O conflito na Síria é extremamente complexo. A prudência é urgente frente aos fatos e interpretações apressadas sobre Trump, Assad e Putin.

Tenham muita cautela com as análises que estão pipocando por aí sobre a Síria. Principalmente com aquelas que se apresentam como definitivas. A verdade é que nada é definitivo neste momento e que posicionar-se a favor ou contra do que quer seja, como fez Paul Joseph Watson, de um lado, e Bill Kristol, de outro, é sinal de imaturidade ou de compromisso ideológico assumido de antemão.

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O conflito sírio é de uma complexidade inimaginável, pois é composto por uma equalização de forças que muda a todo instante e que, é imprescindível lembrar, não implica em qualquer tipo de aliança em bloco por parte dos Estados e grupos que as compõem.

É verdade, por exemplo, que forças terroristas como o Estado Islâmico e a al-Qaeda lutam contra o regime de Bashar al-Assad, mas o regime também conta com o apoio de grupos terroristas como o Hamas e o Hezbollah, de modo que não é possível afirmar que basta apoiar este ou aquele lado para se opor ao “terrorismo” (esse termo vago e inadequado).

Pensem na Guerra Civil Espanhola e nos esforços que até hoje são empreendidos para compreendê-la. Mal comparando, o conflito sírio pode ser visto como a Guerra Civil Espanhola do nosso século, só que infinitamente mais complexa e problemática, uma vez que ocorre no Oriente Médio, envolve todas as facções do Islã e todas as grandes potências internacionais. Do mesmo modo, o Governo Donald Trump passa por um momento de turbulência, com diferentes grupos (igualmente importantes e influentes) adotando posições diferentes e quase opostas.

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Ataque americano a Síria, Donald TrumpIsso demanda uma análise muito cautelosa não apenas por parte dos observadores externos, mas também (e sobretudo) por parte de Donald Trump, que, ao que tudo indica, tem se movido com prudência e cautela, fazendo o necessário para ganhar tempo enquanto busca assumir plenamente o controle de seu governo e da situação de modo geral, sem, no entanto, mostrar-se vulnerável e fraco perante seus adversários — os ataques de ontem foram calculados para ter poucas baixas, não atingir civis nem militares estrangeiros, e funcionar como um indicativo claro de que o uso de armas químicas não será tolerado e que, por outro lado, não implicasse numa mudança radical de postura e de política frente ao conflito e, menos ainda, em qualquer tipo de compromisso com uma operação de mudança de regime.

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É necessário lembrar ainda que há uma distância entre os que levantam questionamentos sobre o uso de armas químicas por parte do regime e aqueles que afirmam que não houve ataque nenhum, que a coisa foi toda encenada e tudo o mais. Se é verdade que não há motivos plausíveis para acreditar que Assad e seus generais realizariam um ataque como esse em um momento em que estavam vencendo o conflito e distantes do risco de uma interferência mais clara das forças armadas americanas, também é verdade que o próprio regime não nega que o ataque tenha ocorrido.

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A versão oficial do regime, defendida também pelos russos, é a de que o gás sarin estava sob domínio dos rebeldes e que foi liberado acidentalmente por parte de um ataque convencional feito pelo regime. Complexo, não? Portanto, não é hora de sermos desonestos e dizermos que sabemos o que não sabemos ou que não sabemos o que sabemos. Tenham cautela com o que estão lendo por aí, busquem ser pacientes e fiquem atentos no Senso Incomum, onde publicaremos análises mais detalhadas e aprofundadas em breve.

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