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Faucigate - Establishment científico

ESCÂNDALO: Saiba como origem laboratorial foi ocultada e tratada como “teoria da conspiração”

Maior escândalo do mundo envolve Peter Daszak, nunca citado em nossa mídia. Agências de suposto "fact-checking", Big Techs e cientistas esconderam fatos e pagamentos a laboratório chinês

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Daszak-fauci

Os e-mails do diretor do Instituto de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA (NIAID), Anthony Fauci, têm revelado ao público alguns indícios da forma como o principal órgão de saúde americano conduziu uma das mais nebulosas pandemias da história da humanidade.

Curiosamente, os e-mails revelam que o diretor do NIAID parecia mais preocupado em montar narrativas e estratégias de comunicação do que em cuidar da saúde pública em si.

As mensagens do cientista britânico Peter Daszak são algumas das peças mais importantes de um quebra-cabeça que ainda está longe de ser completado, embora já mostre uma imagem um pouco menos disforme de um desenho ainda desconhecido.

Peter Daszak mora em Nova York e preside a organização EcoHealth Alliance. Em um passado recente, o NIAID de Fauci concedeu à EcoHealth um financiamento para pesquisas no valor de US$ 3,7 milhões. 

Durante uma audiência para um subcomitê do congresso americano em 25/05, Fauci admitiu que US$ 600 mil dólares daquele financiamento foram direcionados para o Instituto de Virologia de Wuhan através da EcoHealth Alliance.

Daszak foi uma das figuras que correram contra o relógio para classificar de “teoria da conspiração” a possibilidade de a peste chinesa ter vazado de um laboratório. Para tanto – conforme revelam os e-mails tornados públicos – contou com a ajuda de funcionários do NIAID e do próprio Dr. Fauci.

A participação de Daszak na trama parece ter se iniciado após o escritório de Políticas Científicas e Tecnológicas da Casa Branca (OSTP) solicitar ajuda às Academias Nacionais de Ciência, Engenharia e Medicina (NASEM) para determinar as origens da peste chinesa.


A reunião convocada pela Casa Branca aconteceu no dia 03/02/2020 e teve participação de funcionários do Instituto Nacional de Saúde dos EUA (NHI), do NIAID (Fauci, inclusive), do FBI e de outros cientistas indicados pela NASEM, incluindo Peter Daszak.

Em 04/03/2020, o diretor do NASEM, Andrew Pope, enviou um e-mail de agradecimento aos participantes do encontro e sinalizou uma “mudança de planos em termos de nosso produto”, escreveu.

“Em vez de uma postagem na web ‘baseada na ciência’, estamos desenvolvendo agora uma carta que será assinada pelos três presidentes de nossas três academias (NAS, Marcia McNutt; NAM, Victor Dzau; NAE, John Anderson), em resposta ao OSTP.”

O primeiro rascunho da carta à Casa Branca já dava o tom da narrativa: “A opinião inicial dos especialistas é que os dados genômicos disponíveis são consistentes com as evoluções naturais e que atualmente não há evidências de que o vírus foi projetado para se espalhar mais rapidamente entre os humanos”, diz um trecho.


Este e-mail desencadeou uma longa cadeia de mensagens com as sugestões de mudanças. Entre elas, a do biólogo Trevor Bedford, que enfatizou:

1. (…) Se você começar a pesar as evidências, há muito a considerar em ambos os cenários [origem natural x vazamento laboratorial].
2. Eu diria “nenhuma evidência de engenharia genética” ponto final.
(…)
Não tenho certeza de qual será a competência exata desse grupo daqui para frente, mas posso sugerir que mudemos para formas de comunicação mais seguras.

Kristian Andersen, professor do instituto de pesquisas Scripp Research também deu seu pitaco na mesma cadeia de mensagens:

“(…) Se um dos principais objetivos deste documento é combater essas teorias marginais, acho que é muito importante que o façamos fortemente e em linguagem simples (‘consistente com’ [evolução natural] é uma das minhas favoritas quando converso com cientistas, mas não quando se fala com o público – especialmente teóricos da conspiração).”


Conforme relatamos, Andersen foi um dos primeiros cientistas a admitir a Fauci, em privado, que parte da genética do vírus chinês parecia ter sido manipulada em laboratório. Em público, no entanto, sua opinião parecia bastante clara – e oposta às suas suspeitas iniciais.

Conflitos de interesses

A reunião do dia 03/02/2020 solicitada pela Casa Branca ocorreu dois dias depois de uma videoconferência entre Anthony Fauci, Jeremy Farrar (diretor da Wellcome, fundação britânica para financiamento de pesquisas), e mais 11 cientistas.

Como o Senso relatou, no dia seguinte à realização da videoconferência, a OMS divulgou que trabalharia com Big Techs para “combater a desinformação”.

E foi após estas duas reuniões que, em e-mail de 06/02/2020, com o assunto “Declaração de apoio aos cientistas, profissionais de saúde pública e médicos da China”, Peter Daszak – que até o momento parecia mero coadjuvante – tomou para si o papel de protagonista e exortou um grupo de funcionários do NIH e do NIAID a assinar uma carta aberta com o objetivo declarado de tentar dissipar – e ridicularizar – qualquer “rumor” de que o vírus saiu de um laboratório.


A carta (traduzida integralmente abaixo) afirmava que este tipo de teoria “conspiratória” era uma afronta aos “heróicos” colegas chineses que estavam na linha de frente do campo de batalha contra o novo coronavírus.

Curiosamente, um dos cientistas que colaborou na confecção do texto de Daszak foi Ralph Baric, virologista da Universidade da Carolina do Norte que trabalhou em pesquisas de ganho de função no laboratório de Wuhan.

Por conta do histórico profissional de Baric, Daszak envia um e-mail com o assunto “Não há necessidade de você assinar a declaração, Ralph!!”, explicando que seria melhor que ele se abstivesse de assinar o texto.

Baric concorda e complementa: “Caso contrário, parece interesse próprio e perdemos o impacto [da declaração].”

Daszak pede que Baric não assine a carta. Clique para ampliar.

Mentor da declaração, Peter Daszak tinha consciência de que o envolvimento da EcoHealth na carta também poderia demonstrar conflito de interesses. “Observem que esta declaração não terá o logotipo da EcoHealth Alliance e não será identificável como proveniente de qualquer organização ou pessoa, a ideia é que isto seja como uma comunidade apoiando nossos colegas”, escreveu.


Embora Daszak também houvesse decidido não assinar a declaração, seu nome aparece como um dos signatários na versão final.

Publicada em forma de artigo no periódico britânico The Lancet, em 19/02/2020, a declaração pública foi assinada por 27 cientistas – entre eles, vários burocratas de instituições governamentais de saúde.

A gênese da narrativa

A reunião virtual do primeiro dia de fevereiro de 2020 parece ter sido o embrião de toda a narrativa gestada e parida nas semanas subsequentes.

Dos 13 cientistas participantes da videoconferência, dois foram signatários da carta idealizada por Daszak: Christian Drosten (virologista alemão e diretor do Instituto de Virologia Charité) e Jeremy Farrar (da Wellcome).

Mas a construção da narrativa que desacreditou a teoria de vazamento laboratorial e ativou a máquina de censura da grande mídia e das Big Techs também contou com o reforço de um providencial estudo científico.

Intitulado “A origem proximal do Sars-CoV-2” e publicado na revista Nature, em 17/02/2020, o estudo foi desenvolvido por cinco cientistas: Andrew Rambaut, Bob Garry, Eddie Holmes, Kristian Andersen e W. Ian Lipkin. Destes, apenas Lipkin não participou da videoconferência de 01/02/2020. Andersen é o cientista que levantou a suspeita de manipulação genética do vírus em e-mail enviado a Fauci, mas publicamente refutava a teoria de vazamento laboratorial.

A publicação foi bastante categórica: “Nossas análises mostram claramente que o SARS-CoV-2 não é uma construção de laboratório ou um vírus propositalmente manipulado”, escrevem os autores em nota para o editor.

“É improvável que o SARS-CoV-2 tenha surgido por meio da manipulação laboratorial de um coronavírus semelhante ao SARS-CoV”, diz trecho do estudo. “Em vez disso, propomos dois cenários que podem explicar de forma plausível a origem do SARS-CoV-2: (i) seleção natural em um animal hospedeiro antes da transferência zoonótica; e (ii) seleção natural em humanos após transferência zoonótica. Também discutimos se a seleção durante a passagem poderia ter dado origem ao SARS-CoV-2.”

A  carta de Daszak assinada por duas dezenas de cientistas e a publicação de um estudo feito, aparentemente, sob medida formaram a receita perfeita para a união do establishment científico com o circo da imprensa e as poderosas Big Techs.

Juntas, estas três entidades clamaram pela “despolitização” da pandemia e seguiram censurando, ridicularizando e rotulando de teórico da conspiração todo indivíduo que questionasse genuinamente de onde veio o patógeno que mudou o curso da história humana.

Por sua visibilidade na mídia, Fauci foi o grande porta-voz da turma e responsável por chancelar a história forjada por debaixo dos panos.

É significativo o e-mail de Daszak enviado a Fauci em 19/04/2020, em que o presidente da EcoHealth agradece os esforços de Fauci “por afirmar publicamente que as evidências científicas apoiam uma origem natural para COVID -19 de uma transmissão de morcego para humano, não um vazamento de laboratório do Instituto de Virologia de Wuhan.”

A divulgação dos e-mails de Fauci e de personagens de algumas das maiores instituições de pesquisa científica do mundo apenas jogam um feixe de luz nos bastidores de um ambiente ainda escurecido pela política e por interesses pessoais que se sobrepõem ao interesse público.

É estarrecedor, entretanto, que a mídia tradicional – com as reconhecidas exceções – continue tratando Anthony Fauci como um grande herói à frente da batalha humana contra o vírus chinês.

Leia íntegra da mensagem de Peter Daszak com o primeiro rascunho da declaração publicada em The Lancet

Caros Ralph, Linda, Jim, Rita, Linfa e Hume,

Tenho acompanhado os eventos em torno da nova emergência do coronavírus na China de muito perto e fiquei consternado com a recente disseminação de rumores, desinformação e teorias de conspiração sobre suas origens. Agora, eles têm como alvo específico cientistas com os quais temos colaborado por muitos anos e que têm trabalhado heroicamente para combater esse surto e compartilhar dados com velocidade, abertura e transparência sem precedentes. Essas teorias da conspiração ameaçam minar as próprias colaborações globais de que precisamos para lidar com uma doença que já se espalhou pelos continentes.

Elaboramos uma declaração simples de solidariedade e apoio aos cientistas, profissionais de saúde pública e médicos da China e gostaríamos de convidá-los a se juntar a nós como primeiros signatários. Se você concordar, enviaremos esta carta a um grupo de cerca de meia dúzia de outros líderes na área e, em seguida, a divulgaremos amplamente com uma página de inscrição para que outros mostrem seu apoio, inscrevendo-se em seu idioma. Em seguida, apresentarei isso pessoalmente em minha plenária durante a conferência ICID 2020 na Malásia em duas semanas, com o objetivo de também obter ampla atenção no sudeste da Ásia para o nosso apoio ao trabalho que nossos colegas na China estão realizando.

Eu sinceramente espero que você possa se juntar a nós. Reveja a carta e diga-me se está disposto a juntar-se a Billy Karesh e a mim como co-signatários. Além disso, confirme seu cargo e afiliação que serão mostrados na carta. Pretendemos fazê-lo circular amplamente para coincidir com uma carta dos Presidentes das Academias Nacionais de Ciência, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos, que provavelmente será divulgada amanhã ou sexta-feira.

Obrigado por sua consideração e apoio da comunidade científica e de saúde pública em todo o mundo!

Saúde,
Peter

Peter Daszak
Presidente
EcoHealth Alliance

Declaração de apoio aos cientistas, profissionais de saúde pública e médicos da China no combate ao novo surto de coronavírus

Nós, abaixo assinados, somos cientistas que acompanharam o surgimento de 2019-nCov e estamos profundamente preocupados com seu impacto global na saúde e no bem-estar das pessoas. Vimos como os cientistas, profissionais de saúde pública e médicos da China trabalharam heroicamente para identificar rapidamente o patógeno por trás desse surto, colocar em prática medidas significativas para reduzir seu impacto e compartilhar seus resultados de forma transparente com a comunidade de saúde global. Assinamos esta declaração em solidariedade a todos os cientistas, profissionais de saúde pública e médicos na China que continuam a salvar vidas e proteger a saúde global durante o desafio deste novo surto de coronavírus. Queremos que saiba que estamos todos juntos nisso, com você na nossa frente no campo de batalha contra o novo coronavírus.

O compartilhamento rápido, aberto e transparente de dados no 2019-nCov agora está sendo ameaçado por rumores e desinformação sobre as origens desse surto. Estamos juntos para condenar veementemente as teorias da conspiração, sugerindo que 2019-nCoV não tem uma origem natural. Evidências científicas sugerem que esse vírus se originou na vida selvagem, assim como muitas outras doenças emergentes (1-4). Isso é ainda confirmado por uma carta dos Presidentes das Academias Nacionais de Ciência, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos e pelas comunidades científicas que eles representam (INSERIR REF). As teorias da conspiração não farão nada além de criar medo, rumores e preconceitos que colocam em risco nossa colaboração global na luta contra esse vírus. Precisamos priorizar evidências científicas e unidade sobre desinformação e conjecturas agora. Queremos que todos saibam que estamos com vocês, cientistas e profissionais de saúde da China, em sua luta contra este vírus.

Convidamos outras pessoas a se juntar a nós no apoio aos cientistas, profissionais de saúde pública e médicos de Wuhan e de toda a China. Esteja com nossos colegas na linha de frente!

Adicione seu nome em um ato de apoio acessando [INSERIR LINK AQUI].

Signatários:
Dr. Peter Daszak, presidente, EcoHealth Alliance
Dr. Jim Hughes, Professor Emérito, Emory University
Dra. Rita Colwell, ex-diretora da National Science Foundation
Dr. Ralph Baric, professor, The University of North Carolina, Chapel Hill
Dra. Linda Saif, distinta professora universitária, The Ohio State University
Dr. Billy Karesh, vice-presidente executivo, EcoHealth Alliance
Dra. Linfa Wang, Professora, Duke-NUS Medical School
Dr. Hume Field, Professor Honorário, The University of Queensland


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Leonardo Trielli

Leonardo Trielli não é escritor, não é palestrante, não é intelectual. Também não é bombeiro, nem frentista, não é formado em economia e nem ciências políticas. Nunca trabalhou como mecânico e nem bilheteiro de circo. Twitter: @leotrielli

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