria, enquanto interrompia desesperadamente Rodrigo Constantino para acusá-lo, sem provas e reiteradas vezes, de “defender um estupro” – por ser incapaz de confrontá-lo com argumentos – dizia agir de maneira “democrática”.

São Paulo não pode mais ser considerado um estado livre, com vontade popular respeitada, e nem mesmo uma “democracia”, enquanto Doria continuar sendo governador. São Paulo é um coronelato. Uma ditadura. Com censura. Com perseguição política. E sem direito de ir e vir. E vender. E discordar do “cientista” 0,38%. E existir.

A tentativa de censura de Doria deve, precisa, tem obrigação de ser tratada judicialmente. Não é caso para meme, por mais que #CalaBocaDoria tenha ficado imediatamente em primeiro lugar nos Trending Topics, só com sua meia dúzia de capachões de sempre a defendê-lo (repetindo: é imperioso investigar essas contas bancárias).

Ou há impeachment de Doria, ou São Paulo não é mais uma democracia. É hora de judicializar.

E, claro, as “entidades de jornalismo” que reclamam até de um palavrão dito no Twitter estão criminosamente caladas sobre o caso, mostrando que não são entidades de jornalismo (mesmo que se auto-declarem assim), e sim agências de lobby partidário. Também precisam ser investigadas.


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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record).

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