Digite para buscar

Perguntar não ofende. Acho

Podemos fazer uma coluna xingando ministro Daquele Tribunal?

Mariliz Pereira Jorge fez uma coluna inteira na Folha só com xingamentos a Bolsonaro. E se fizesse o mesmo com ministros Daquela Corte lá?

Avatar
Compartilhar

O grande Leandro Ruschel lançou uma dúvida encafifante. Mariliz Pereira Jorge, uma colunista da Folha que ninguém que não acompanha programa da Fátima Bernardes sabia quem era há 2 anos, fez uma coluna inteira xingando Bolsonaro. Pode fazer o mesmo com ministros Daquela Corte?

https://twitter.com/leandroruschel/status/1372583608813289474

A dúvida é cruel e hamletiana. De fato, ela nos dá um nó não apenas ético, não apenas filosófico, mas jurídico e talvez até mesmo ontológico. Pode ou não pode?

Porque o que mais vimos no Brasil recentemente foi uns 40% do país xingar o presidente Bolsonaro de genocida, fascista, nazista – isto nos comentários mais elevados e educados. Polidez a la Downton Abbey. No normal da vida, dá impressão de que Bolsonaro é pior do que a peste chinesa.

E tudo isto com a maior naturalidade do planeta. Tem governador aí que aumentou verba (!) de publicidade (!!) para aboletar em TV jornalista apaniguado, enquanto sua população morre (e a culpa é, naturalmente, do Bolsonaro). Você liga nas rádios e TVs que ele controla, e é xingamento ao presidente hora sim, hora também. Normal, democrático, uhuuu.

Assine o Brasil Paralelo, que tem muito mais assinaturas do que a Folha

Agora, se você faz uma crítica ao Tal Tribunal, se você discorda de uma decisão dos Lagostíssimos, se você acha anti-democrático (ora bolas!) julgar de ofício, ser julgador, investigador e suposta vítima ao mesmo tempo (isto só acontecia na Alemanha nazista e no totalitarismo soviético, cazzo!), se você critica mudança esquisita de datas em documentos (escondendo o quê?), se você acha anormal nem advogado ter acesso integral ao inquérito que investiga e já faz busca e apreensão na casa do seu cliente, se você acha que tudo isto fere o Estadodemocráticodedireito…

Aí o nazista de extrema direita da milícia virtual do gabinete do ódio é você!! E você que é o perigo para a democracia!!!

Não sabemos mais qual a lei do Brasil, se é que o Brasil tem lei, e não vontade de gente poderosa.

Será que seria chamado de ataque coordenado às instituições democráticas? Será que seria investigado de maneira completamente atípica em “inquérito de atos antidemocráticos”? Porque o presidente do tal inquérito elogiou a Folha da Mariliz Pereira Jorge. A mesma que xinga a outra instituição, a do Executivo. O inquérito foi criticado até pela ONU (!), mas, no Brasil, jornalistas (da Folha e de outros lugares), adora citar seus inimigos aplicando a adjetivação: “fulano, que é investigado no inquérito de atos antidemocráticos…”.

Ou seja, ser vítima de um inquérito no qual o investigador, o julgador e a suposta vítima são a mesma instituição é considerado… uma prova de que você que é um problema para a democracia! Como são geniais e democráticos nossos jornalistas!

Pode xingar igual a Mariliz Pereira Jorge fez, é da democracia? Ou aí é nazismo? Gostaríamos de saber. Perguntar não ofende. Quer dizer, esperamos não ser mandados para a cadeia como as pessoas mais perigosas do país por isso. Por favor, Digníssimos, temos filhos para alimentar.

Assuntos:
Avatar
Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record).

  • 1