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Literatura

C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien e a Grande Guerra

Na era das ideologias e da política total, escritores como C. S. Lewis e J. R. R. Tolkien deram poder à imaginação para salvar a liberdade.

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J. R. R. Tolkien - Terra Média.

“A destruição do passado”, afirmou corretamente Eric Hobsbawm (1917-2012), “é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX”. Ainda no início do livro Age of Extremes: The Short Twentieth Century, 1914-1991 [A Era dos Extremos: O Breve Século XX, 1914-1991], lançado originalmente em 1994, o famoso historiador marxista britânico continua tal reflexão ao afirmar que “quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem”.

Eric HobsbawmDe nossa parte, subscrevendo a constatação de Eric Hobsbawm, acreditamos que a perda da memória histórica é um fenômeno dramático que pode ter consequências extremamente desastrosas para a sobrevivência de nossa civilização. A falta de conhecimento por parte da maioria dos membros da sociedade acerca do processo histórico que culmina na perda das liberdades individuais e na implantação de regimes totalitários é característica partilhada em várias distopias, como pode ser constatado nos clássicos Lord of the World [O Senhor do Mundo] de Robert Hugh Benson (1871-1914), The Iron Heel [O Tacão de Ferro] de Jack London (1876-1916), Brave New World [Admirável Mundo Novo] de Aldous Huxley (1894-1963), 1984 de George Orwell (1903-1950), Fahrenheit 451 de Ray Bradbury (1920-2012) e A Clockwork Orange [A Laranja Mecânica] de Anthony Burgess (1917-1993), assim como nas recentes e populares sagas distópicas The Hunger Games [Jogos Vorazes] de Suzanne Collins, Divergent [Divergente] de Veronica Roth, Maze Runner de James Dashner e Legend de Marie Lu.

Os perigos que ameaçam o presente e o futuro em decorrência do esquecimento do passado não é característica exclusiva das narrativas distópicas. Tal preocupação aparece também em diversos outros gêneros literários, dentre os quais destaco as obras de fantasia mitopoética The Lord of the Rings [O Senhor dos Anéis] de J. R. R. Tolkien (1892-1973) e The Chronicles of Narnia [As Crônicas de Nárnia] de C. S. Lewis (1898-1963), tanto nos livros quanto nas adaptações cinematográficas, bem como no universo ficcional criado pelo cineasta George Lucas na popular saga de filmes Star Wars [Guerra nas Estrelas].

Star Wars - Force AwakensNas duas primeiras trilogias de Star Wars, produzidas por George Lucas, e no recente filme The Force Awakens [O Despertar da Força] de J. J. Abrams, lançado em 2015, o problema do desconhecimento da história da própria vida e da vida da sociedade, por parte da maioria das personagens, é temática secundária que perpassa toda a trama da narrativa, criando uma série de questionamentos, muitos dos quais não respondidos ao longo das aventuras.

O mesmo ocorre em As Crônicas de Nárnia de C. S. Lewis, obra em que a ignorância acerca do passado, em muitos casos, se torna o fio condutor dos acontecimentos, fazendo os protagonistas empreenderem jornadas em busca da reconstrução da memória, tal como pode ser constatado, especialmente, em The Horse and his Boy [O Cavalo e seu Menino] e em The Voyage of the Dawn Treader [A Viagem do Peregrino da Alvorada], estando presente, embora em menor grau, nas outras cinco estórias.

Ao longo da narrativa do prólogo da montagem cinematográfica de [A Sociedade do Anel], lançado em 2001 pelo cineasta Peter Jackson, a questão foi apresentada com brilhantismo em uma sentença que não existe na versão original do livro, mas que resume com propriedade o senso histórico presente em toda a obra de J. R. R. Tolkien. Na referida sequência a personagem Galadriel, interpretada pela atriz Cate Blanchett, ao descrever em linhas gerais os eventos anteriores ao início da estória, afirma que “algumas coisas que não deveriam ter sido esquecidas foram perdidas. A história virou lenda, a lenda virou mito”.

Vale ressaltar que as criações de fantasia mitopoética elaboradas por J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis foram motivadas, em graus distintos, por um dos mais significativos eventos históricos de nossa época: a Grande Guerra, mais conhecida em nossa geração pela denominação Primeira Guerra Mundial. Os dois renomados literatos serviram durante este conflito ao exército britânico, com a patente de segundo tenente. Ambos participaram da sangrenta Batalha do Somme, ocorrida entre os dias 1º de julho e 17 de novembro de 1916, que foi tema de nosso artigo O sangue desses jovens ainda mancha a nossa época, publicado neste Senso Incomum na mesma data que foi celebrado o centenário do início dessa campanha militar.

Primeira Guerra Mundial - soldados.

Em grande parte, a Primeira Guerra Mundial não ocupa espaço de maior proeminência na mentalidade das pessoas, não apenas por conta do fenômeno de destruição do passado, característico de nossa época e aqui narrado, mas também devido aos eventos que sucederam este conflito como, por exemplo, a Segunda Guerra Mundial e as tensões entre os Estados Unidos e a União Soviética, que marcaram a chamada Guerra Fria.

Paul Johnson, historiador conservador britânicoNo capítulo “The Recovery of Freedom” [A Retomada da Liberdade], acrescido na nova edição de 2001 do livro Modern Times: The World from the Twenties to the Nineties [Tempos Modernos: O Mundo dos Anos 20 aos 80], lançado originalmente em 1983, o historiador conservador britânico Paul Johnson reafirma de modo mais incisivo a tese central da obra ao afirmar que desde a “tragédia inicial da Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, o século XX tinha parecido para muitos uma sucessão incessante de desastres morais e físicos”.

Tanto o conservador Paul Johnson quanto o marxista Eric Hobsbawm concordam que o século XX pode ser delimitado como um período relativamente breve entre a Primeira Guerra Mundial e o fim da Guerra Fria, cujo término foi marcado pelo processo da queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, até a dissolução da União Soviética, em 25 de dezembro de 1991. Nas palavras de Hobsbawm essa foi uma “era dos extremos”, iniciada com uma “era de catástrofe”, sucedida por “era de ouro” e encerrada pelo “desmoronamento”, que deu origem à nossa atual “era de incerteza”.

Lembrando os versos de T. S. Eliot (1888-1965) em The Hollow Men [Os Homens Ocos], nos quais o poeta afirma “é assim que o mundo acaba – não com uma explosão, mas com uma lamúria”, o historiador marxista ressalta que “o Breve Século XX acabou com os dois”. O novo mundo que emergiu após a Grande Guerra e se manteve até a dissolução do bloco soviético foi marcado pelo relativismo moral, pelas ideologias seculares e pela vontade de poder que, como destacou Johnson, criaram “um novo tipo Messias, livre de qualquer sanção religiosa e com um insaciável apetite pelo controle da humanidade”.

Em sua autobiografia The Sword of Imagination: Memoirs of a Half-Century of Literary Conflict [A Espada da Imaginação: Memórias de Meio Século de Conflito Literário], lançada postumamente em 1995, o renomado conservador norte-americano Russell Kirk (1918-1994) definiu a época em que nasceu como um “período de desordem”, em que “a antiga casca da ordem moral e social havia sido rompida” em consequência da Primeira Guerra Mundial, da Revolução Bolchevique e do colapso do Império dos Habsburgos.

Russell KirkNo início do quarto capítulo de nosso livro Russell Kirk: O Peregrino na Terra Desolada, defendemos que “o grande drama da mentalidade moderna foi a substituição da disciplinada normatividade que o senso religioso oferece pela ilusão das promessas utópicas outorgadas pelas diferentes ideologias seculares”. A questão foi abordada de modo semelhante em Eliot and His Age [A Era de T. S. Eliot], por Russell Kirk ao afirmar que “a negação da fé, por muitos intelectuais racionalistas, causou a ‘Era da Aflição’ e provocou para a grande massa da humanidade a ‘Era da Ideologia’”.

De acordo com Paul Johnson, “o fim da antiga ordem, com um mundo à deriva em um universo relativista, era um apelo a que estadistas gângsteres emergissem”. Ainda no início do quarto capítulo nosso livro sustentamos que:

“Os homens ocos que acreditaram ter se libertado totalmente dos grilhões da antiga fé ao não mais louvar a Deus acabaram prestando honras aos tiranos ou demagogos, representados pelas tenebrosas figuras de Vladimir Lenin (1870-1924), Benito Mussolini (1883-1945), Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), Adolf Hitler (1889-1945), Joseph Stalin (1878-1953), Getúlio Vargas (1882-1954), Francisco Franco (1892-1975), Mao Tsé-Tung (1893-1973) e tantos outros que povoaram o cenário político do século XX. As pilhas de cadáveres ideológicos criados pelas guerras, campos de concentração ou políticas econômicas desastrosas são os frutos da substituição da autoridade do Cristo pelo culto aos césares da modernidade”.

O conflito espiritual que emerge após a Grande Guerra, na qual em uma era de extremos se torna necessária a luta da consciência individual contra o poder político e as forças ideológicas, foi apresentada de modo incisivo por T. S. Eliot no exemplo de resignação do bispo Santo Thomas Becket (1118-1170) no drama histórico Murder in Cathedral [Assassínio na Catedral] de 1935. De modo semelhante, o teatro eliotiano também ilustra a libertação das tolices do tempo, em consequência do testemunho do martírio no relato da morte da personagem Celia Coplestone na peça The Cocktail Party, de 1949.

Primeira Guerra Mundial Tanques Em nossa era de incerteza o risco de sofrermos martírio é uma realidade mais próxima para todos que desejem se insurgir contra a ditadura branda das maiorias. Além da transformação do relativismo em censura e em assassinato de reputação por intermédio dos mimados tiranos do politicamente correto, enfrentamos novamente a ameaça física dos islâmicos, que proliferam no vácuo espiritual criado pelo secularismo anticristão e pelo multiculturalismo. O grande desafio que devemos enfrentar na luta pela consciência individual pode ser resumido nas palavras de Russell Kirk, quando em 1969, no livro Enemies of the Permanent Things: Observations of Abnormity in Literature and Politics [Inimigos das Coisas Permanentes: Observações sobre as Aberrações em Literatura e Política], asseverou que:

“O escritor criativo, o crítico literário e o professor de literatura são herdeiros de uma antiga ordem civilizada. Caso faltem com o dever normativo, ou traiam sua cultura com o ideólogo, não saem impunes. Pagam com as vidas, às vezes, pela deserção; sempre pagam com a perda da liberdade. Um controle social desumano, que trata literatos como propagandistas políticos servis – ou como inimigos que devem ser extirpados – toma o lugar da ordem das coisas permanentes”.

Dois exemplos de literatos que souberam honrar tal vocação, além de T. S. Eliot, são os já mencionados J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis. Ambos utilizaram a fantasia mitopoética como um instrumento pelo qual a ordem das coisas permanentes é discutida. Acentuamos que, diferentemente da crença da maioria dos leitores ou dos analistas, tanto As Crônicas de Nárnia quanto O Senhor dos Anéis não possuem como principal tema a guerra do bem contra o mal.

Helms Deep

As montagens cinematográficas reforçaram uma visão errônea acerca do gênero literário das duas sagas, que assumiram para o grande público a feição de aventuras permeadas de romances quando, na verdade, são obras do gênero épico, cujo tema principal é a questão escatológica da morte e do juízo final, onde a disposição de aceitar com resignação o sacrifico do martírio permeia as duas narrativas. O próprio Tolkien, em carta datada de 17 de novembro de 1957, afirmou que “a história não é realmente sobre Poder e Domínio: isso apenas mantém as rodas girando; ela é sobre a Morte e o desejo pela imortalidade”.

Afirmamos no presente texto que, em graus distintos, tanto O Senhor dos Anéis quanto As Crônicas de Nárnia foram motivadas pelas experiências pessoais de J. R. R. Tolkien e de C. S. Lewis na Primeira Guerra Mundial. O tema é amplo demais para o discutirmos de modo aprofundo no presente ensaio. No entanto, os interessados poderão encontrar análise detalhada no livro A Hobbit, a Wardrobe, and a Great War: How J.R.R. Tolkien and C.S. Lewis Rediscovered Faith, Friendship, and Heroism in the Cataclysm of 1914-18 [Um Hobbit, um Guarda-roupas e uma Grande Guerra: Como J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis Redescobriram a Fé, a Amizade e o Heroísmo no Cataclismo de 1914-18], lançado em 2015, pelo historiador Joseph Loconte. Outro trabalho que destaca a influência da experiência pessoal na Primeira Guerra Mundial do autor de O Senhor dos Anéis na criação desse universo ficcional é o livro Tolkien and The Great War: The Threshold of Middle-earth [Tolkien e a Grande Guerra: O Limite da Terra Média] de John Garth, lançado em 2003.

Foram os terrores da Primeira Guerra Mundial que forjaram algumas das percepções mais agudas de J. R. R. Tolkien e de C. S. Lewis. O conflito envolveu quase todas as potencias europeias e sepultou o otimismo progressista dos liberais clássicos, que animou o longo Século XIX, dando lugar a uma nova era de barbárie. Determinados fatores que emergiram durante esse período marcariam a fisionomia do Século XX. A utilização de novas máquinas de combate, como os aviões, os tanques de guerra e os submarinos, ampliaram em muito as baixas, sendo fator que criou a desconfiança de Tolkien e de Lewis em relação à crença iluminista segundo a qual os progressos intelectuais da razão instrumental seriam necessariamente acompanhados de progresso moral.

Sargento TolkienEm uma passagem do terceiro capítulo do livro The Abolition of Man [A Abolição do Homem], lançado originalmente em 1943, ao apontar o processo pelo qual a ciência no seu sentido mais puro, como busca do verdadeiro conhecimento e sabedoria, foi prostituída e substituída pela busca do poder sobre a natureza, numa espécie de “oferta do bruxo”, na qual o homem ao ceder, objeto após objeto, cede a si próprio e à natureza em troca de poder, C. S. Lewis afirma que “é possível que o seu triunfo tenha vindo rápido demais e tenha sido comprado por um preço excessivamente alto; talvez sejam necessários uma certa reconsideração e algo como um ato de contrição”. De modo semelhante, em uma carta datada de 29 de maio de 1945 para seu filho Christopher Tolkien, que durante a Segunda Guerra Mundial estava servindo à Royal Air Force (R.A.F.) na África do Sul, J. R. R. Tolkien lamenta o fato com as seguintes palavras:

“Pelo menos seria um certo consolo para mim se você escapasse da R.A.F. E eu espero, caso a transferência [para a Armada Aérea Ligeira] seja efetuada, que isso signifique uma transferência verdadeira e uma recomissão. Não seria fácil para mim expressar a você o tamanho de minha aversão pelo Terceiro Serviço [Força Aérea] – que, entretanto, pode ser, e é para mim, combinada com admiração, gratidão e, acima de tudo, piedade pelos jovens pegos nele. Mas é o avião de guerra o verdadeiro vilão. E nada pode realmente reparar meu pesar por você, meu mais amado, ter qualquer ligação com ele. Meus sentimentos são mais ou menos aqueles que Frodo teria tido se descobrisse alguns Hobbits aprendendo a montar aves Nazgûl ‘para libertar o Condado’. Embora neste caso, como nada conheço do imperialismo britânico ou americano no Extremo Oriente que não me encha de arrependimento e náusea, receio que eu não seja sequer apoiado por um vislumbre de patriotismo no que resta desta guerra. Eu não daria um penny a ela, o que dirá um filho, fosse eu um homem livre. Ela só pode beneficiar os Estados Unidos ou a Rússia, provavelmente a última. Mas, pelo menos, a Guerra Russa-Americana ainda não eclodirá por um ano”.

Batalha do Condado, O Senhor dos Anéis, J. R. R. Tolkien.De modo diferente das visões simplistas de muitos progressistas, a tecnologia não é necessariamente um meio de libertação do indivíduo, pois na maioria das vezes é utilizada pelos governantes e pela burocracia governamental como meio de ampliar o controle estatal sobre a sociedade. As novas máquinas e as armas químicas utilizadas na Primeira Guerra Mundial, além de terem causado a morte massiva da população civil, com o objetivo deliberado de cortar as fontes de recursos nas frentes de batalha, proporcionaram a ampliação da esfera governamental por intermédio do crescimento de todos os setores estatais, principalmente ao forçar artificialmente o ritmo de industrialização. Como acentuou Paul Johnson, “o efeito da Grande Guerra foi o de aumentar significativamente o tamanho do Estado e, em consequência, a sua capacidade de destruição e a sua tendência à opressão”.

O agigantamento da esfera governamental por intermédio do intervencionismo das regulamentações burocráticas em detrimento das liberdades individuais durante a Primeira Guerra Mundial foi um fator que, no período entre guerras, levou, por um lado, à crença no planejamento social e econômico nas sociedades democráticas e, por outro, possibilitou a emergência de regimes totalitários. Ainda durante o período da Grande Guerra, os bolcheviques implantaram uma ditadura comunista na Rússia em 1917 que duraria até 1991. Fundado logo após o armistício, o movimento fascista italiano assumiu o poder em 1922. No ano de 1933 ocorre a ascensão dos nazistas na Alemanha.

C. S. LewisPersonagens como a Feiticeira Branca, a Dama do Vestido Verde e o usurpador Miraz em As Crônicas de Nárnia ou Morgoth, Sauron e Saruman no universo de O Senhor dos Anéis podem ser comparados aos tiranos ou demagogos que povoaram o cenário político do século XX. O caso mais paradigmático dessa questão se encontra no episódio denominado “O expurgo do Condado”, narrado no oitavo capítulo do livro VI de O Retorno do Rei [O Retorno do Rei] que, infelizmente, não foi incluído na versão cinematográfica de Peter Jackson. Esta passagem da obra relata a luta de Frodo, Sam, Pippin e Merry, após retornarem da Guerra do Anel, para libertar o Condado do “regime fascista” implantado por Saruman e seus rufiões. De acordo com o próprio J. R. R. Tolkien, em uma carta não datada de 1956, os acontecimentos do capítulo em questão servem, acima de tudo, para ressaltar um aspecto fundamental da estrutura narrativa, “planejada pare ser ‘hobbitocêntrica’, isto é, primeiramente um estudo do enobrecimento (ou santificação) dos humildes”.

Adotando o título de “O Chefe”, Saruman dominou o Condado com o apoio de rufiões, implantando uma forma autoritária de governo central que representou uma completa mudança no modo de vida dos Hobbits. O “sarumanismo” se caracterizou pela adoção de longa lista de regras arbitrárias contrárias aos costumes livres do Condado. Dentre tais regulações se destacam as proibições da entrada no Condado entre o pôr-do-sol e a aurora, a de acolher pessoas de improviso e a de consumir cerveja ou erva-de-fumo; a realização de coleta, estocagem e redistribuição da produção de alimentos por funcionários públicos; o fechamento das estalagens e tavernas; a criação de quotas de consumo diário de comida e de lenha; a ampliação maciça, contra a vontade dos hobbits, do número de Condestáveis, que, por sua vez, não tinham mais autorização para abandonar a função; a implantação da censura e o estimulo às delações; o encarceramento arbitrário de hobbits; o confisco e a destruição de propriedades privadas; além do corte das árvores e da poluição do rio e do ar por maquinarias.

A preservação do modo de vida da população do Condado só foi possível por meio de uma violenta batalha contra o domínio dos rufiões e pela liberdade, que foi comandada por Merry, Pippin e Sam, na qual Frodo participou, “mas sem sacar a espada”, exercendo apenas a tarefa de “impedir que os hobbits, em sua ira pela perda dos entes queridos, matassem aqueles inimigos que tinham deposto as armas”.

Feiticeira Branca

De modo semelhante à ditadura de Saruman no Condado, no livro The Lion, The Witch and the Wardrobe [O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa], Jadis, a Feiticeira Branca, dizia ser a rainha de Nárnia, sendo odiada por todos que eram bons, mas temida por conta “de transformar as pessoas em pedra e fazer mil coisas terríveis”, como ter submetido o reino ao inverno de cem anos, além de manter um regime ditatorial, controlado pelo medo. Assim como na narrativa de J. R. R. Tolkien, na obra de C. S. Lewis a vitória contra a tirana usurpadora só é conquistada por intermédio do sacrifício individual e de uma violenta guerra.

J. R. R. TolkienA percepção do autor de O Senhor dos Anéis sobre o risco do planejamento central se tornar um meio de reduzir a liberdade nas nações democráticas é semelhante à tese apresentada em 1944 por F. A. Hayek (1899-1945) no livro The Road to Serfdom [O Caminho da Servidão]. Em um rascunho não incluído em carta de 1954, J. R. R. Tolkien afirmou que “os tiranos perdem de vista objetivos”, por conta de um fator moral ou patológico, e “tornam-se cruéis e gostam de esmagar, ferir e macular”. Escrevendo para o filho Christopher em 30 de janeiro de 1945, ressaltou o exemplo dos santos que nunca curvaram “seus corações e vontades ao mundo ou ao espírito maligno”, mal esse encarnado na modernidade pelo “socialismo em cada uma de suas facções em guerra atualmente”. Em uma carta de 1956, Tolkien ressaltou sua aversão ao socialismo e ao planejamento estatal com as respectivas palavras:

“Não sou um ‘socialista’ em qualquer sentido, sendo avesso ao ‘planejamento’ (como deve estar claro) principalmente porque os ‘planejadores’, quando adquirem poder, tornam-se tão maus – mas eu não diria que temos que sofrer a malícia de Charcote [Saruman] e de seus Rufiões aqui, apesar do espírito de ‘Isengard’, se não de Mordor, certamente estar aparecendo”.

Mais de um século após o início da Grande Guerra, o planejamento estatal e a arrogância dos planejadores são apenas parte dos inúmeros problemas legados pelo conflito mundial que ainda devastam as sociedades democráticas. Nesse sentido, como enfatizou Russell Kirk “a trombeta de Tolkien nos desperta para as verdades de que o mundo é, necessariamente, um lugar de esforço e de que nenhum destino é pior do que uma débil segurança”. Nas divertidas Screwtape Letters [Cartas de um Diabo a seu Aprendiz], um livro de ficção satírico escrito em estilo epistolar, dedicado ao amigo J. R. R. Tolkien, e publicado em 1942, dentre os diversos conselhos dados por um experiente tentador para um iniciante demônio que busca corromper uma alma, C. S. Lewis elaborou a respectiva sentença narrando um dos desejos infernais:

“Nós, no entanto, queremos um homem atormentado pelo futuro […] e dependente por sua fé no sucesso ou no fracasso de planos cujo objetivo ele não viverá o suficiente para presenciar. Queremos uma raça inteira de seres perpetuamente em busca do fim do arco-íris, jamais honestos, jamais gentis, jamais felizes agora, e sempre usando toda dádiva verdadeira que lhes é concebida no Presente como mero combustível para poderem encher de dádivas o altar do futuro”.

O encantador dragão dourado do secularismo, com suas promessas de progresso ilimitado da humanidade, além de ter enfraquecido a identidade religiosa e cultural de nossa civilização por intermédio das chamas brilhantes do relativismo, do hedonismo, do democratismo, do multiculturalismo e do politicamente correto, não está se mostrando capaz de proteger os povos livres das ameaças do moderno dragão vermelho socialista e do antigo dragão verde do islamismo. A melhor defesa contra as chamas desses monstros é o escudo das virtudes, ao passo que a principal arma que devemos utilizar no combate tanto contra essas duas bestas ameaçadoras quanto contra a fera sedutora é a espada de imaginação, cuja lâmina deve ser constantemente afiada pela imaginação moral e pela sabedoria histórica. Nesse sentido é importante recorrermos tanto à normatividade oferecida pela fantasia mitopoética de C. S. Lewis e de J. R. R. Tolkien quanto ao entendimento do contexto histórico da Grande Guerra, no qual essas obras foram geradas. Os livros de Joseph Loconte e de John Garth podem ser os passos iniciais nessa jornada.

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Alex Catharino

Historiador, pesquisador do Russell Kirk Center for Cultural Renewal, gerente editorial do periódico "Communio: Revista Internacional de Teologia e Cultura" e autor do livro "Russell Kirk: O Peregrino na Terra Desolada". Facebook: https://www.facebook.com/catharinoalex/

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