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FACT-CHECKING: Brasil vacina mais do que a Europa, enquanto mídia nos compara até com Butão

Revelamos todas as falcatruas da mídia, como ignorar que temos a sexta maior população do mundo, enquanto nos compara com países com a população da Zona Sul do Rio de Janeiro

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FACT-CHECK: Vacinação e compra de imunizantes no Brasil

Não, você não ficou trancado dentro de casa em lockdown porque o Bonoro não comprou vacina.

O que a grande mídia (e grande produtora de Fake News) não queria que você soubesse é que, em 31 de março de 2021, a cada cinco vacinas contra COVID-19 exportadas no mundo (e, portanto, disponível para compra pelos países não produtores), uma estava no Brasil. Os dados são das gigantes estatísticas Airfinity (tweet abaixo) e Statista.

Ao contrário do alardeado, o Brasil ainda não é um produtor mundial de vacina contra a COVID-19.

O Butantan e a Fiocruz ainda não produzem o Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) das vacinas, mas só o recebem do exterior e o envasam, de maneira similar a uma montadora de carros.

E a venda também não é liberada: das 657 milhões de doses fabricadas no mundo até o final de março, dois terços ficaram retidos nos países fabricantes, e só um terço foi colocado para venda para os demais.

Isso explica, em parte, o sucesso da vacinação nos Estados Unidos e no Reino Unido: o primeiro fabricou 163,6 milhões de doses, mas só exportou 400 mil, até o final de março; o Reino Unido, além de reter todas as 16 milhões de doses produzidas, ainda recebeu mais 19 milhões.

Quem não está muito bem é a União Européia: foram 75 milhões de doses para seus 446 milhões de habitantes, com uma taxa de 0,168 doses por habitante.

Essa dificuldade de prover vacinas para o público interno quase levou a UE, que é um mercado comum (e portanto decide sobre exportações de maneira conjunta) a proibir as exportações de vacina, mesmo que suas fabricantes tenham sido financiadas, na pesquisa e desenvolvimento do produto, por outros Estados.

O Brasil está numa situação bem melhor do que a União Européia: com 43 milhões de doses no final de março, com uma taxa de 0,2 doses per capita.

Para quem conhece os dados, isso não causa espanto: segundo o Global Health Innovation Center, da Universidade de Duke, o Brasil é o quinto maior negociador de vacinas do mundo (578 milhões de doses), e o sexto maior comprador (370 milhões de doses) ficando atrás apenas dos produtores União Européia, Estados Unidos, Índia e Reino Unido, e da compradora União Africana, que o fez de maneira unificada.

Segundo essa mesma universidade, nós também fomos o terceiro país não-produtor a comprar vacinas (ao contrário do que queriam que você acreditasse, também). Ainda em julho de 2020, a Fiocruz (órgão do Governo Federal) fechou um memorando de entendimento de compra de vacinas e transferência de tecnologia com a AstraZeneca, no valor de R$ 1,82 bilhão.

Esse acordo previa a compra de 100 milhões de doses prontas, e a transferência de tecnologia para que o Brasil dominasse todo o ciclo de produção do fármaco, inclusive do IFA, e pudesse, no segundo semestre de 2021, produzir mais 110 milhões de vacinas, tudo sem lucro e sem pagamento de royalties ao fabricante. O contrato final, assinado em 8 de setembro de 2020, pode ser encontrado aqui.

Situação bem melhor, inclusive, que a do Canadá, com seu primeiro-ministro queridinho da esquerda, Justin Trudeau.

Por lá, a disponibilidade foi tão pequena que Doug Ford, primeiro-ministro de Ontario, chamou a política de compra de vacinas do Canadá de piada.

Até o dia 31 de março, o país da folha de bordo havia aplicado pouco mais de 5 milhões de doses (1/8 do que o Brasil dispunha na ocasião). Os dados, fornecidos pela Universidade de Oxford, estão compilados em Our World in Data.

A imprensa costuma citar o caso de Israel como sendo de sucesso, para constrastar com o Brasil: mais da metade dos israelenses já recebeu duas doses da vacina, e 69% da população havia sido vacinada.

É verdade. Há duas questões, entretanto: Israel, com seus 9,3 milhões de habitantes, tem a mesma população do Ceará. Além disso, no final de março, enquanto o Brasil tinha recebido 43 milhões de doses, Israel havia recebido só 10 milhões: o Brasil poderia ter vacinado a população de Israel inteira, com duas doses, duas vezes.

E o fato de o Brasil ser o sexto país mais populoso do mundo continua sendo ignorada pela mídia. No dia 08/04 o G1 publicou uma matéria sobre o Butão, intitulada “Como um país pobre conseguiu imunizar mais de 60% de sua população em apenas uma semana.”

A verdade é que o Butão tem 831 mil habitantes, a mesma população da Zona Sul do Rio de Janeiro. Investiu 5 mil dólares no consórcio COVAX e recebeu, como doação da Índia, a vacina da AstraZeneca, vacinando 477 mil pessoas com a primeira dose.

É bem interessante, só não guarda proporção para comparação com um país de 211 milhões de habitantes.

Por tudo isso, a verdade é que você não ficou trancado porque o Bonoro não comprou vacina. Você ficou trancado porque seus governadores e prefeitos não conseguiram fazer o dever de casa e optaram por um modelo ainda não comprovado de trancar o povo em casa. Cada um com seus defeitos.

Fatos (por ordem de importância):

  • Mesmo que Brasil comprasse todas as doses disponíveis de vacina para exportação no mundo (210.9 milhões), não seria possível imunizar nem metade da população (211 milhões de pessoas) (AIRFINITY INTELLIGENCE, 2021; McCARTHY, 2021; UNIVERSITY OF DUKE, 2021a);
  • A cada 5 doses de vacinas exportadas no mundo, Brasil recebeu uma (20%) (AIRFINITY INTELLIGENCE, 2021; McCARTHY, 2021; UNIVERSITY OF DUKE, 2021a; MELO, 2021);
  • Brasil tem mais doses per capita (0.2) do que União Européia (0.16), e outros países produtores, como China (0.08), Índia (0.05) e Rússia (0.08) (AIRFINITY INTELLIGENCE, 2021; McCARTHY, 2021; OUR WORLD IN DATA, 2021; MELO, 2021);
  • Brasil possuía 43 milhões de doses de vacina no dia 31 de março de 2021, sendo a última parcela distribuída aos Estados no dia seguinte (MELO, 2021);
  • De todas as vacinas do mundo, dois terços (67.9%) são retidas nos Estados que as produzem (AIRFINITY INTELLIGENCE, 2021; McCARTHY, 2021);
  • Só um terço (32.1%) de todas as vacinas produzidas são vendidas para fora de seus produtores (AIRFINITY INTELLIGENCE, 2021; McCARTHY, 2021);
  • Brasil foi o terceiro Estado não produtor a comprar vacinas (em 1º de agosto de 2021, contrato de Offset com a AstraZeneca) (UNIVERSITY OF DUKE, 2021b);
  • Brasil é o quinto maior negociador de vacinas do mundo (atrás dos produtores União Européia, Estados Unidos, Índia e da compradora União Africana), com 578 milhões de doses negociadas (UNIVERSITY OF DUKE, 2021b);
  • Brasil é o sexto maior comprador de vacinas do mundo (atrás dos produtores União Européia, Estados Unidos, Índia, Reino Unido e da compradora União Africana), com 370 milhões de doses compradas (UNIVERSITY OF DUKE, 2021b);
  • Brasil dominará o ciclo completo de produção da vacina e do IFA no começo do segundo semestre de 2021, graças a um contrato de transferência de tecnologia com a AstraZeneca, acordado em 31 de julho de 2020 e firmado em 8 de setembro de 2020 (AGÊNCIA FIOCRUZ DE NOTÍCIAS, 2020).

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Assuntos:
Leonardo Trielli

Leonardo Trielli não é escritor, não é palestrante, não é intelectual. Também não é bombeiro, nem frentista, não é formado em economia e nem ciências políticas. Nunca trabalhou como mecânico e nem bilheteiro de circo. Twitter: @leotrielli

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