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Quem é Rogério Galloro, peça-chave do caixão inviolável do TSE

Por que um delegado que sabia do ataque ao Tribunal Eleitoral com sumiço de provas aceitou trabalhar no combate às "fake news" sobre a segurança do TSE?

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Quem é Rogério Galloro, peça-chave do caixão inviolável do TSE

O maior gerador de tensão entre os três Poderes da República atualmente é o sistema eleitoral brasileiro. Se por um lado parte da população (grande parte, diga-se) suspeita da lisura de um sistema inauditável (segundo relatório do PSDB sobre o pleito de 2014), em que a apuração é feita dentro de uma sala fechada do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília, na presença de um número infinitesimal do total de eleitores, por outro lado, há quem sustente que a votação eletrônica brasileira é o supra-sumo da transparência e da tecnologia.

O embate entre o presidente da República, Jair Bolsonaro, e o atual presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, recrudesceu na semana passada após Bolsonaro trazer ao público uma novidade que, até então, era tratada pela grande imprensa como mera especulação e “fake news”.

Em entrevista ao programa “Os Pingos nos Is”, da Jovem Pan, o presidente expôs documentos que acabaram por demonstrar que o sistema não só é “penetrável”, como efetivamente foi violado por meses, no ano de 2018.

A história toda começa com um e-mail com pedido de informações, enviado à assessoria de comunicação do TSE, em novembro de 2018, por um jornalista do site de tecnologia Tecmundo. Segundo o jornalista, um hacker dizia ter invadido os sistemas do Tribunal Eleitoral por meses a fio.

Esta aliás é a primeira prova do quão inseguros são os sistemas do TSE: ninguém no tribunal teria percebido a invasão, não fosse o pedido do jornalista.

O documento que Bolsonaro trouxe ao público é o inquérito aberto pela Polícia Federal em 08/11/18 a pedido da então presidente do TSE, ministra Rosa Weber, para apurar as violações relatadas pelo jornalista. O pedido da ministra foi direcionado ao então diretor-geral da PF, delegado Rogério Galloro.

Bacharel em Direito, especializado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e MBA em Gestão de Políticas de Segurança Pública pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Galloro foi coordenador das forças da PF na segurança da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. Era diretor-executivo da PF quando foi nomeado diretor-geral pelo presidente Michel Temer, em março de 2018.

Por ocasião de sua nomeação, o jornal Gazeta do Povo publicou reportagem sobre o delegado. O texto explica que Galloro possuía perfil técnico e, por isto, seu nome foi bem recebido nas entranhas burocráticas do estado. Inclusive por um dos então novatos ministros do Supremo Tribunal Federal:

“[Rogério Galloro foi] cotado para assumir o comando da PF desde a época da presidente Dilma Rousseff, quando o ministro da Justiça era Eugênio Aragão. Já no governo Temer, contava com a simpatia do primeiro ministro da Justiça do peemedebista, Alexandre de Moraes, hoje no Supremo Tribunal Federal (STF), e do atual ministro Torquato Jardim.”

O fato de o delegado ter sido nomeado Assessor Especial do gabinete da presidência do TSE apenas um mês e meio após a instauração do inquérito para apurar o ataque ao Tribunal Eleitoral chama a atenção por um detalhe: sua principal “atribuição” era “combater desinformação e fake news” sobre o sistema eleitoral brasileiro.

Sobre o novo cargo do delegado, O Globo relatou, em 14/12/2018:

“Galloro se aproximou de Rosa Weber durante as eleições, quando o TSE teve que recorrer  à polícia para reforçar o combate a fake news, sobretudo entre o primeiro e o segundo turno da corrida presidencial. As fake news e as dificuldades dos poderes públicos de enfrentar o problema esquentaram os debates sobre eventuais distorções da vontade do eleitor. A questão teve peso sobretudo nas discussões relacionadas às campanhas presidenciais.

No Seminário Internacional Fake News e Eleições, promovido pelo TSE em maio de 2019, o delegado dá a entender que se dedicou ao combate às famigeradas “fake news” ainda antes de ser nomeado assessor do tribunal.

Como mediador do painel “Eleições e Fake News no Mundo”, ao explicar quais ferramentas o TSE usou no combate à desinformação, Galloro deu a seguinte declaração:

“Durante a eleição geral de 2018, foi criada uma série de 14 vídeos curtos de esclarecimento, enviados pelo WhatsApp. E montamos uma página especificamente para esclarecimento de informação falsa, abrigada no site do TSE, onde foram esclarecidas 31 fake news, voltadas a desacreditar a urna eletrônica e o processo eleitoral.”

Curiosamente, Rogério Galloro começou a se especializar no assunto “fake news em eleições” desde o início do inquérito sobre a invasão aos sistemas do TSE, pouco tempo antes de ser nomeado assessor do Tribunal.

É de se estranhar – e muito – o fato de um delegado da PF que sabia da invasão aos sistemas do TSE e estava ciente de que provas importantes haviam sido apagadas “acidentalmente”, aceitar um cargo no tribunal com a finalidade de combater as “fake news” sobre a segurança do sistema.

Mais estranho ainda é lembrar que foi Galloro o delegado responsável pela investigação do atentado à faca sofrido pelo então candidato Jair Bolsonaro, que concluiu que Adélio Bispo era apenas um lobo solitário maluco.

A novela do embate entre os Poderes, ao que tudo indica, ainda demora a acabar. Mas as informações que vieram à tona na semana passada colocaram ainda mais nós no complexo enredo que é a política nacional.


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Assuntos:
Leonardo Trielli

Leonardo Trielli não é escritor, não é palestrante, não é intelectual. Também não é bombeiro, nem frentista, não é formado em economia e nem ciências políticas. Nunca trabalhou como mecânico e nem bilheteiro de circo. Twitter: @leotrielli

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