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Um aposentado pintou o seu próprio muro de cinza no Beco do Batman. A Folha acha que é um "problema", já que o lugar é rota de pichador.

O dono de um imóvel no Beco do Batman, na Vila Madalena, pintou seu muro de cinza, cobrindo as pichações, chamadas de “grafiti” por serem coloridas (eu também não entendi, feche o bico e continue lendo sem fazer perguntas), que ali estavam antes. O gesto foi chamado de “protesto” por gente que fumou LSD batizado. A grande e velha mídia teve de explicar como manchete que pintar o muro da própria casa não é um protesto, porque seus leitores não sabem mais disso sozinhos:

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Para quem não é de São Paulo e não se interessa por crack, cabe uma explicação: o tal Beco do Batman é um lugar na Vila Madalena, bairro de São Paulo freqüentado por gente descolada, rica, Toddynho, proto-maloqueira, que se veste mal para parecer cool e fuma muito, muito bagulho. O diferencial do Beco do Batman é que, além da maconha rolar solta, igual ao resto da Vila Madalena, tem muita pichação colorida. Igual ao resto da Vila Madalena. Bom, tem barzinhos. Igual ao resto da Vila Madalena. Ah, sei lá eu por que gostam dessa porra.

Outra coisa que tem na Vila Madalena é o estúdio onde gravamos nosso podcast. Que não é pichado e não tem maconheiro. Nem tudo na Vila Madalena é petista e nóia rico, pra quem sabe reconhecer a diferença.

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O dono da própria parede que era pichada no Beco do Batman disse que os grafiteiros (nova gíria da grande e velha mídia para pichadores) não respeitam nada. Ou, como diz a Folha, cujos jornalistas costumam ir em peso à Vila Madalena sacrificar pombas com bicos alongados, banhar-se em seu sangue aos gritos mântricos de “Haddad, Haddad, Haddad!” enquanto usam a ciclofaixa, “do que [o aposentado] chama de falta de respeito de alguns grafiteiros”. A Folha fica na Alameda Barão de Limeira, 425, para o caso de alguém que queira tentar a sorte e ver se o jornal denomina como “o que chamam de falta de respeito” caso queiram pichar seu próprio muro.

As pichações diziam coisas como “Existem coisas mais importantes do que um muro cinza” (pode até ser, mas entre um muro cinza e uma pichação, o muro cinza é putaqueopariumente mais importante). Isso para não falar das coisas que são mais importantes do que a Folha de S. Paulo. Ou vilamadalenizar. Para a Folha, o Beco do Batman era até point turístico de São Paulo. O paulistano médio não sabe que São Paulo tem uma Rota da Maconha.

Como disse nosso produtor, o vilamadaleneiro Filipe Trielli, na 4.ª série você encontra quem faz coisas bem mais bonitas no caderno. Cinza é o novo preto:

Beco do Batman na Vila Madalena

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Ainda de acordo com a Folha, “os murais do Beco do Batman foram criados pelo grupo de artistas Tupinãodá, pioneiro da arte de rua paulistana que assinou também os murais no túnel da avenida Paulista”. Não é possível que com tanto aposentado nessa cidade, não tenha um, um pra cobrir aquela poça de vômito vertical de um amável cinza-necrotério. Os “artistas” Tupinãodá… olha, desisto de fazer piada, releia o nome umas 40 vezes e me diga se daí vai sair um novo Michelangelo.

João Doria, o prefeito, deu pra trás, disse que precisaria ter conversado com pichadores e tirado fotos dos pichos da Avenida 23 de Maio antes de apagá-los há alguns meses. É uma atitude que só agrada pichadores. Única e exclusivamente pichadores, maconheiros e mancomunados com eles (como jornalistas). A população de São Paulo sabe muito bem que não vive em Olinda, e que a cidade é mais cinza do que livrinho de sacanagem de velha que não sabe usar o XVideos. E é isso aí, galera: somos cinzas. E pronto. Quem não gostou, que vá viver numa favela carioca. A periferia de São Paulo é mais colorida devido às pichações. Por isso e outras coisas que são bairros com menor qualidade de vida. Não há boa cidade no Universo sem alguma unidade cultural (foi mal, Ayn Rand).

A verdade é que a vilamadalenização de nossa existência é coisa daquela turma que faz faculdade de bagulho e ainda acha que Fernando Haddad, o das ciclofaixas, é um prefeito inteligente (sic). Para as pessoas normais (que compõem uns 90% do eleitorado de João Doria), dar dinheiro público pra pichador e chamar montes de tinta colorida sobrepostas de “grafiti” e “arte” é simplesmente passar a mão na cabeça de gente com problemas, que deveria arrumar um emprego.

Por que devemos aceitar que a mídia nos obrigue à vilamadalenização de São Paulo? Aquela mídia que diz que Doria “já tem” 20% de reprovação, e terá certamente mais se continuar dando mole pra mídia e pra pichador. Acaso queremos mesmo vilamadalenizar São Paulo por saudade do Fernando Haddad ou vamos admitir que pichação boa é igual socialismo e maconheiro: só é bom na casa dos outros?

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