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Toffoli inocenta Toffoli e nós concordamos porque não somos trouxas

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Dias Toffoli, o ministro do STF ex-advogado do PT por 14 anos e duas vezes reprovado em concurso para juiz substituto, como já ficou consabido, votou pela anulação da delação do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, que acusou o próprio Toffoli de receber propina.

Nada poderia ser mais correto, nós afiançamos. Todos os juristas do mundo são uníssonos em concordar com um ponto: não discorde do Toffoli. Não discorde do STF. Só existe democracia e Estadodemocráticodedireito por causa do STF. Discordar do STF é cometer ato antidemocrático. Cometer ato antidemocrático tem de ser punido no pau-de-arara, desmembramento e garrote. E nós não somos trouxas de termos polícia 5 da manhã pra nos flagrar de cueca furada. 

Por muito menos, o processo de Lula foi completamente anulado, incluindo os processos futuros (como o do sítio em Atibaia dos pedalinhos), simplesmente porque Sérgio Moro, o ex-juiz, disse ao procurador Deltan Dallagnol que uma prova era fraca. Já aquela foto do advogado Kakay de bermuda no STF (lugar onde mulheres dificilmente entram de saia, que dirá um homem de bermuda e tênis), sendo que Kakay livrou Lula da cadeia, não dá absolutamente nada, e nós também não criticamos, porque queremos acordar tarde.

Já a troca de mensagens entre Moro e Dallagnol fez os dois serem considerados espécies de cúmplices em um “processo anti-democrático” e, segundo asseclas, “sem provas” (sic). 

O STF, com voto de Toffoli, que foi indicado por Lula, inocentou Lula, por dizer que a separação de poderes não foi cumprida. Assim, Lula, do Executivo, indicou juízes para o Judiciário que o inocentaram, alegando que houve muita conversinha paralela entre juiz e Ministério Público, o que afeta a separação de Poderes. Lógico? Sei lá, mas não quero ir pra cadeia.

Situação completamente diferente do caso “Toffoli inocenta Toffoli”. Vários dados o confiram. 

Em primeiro lugar, Toffoli é Toffoli. Basta sair na rua, pegar um táxi, conversar com um empacotador, dizer “Toffoli” e teremos de cobrir os ouvidos de gritos histéricos de amor por este ministro. Deveríamos mesmo dizer que é a pessoa mais amada do país – quiçá do mundo. <3

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Por isto talvez que Toffoli considere-se “editor da sociedade”, afirmando que todo órgão de imprensa possui “censura interna” e que o STF é quem deve dizer “não vai ao ar” pela sociedade inteira (sic). 

Em segundo lugar, porque a mídia trata com normalidade. O que uma mídia que diz que Bolsonaro deveria morrer, que Renan Calheiros é melhor do que transar, que manifestação de um lado causa coringa e do outro é democracia, enfim, se essa mídia tão moderada, objetiva e imparcial classifica que isso é normal, então é normal. É até cientificamente normal.

Por fim, repetindo, porque não somos trouxas. Democracia é assim: não vamos discordar pra não ir pra cadeia. Porque temos filhos pra criar. Toffoli que faça o que quiser. Ninguém que falou tanto contra a “interferência entre poderes” deu um pio. Não vamos ser os trouxas a falar agora.

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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs". Tem passagens pela Jovem Pan, RedeTV!, Gazeta do Povo e Die Weltwoche, na Suiça.

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