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AntiCast: machismo, preconceito e flertes com o racismo?

AntiCast, um dos podcasts mais ouvidos do Brasil, ataca a direita com ofensas que deveriam gerar uma enorme campanha de boicote.

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AntiCast

O podcast Anticast se descreve como “Podcast sobre política, história, artes e qualquer outra forma de subversão”. É um dos podcasts (programas de rádio para internet) mais ouvidos do Brasil. Não surpreende que, no episódio 250, “Impeachment: Golpe ou Justiça?”, tenham se declarado desde o início “petralhas” e tenham declarado em uníssono que o processo de impeachment de Dilma Rousseff foi um “golpe”.

O programa foi feito por 5 pessoas bem humoradas, descoladas, com o típico jargão de comentadores de internet ou de professores de História galerosos.

Para um bloco homogêneo de humanos que afirma estar ter sofrido “um golpe”, afiança que foi “anti-democrático” (mesmo fazendo previsões para todas as próximas eleições) e que se rasgou a Constituição do país ao julgar Dilma Rousseff na Câmara e no Senado, todos estão rindo demais. Acho improvável flagrar apoiadores de Kurt von Schleicher, Reza Pahlavi, Luís XVI, Zahir Shah ou de D. Pedro II achando tanta graça de tudo após tão pouco tempo decorrido dos golpes que os derrubaram.

Defendem Dilma, dizem que Temer é um golpista, que Cardozo foi genial, que Dilma respondeu com maestria todas as perguntas que lhe foram feitas, que a ex-presidente não cometeu crime nenhum. Em algum momento periférico, fazem alguma piadinha envolvendo pedalada ou decreto, sem comentar o conteúdo da denúncia.

O foco do AntiCast é outro: afirmar que o impeachment, chamado “golpe”, é “machista”.

AntiCast - Impeachment: golpe ou justiça?Há algo curioso: o episódio do impeachment tem praticamente 3 horas de duração. Participam Ivan Mizanzuk, João Carvalho, Zamiliano, Thiago Hansen, Tupa Guerra e Júlia Matos, encontrada pelos produtores no Twitter pouco antes do episódio. As mulheres falam bem pouco no episódio. São quase uma cota. Mas todos os progressistas organizadores da festa são bem cheios de dedos para não interrompê-las. Ou tomar seu “espaço de fala”. Ou manterrupting. Ou roubar seu “protagonismo”. O feminismo possui um vocabulário chic, sofisticado, difícil. Aristocrático, economicamente falando.

Toda a argumentação é a de que em um dia antes de uma das gigantescas manifestações de rua que pediram o impeachment de Dilma Rousseff, provavelmente as maiores manifestações de rua da história mundial, uma imagem circulou entre leitores de blogs progressistas no Twitter de que alguém teria colado um adesivo de Dilma com as pernas abertas no carro, para a entrada do tanque ficar exatamente entre suas pernas.

Com a quantidade de loucos no mundo, não é difícil acreditar na veracidade da foto. Entretanto, sua divulgação se deu unica e exclusivamente entre a esquerda. Não há registro de pessoas pedindo o impeachment de Dilma divulgando tal imagem em sinal de comemoração.

Segundo uma das convivas do AntiCast, cita uma palestra que foi a respeito de charges na política, onde aprendeu que charges contra políticas mulheres quase sempre apontam para algo em sua aparência física (o que será que o AntiCast comentou a respeito de José Serra no fim?), geralmente a chamando de “puta” ou a associando à loucura, tentando diminuí-la por ser mulher.

Janaína Conceição Paschoal com estátua de Jesus CristoMais ou menos meia hora depois, um cidadão identificado como João Carvalho, ao ouvir pela primeira vez o nome de nossa colunista Janaína Paschoal, não tem a mais remota sombra de dúvida: afiança que ela precisa de uma avaliação mental urgente. Todos os participantes, novamente, riem à exaustão, logo após afirmarem que o “golpe” é machista por uma imagem que parece só ter sido registrada por blogs e páginas de esquerda. Nenhuma menção às horrendas charges que a esquerda fez com Janaína Paschoal, até de cunho sexual ou envolvendo seu corpo. O insulto gratuito dirigido a Janaína Paschoal, provando a tese, é bem diferente daqueles dirigidos a Michel Temer ou Miguel Reale Jr pelo AntiCast.

Quando Janaína volta à baila no final do programa, um outro participante, após perceber que está adentrando a espiral de associações e insinuações à “loucura” da professora da USP e proponente do impeachment com peça que nem tentam refutar, tergiversa, uma hora depois (1:53): é claro que não está insinuando alguma histeria de Janaína por ser mulher, pois não quer ser misógino.

Compreende-se assim a fórmula para se atacar uma mulher: basta ser machista ou misógino, para afirmar, no aposto seguinte, que não quer ser machista ou misógino. Risos e mais risos dos comensais virtuais, sob aplausos por seu feminismo e sua luta contra o preconceito.

Se o que chamam hoje de “machismo”, sempre denunciado como o Apocalipse, se mostra tão somente uma ferramenta para calar opositores, e que pode ser dita em um dos maiores podcasts do Brasil sem um pio nem mesmo das mulheres na cota das participantes (que dirá das milhares de pessoas na audiência), quando o assunto é o senador Cristovam Buarque, a coisa talvez exija um parecer jurídico.

Após ser chamado de “o nosso querido platelminto” pelo host, Ivan Mizanzuk garante que Cristovam Buarque já pode ser reduzido “a algum ser monocelular”. É a deixa para que o participante João Carvalho, com voz pastosa típica de professor de História de cursinho, com pausas extremamente didáticas, avalie o senador recifense pelo… formato de sua cabeça, a 1:13:50 do AntiCast:

Na verdade, o Cristovam enganou a todos nós. Porque durante todo esse tempo, cara, a gente tá pensando que ele tá evoluindo com base no fato de ele ser um Homo sapiens, cara. [risadas gerais] Cristovam… Não, cara, Cristovam, não. Se você observar bem a formatação do crânio de Cristovam, Cristovam é o link entre o Homem de Denisova e o Homo sapiens. [gargalhadas gerais] Que a gente vem buscando há anos, tá? Isso é um achado arqueológico fantástico. [risos incontroláveis]

Alguém lhe avisa que isso é um “momento frenologia”, a ultrapassada pseudociência racista que julgava ser capaz de perceber a predisposição à criminalidade de um indivíduo pelo formato de sua cabeça. Foi simplesmente a base das teorias nazistas.

O participante João Carvalho, aos risos, não se incomoda e ainda confessa:

Momento frenologia aqui. Eu acho que isso deveria ser melhor estudado. Mas assim, cara… O Cristovam é uma coisa impressionante, cara. O Cristovam, ele já voltou tanto no tempo e na evolução, cara, que eu sequer acho que a gente já pode (sic) considerar ele no Reino Animalia e a função do Cristovam agora é orbitar junto de outras partículas tentando buscar o equilíbrio primordial [gargalhadas gerais].

Ofensivo? O suficiente para João Carvalho angariar como resposta: “Cara, você é muito bom nesse negócio de ofensa, cara!”

Não exige muita imaginação saber o que aconteceria se algum podcast, ou um blog obscuro qualquer, dirigisse palavras ainda menos agressivas a outro pernambuco, o ex-presidente Lula. Digamos, a metade do primeiro parágrafo supra-citado. Mas sendo o AntiCast e sendo de esquerda, dostoieviskianamente, tudo é permitido.

Cristovam Buarque, senador pernambucanoAo contrário de nossa colunista, não somos especialistas em Direito, mas é de se perguntar se ofensas dirigidas aos atributos físicos de alguém, considerando-o menos capacitado a uma avaliação racional – ou até mesmo a seu pertencimento ao reino Animalia – graças à formatação de seu crânio, não flerta com algum(ns) dos parágrafos das leis de racismo ou injúria racial, mesmo que nenhuma ofensa envolvendo raça (ou procedência nacional, como no Art. 20 da Lei 7.716, de 5 de janeiro de 1989) explícita: apesar de implícita, quer nos parecer que denegrir e discriminar o senador por tais razões é condição necessária para o, digamos, argumento de João Carvalho.

Diga-se, não houve outro argumento apontado no AntiCast contra Cristovam Buarque além da formatura de seu crânio.

Tais podcasts, como já avaliamos no caso do Braincast, funcionam pela crítica ao “ódio”, denunciando “preconceito” de Deus e o mundo, em nome do politicamente correto, da ideologia permitida, de um mundo de paz e igualdade. É o que faz o AntiCast, sem nunca perceber que eles próprios usam os mesmos expedientes, minutos depois, que denunciam como o novo Auschwitz. No reino da proibição da ofensa, quem se ofende com mais facilidade pauta o debate público. É a mimimicracia em marcha, a hipersensibilidade seletiva como método.

Sobre José Serra, enfrentando uma greve no Itamaraty, o mesmo João Carvalho, a 1:25 de programa, também inventa um argumento circular para dizer que Serra não “abriu a porta” do Itamaraty para receber os grevistas há uma semana. A greve foi promovida pelo Sinditamaraty, que João, falando como “seu” sindicato, define como “bombeiro e incendiário”. Como Serra não atende à pressão, João Carvalho diz que ele é “imune ao diálogo democrático” (sic) e que espera que as pessoas “abrem” (sic) a porta [do Itamaraty] e José Serra esteja morto lá dentro.

Novamente: o que aconteceria se fizéssemos tal tipo de, digamos, “piadinha” com um Marco Aurélio “Top-Top” Garcia? A idéia de que praticamos “discurso de ódio” e que o politicamente correto tem de nos censurar para o bem geral da nação já, digamos, “bateria à nossa porta”. Ou será que o AntiCast acharia engraçado e nada “imune ao diálogo democrático”?

Não custa lembrar, ademais, que uma greve, como bem define Elias Canetti no seu clássico Massa e Poder, é, justamente, uma proibição, proibindo outros trabalhadores de trabalhar (em países normais, grevistas não recebem salário). E o modelo de resolução de problemas por sindicatos, usando o Estado para tomar dinheiro de todo o povo e defendendo seus próprios interesses com tal dinheiro, é o modelo corporativista do fascismo, que nasce de sindicatos (copiado por nossa CLT, imposta por Getúlio Vargas (defendido aos 1:47 e 1:48), o mais sanguinário ditador do Brasil). Por fim, pagar tais gastos sem prestar contas em troca de votos com a maquiagem contábil foi justamente o crime de fraude fiscal de Dilma Rousseff que gerou seu impeachment.

Sobre Michel Temer, em um momento em que sonham com ele preso, o AntiCast nos brinda com outro argumento de peso, técnico, jurídico e livrando o Brasil de preconceitos e do julgamento por traços físicos: “Não existe algema que cabe (sic) naquelas mãozinhas… Tem umas mãozinhas esquisitas, né, cara?” (1:44:30). Novos risos. É um “golpe” muito engraçado.

olavo-carvalhoApós comentar uma carta que Janaína Paschoal enviou à Folha, congratulando o jornal por voltar a dar um espaço ao filósofo Olavo de Carvalho (tachado como maluco e radical de extrema-direita sob o argumento de que é, risos), o âncora do AntiCast Ivan Mizanzuk afirma que Olavo está certo em afirmar que “qualquer um hoje dá aula na USP”. Um partícipe tentar corrigir o faux pas dizendo que não quer ser misógino, e obtém como resposta do âncora Ivan Mizanzuk: “Ah, [Janaína] gosta do Olavo, vai tomar no cu, porra!” Neste caso, mera figura retórica, certamente. E um argumento técnico e cabal para avaliar a obra de dois intelectuais.

João Carvalho arremata, perguntando (1:55): “Será que é essas [sic] pessoas mesmo que a gente quer que eduque as pessoas? [sic]” Será que é alguém que mede o caráter de uma pessoa pela formatação de seu crânio que queremos que eduque as pessoas? Será que suas aulas contém comentários sobre Janaína Paschoal que ele não diria on record?

Para os professores de História do AntiCast, Janaína Paschoal, que nem declara tão desabridamente sua posição política quanto eles próprios, ela é que faz “doutrinação” só de enviar uma carta à Folha. Eles próprios? Bastam novos risos e a ironia rasa modelo “Imagina” para refutar todo um estudo sobre por que as pessoas pensam o que pensam.

Não deixa de ser engraçada a previsão dos professores de História do AntiCast, já sabendo que precisarão saber como contar essa história às crianças (provavelmente sem menção a pedaladas ou decretos), de que Michel Temer deixará os banheiros das faculdades públicas sem papel higiênico (2:24). Para um programa que não tem medo de dizer que é comunista e usar expressões como “revolução vem debaixo”, “PSOL, você não é revolucionário, é reformista” ou “o proletariado não é cônscio de seu devir histórico” (!!!), faltam algumas aulas sobre Cuba, Venezuela e todo o bloco socialista.

Mas, para quem quer guiar o “proletariado” (quem?) em seu “devir histórico” revolucionário, o mesmo João Carvalho arremata a audiência falando dos eleitores de Bolsonaro, ou melhor, da “extrema-direita” (2:41:50):

Nós tamos falando de gente que o simples de a gente permitir que eles abram a boca, é o bastante para que a ausência de polegares opositores se manifeste. Nós estamos falando de gente que possivelmente tem simetria radial, porque até agora eu só conheço a estrela-do-mar que caga pelo buraco que fala. [mais risos]

É o suficiente para que sugiram que João Carvalho, de extremíssima-esquerda, dê um “workshop de ofensa”. Vamos imaginar se o próprio Jair Bolsonaro tivesse dito coisa que vale 1% da ofensa, como seriam as reportagens no dia seguinte?

A esquerda, em um país esquerdista como o Brasil (que acha que o PSOL não é de esquerda o suficiente), é inconsequente stricto sensu – ou seja, não tem conseqüências às suas ações.

A direita, desorganizada, não faz campanhas de boicote. Não entope o Facebook com denúncias. Não faz análises críticas a respeito do que dizem dela. Se contenta em muxoxos para os amigos.

O AntiCast pode criticar o chamado “machismo”, para usá-lo como arma menos de meia hora depois, justamente porque sabe que quem se espanta com palavras é apenas a esquerda, e a direita nem sequer vai ouvi-los.

Ninguém irá pedir para o anunciante do podcast retirar seu patrocínio, já que o programa abona ou desabona pessoas pela formatura de seu crânio. Não virará notícia. O podcast não sofrerá uma chuva de avaliações negativas e comentários sobre seus flertes com a misoginia e avaliações para seus leitores mais ideológicos notarem o que está diante do nariz de qualquer um com senso de realidade, sem precisar de aumento em sua audiência. AntiCast não aparecerá nos Trending Topics do Twitter. Ninguém transformará as atividades acadêmicas de seus cúmplices numa perseguição ideológica infernal. O Ministério Público nunca será acionado para investigar o programa.

O AntiCast conta com isso: com a inconseqüência absoluta de suas ações. Porque apenas a esquerda sabe fazer a infowar, a guerra de narrativas, e também a netwar, a guerra em rede de criação de sentimentos e permissões do que pode ser dito.

É por isso que a guerra agora é, como diz o próprio AntiCast, de narrativas: quem contará essa história? Apesar da derrota monumental e histórica que a direita impôs à agenda da esquerda, quem ainda sabe jogar o jogo político é gente que não tem medo de, entre os seus, entre risos e piadinhas, dizer que é comunista.

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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs". Tem passagens pela Jovem Pan, RedeTV!, Gazeta do Povo e Die Weltwoche, na Suiça.

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