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Lingüiça de vento

CRÔNICA: Um charcutier a encher lingüiças (à guisa de apresentação)

Não, não foi um anjo desses que vive nas sombras que me ordenou ser gauche na vida. A caganifância se deu naturalmente

Luigi Marnoto
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Um charcutier a encher lingüiças

Expectativa do moleque: ser um cosmonauta ou condutor de bonde.
Realidade: rato de praia, auxiliar de escritório, vendedor de enciclopédia de porta em porta, vendedor de placas luminosas, “músico” de botequins, sócio de produtora de filmes publicitários para cinema, proprietário de loja de disco de vinil (CD ainda era ficção científica), jornalista (ui!), co-criador de jornaizinhos revolucionários com títulos pretensiosos tais como “Vôo”, “Semente” etc, produtor de banda de rock; produtor de compositores de MPB (+ui!), livreiro e cozinheiro. Meu pai me dizia que só faltou ser guia de cego e bombeiro.

Então, sou cozinheiro de profissão há vinte e tantos anos. Nada mais.

Sim, com isso até meus gatos concordam. Mas tente fazer o Daniel Galli – há quase dez anos dono do meu passe – convencer-se do contrário.

Ao lado do Filipe Trielli, Daniel é proprietário da Panela Produtora – um misto de produtora de áudio, gravadora, broadcast e casa da mãe Joana. Ali fui cozinheiro nos últimos oito, nove anos. Meu ofício nesse período foi pilotar fogões e caçarolas para eventos e servir o staff e seus convidados (que nunca eram poucos, diga-se). Ver os comensais felizes e lambendo os beiços foi minha função, minha obrigação por todos esse anos. Daí veio a peste chinesa e acabou com a minha (a nossa) alegria.

Bem, seria o fim de uma história, não fosse o Daniel enfiar na moringa que cozinheiro pode ser multitarefa: escrever, criar roteiros, copidescar, enfim, sentar o dedo nos teclados e, eventualmente, cozinhar. Ah, o sabor de fel do pânico! Nah, jeito nenhum!, escrevi umas coisinhas por aí, mas não tenho fôlego pra isso, nem pesar, cê é louco, imagina, passo, tô fora…

Ou isso, ou o corte na paga.

Cá estou.

Em tempo: há pouco mais de um ano Daniel me apadrinhou no sacramento da Crisma. Assim, além de me garantir o suprimento periódico do uisquinho, o cara ainda carrega a penosa tarefa de amadurecer minha fé. Daniel é meu padrinho e patrão. Logo, devo-lhe acato.

Portanto, querido leitor – talvez nem precisasse explicar – vamos deixar as coisas na lata. Estou aqui por grana e obediência, não necessariamente nessa ordem.
Vamos em frente.


Não sou escritor. Talvez chegasse perto disso se tivesse um vestígio de vergonha na cara e me inscrevesse (e estudasse) em mais cursos do professor e amigo Rodrigo Gurgel. Até fiz o de contos (O Conto – Teoria e Prática). Mas, ainda que as aulas fossem online, sentei-me com os pintas-bravas do fundão da minha dislexia e não aprendi muita coisa (atenção: o curso é espetacular. O problema sou eu).

Contudo, em minha defesa, trago alguns louros na algibeira. Há anos, por exemplo, divido com meu amigo e escritor Carlos de Freitas (este sim, escritor verdadeiro e original) os maiores e mais prestigiados prêmios de melhores livros não publicados do mundo. Guardo na minha prateleira imaginária de troféus dezenas deles. O Carlos, mais profícuo, há de guardar centenas.

Já até pensamos em escrever a quatro patas uma série em volumes intitulada “Quase nunca”: Os romances que quase escrevi; Os poemas que quase teci; As montanhas que não escalei; As muralhas que não derrubei; As mulheres que não comi (dois tomos) etc. Há três anos estamos quase na reta final do esboço desse retumbante projeto. A humanidade não perde por esperar.


– Mas e então, Daniel, escrever sobre o quê? – pergunto ao algoz que me pontapeou pra dentro do abismo.
– Te vira, irmão. Enche linguiça, sei lá… – respondeu-me o sádico.

Bem, missão dada… eis-me um charcutier griboilleur, um escrevinhador enchedor de linguiças, um fanfarrão da prosa. Uma farsa com aval do patrão e a bênção do padrinho.

Avante!


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Luigi Marnoto
Luigi Marnoto

Luigi Marnoto é cozinheiro e só não foi guia de cego e bombeiro. Atualmente escreve no Senso em troca de uns caraminguas. É pai e avô quase exemplar e campeão de porrinha.

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