Eleições em Israel

Eleições em Israel: rezar ou combater?

As previsões e análises de Evandro Pontes para as importantíssimas e delicadas eleições de Israel

Em ídiche, há uma palavra comumente usada para alertar situações de perigo: Gevalt!

Gevalt é mais do que meramente “Atenção!” ou o “Achtung” alemão – é uma expressão com tantos conteúdos que quando anunciada, visa dar cores a uma situação de preocupação.

Em inglês seria algo como “Oh My God!”.

As eleições de Israel que ocorreram hoje, 17 de setembro, têm sido encaradas exatamente ao som do Gevalt.

Tudo começou em outubro do ano passado, quando o Ministro de Defesa Avigdor Lieberman demitiu-se e levou consigo algumas cadeiras que compunham a coalizão de Benjamin Netanyahu. Duas causas levaram Lieberman a abandonar o governo: (i) Lieberman entendia que Netanyahu não estava combatendo o Hamas com força suficiente e deveria ser mais rigoroso em relação aos terroristas ligados ao Hamas em Gaza; (ii) o tal Projeto de Lei do Alistamento, que Lieberman deseja passar no Knesset (o parlamento israelense) para dificultar a dispensa do serviço militar por parte de estudantes da Torah (qual seja, rapazes aspirantes ao rabinato, em sua esmagadora maioria, os de linha mais ortodoxa).

Essa postura de Lieberman encontrou discordâncias, obviamente, por parte dos partidos dos religiosos ortodoxos, apoiadores de Netanyahu desde a primeira hora, a saber, o Shas (ligado a comunidade sefaradí) e o UTJ (ligado à comunidade ashkenazí).

Isso levou o Knesset a antecipar as eleições que ocorreriam em outubro deste ano para abril. Na eleição de abril, surpresa para muitos (mas nunca para quem estava atento ao que estava ocorrendo), Netanyahu venceu com boa margem de cadeiras e recebeu a incumbência de montar o gabinete.

Mas no meio de Netanyahu lá estava ele – Lieberman. Com 5 cadeiras na coalizão vencedora de 65 cadeiras, Lieberman trouxe a mesa as suas exigências, não aceitou negociar e sua inflexibilidade levou Israel a uma situação de impasse que nunca havia ocorrido antes em sua história: a falta de acordo impediu a formação de um novo governo e o Knesset foi dissolvido novamente, 3 semanas depois da posse dos seus membros.

Pela primeira vez Israel teve eleições, mas nenhum governo foi instalado.

Esse passado leva Israel para as urnas hoje novamente.

Desde 2009 as pesquisas têm errado por margens muito elevadas – 2015 talvez tenha sido o maior vexame da história dos institutos de pesquisas. Talvez esse vexame histórico dure até 17 de setembro próximo: as pesquisas indicam ligeira vantagem do partido Kahol-Lavan (Azul e Branco) do ex-chefe das IDF (as Israeli Defensive Forces, nome oficial do Exército de Israel), Benny Gantz em parceria com Yair Lapid, uma espécie de “William Bonner israelense” e que acumula uma série de fracassos eleitorais de dar inveja a Geraldo Alckmin.

Kahol-Lavan é o partido que está no espectro de centro-esquerda da política israelense e carrega boa parte da esquerda em sua coalizão (incluindo partidos, como o HaAvoda, ou Partido Trabalhista, ligado aos sindicados israelenses e à central única dos trabalhadores de Israel, o Histradut).

Ainda que o Kahol-Lavan consiga um maior número de cadeiras que o Likud, o que, aposto, não irá ocorrer, a conta da maioria parlamentar não fecha para o Kahol-Lavan: ainda que eles incluam o partido de Lieberman e as cadeiras que lhe são esperadas (ao meu ver, superestimadas nas pesquisas), o KL não conseguirá obter o “número mágico” de 61 assentos, necessários para assegurar uma coalizão no Knesset de 120 cadeiras.

Na conta da “oposição ao Likud” as pesquisas incluem os partidos árabes Balad e Ta’al bem como as legendas de ultra-esquerda como o HaHadash (curiosamente, hadash em hebraico é “Novo”). Essas legendas têm por princípio partidário não integrar qualquer coalizão com partidos judeus, exceto aqueles de extrema-esquerda e integralmente comprometidos com a “causa palestina” (caso do curioso HaHadash). Suas plataformas são antissionistas e no caso do Balad, há até explícita pregação de extinção do Estado de Israel.

Por esse detalhe, é absolutamente irrefutável que, matematicamente, o KL jamais terá votos suficientes para formar essa maioria, a não ser que os partidos árabes topem flexibilizar, como forma de bloquear a vida da direita israelense – algo que jamais ocorrerá quando tais partidos podem bloquear a vida de todos os israelenses simplesmente não participando de qualquer coalizão.

Por isso, quando alguém na grande mídia anunciar que Gantz “tem chances de vencer as eleições”, pare e “sorria – você está sendo filmado”.

O impasse hoje existe pois Israel dividiu sua direita entre seculares e religiosos (a esquerda, de forma geral, é essencialmente secular e anti-religiosa).

Historicamente, o ponto de equilíbrio na história da política do Estado de Israel sempre foram os religiosos – Begin (um dos fundadores do Likud) vence em 1977 pois os religiosos resolvem abandonar a esquerda trabalhista de Ben-Gurion e Golda Meir. Assim, para fazer uma razoável previsão eleitoral em Israel, bastava observar a postura e de que lado estariam os religiosos.

Contudo, de uns anos pra cá, o secularismo direitista, algo bastante parecido com o positivismo das altas patentes militares brasileiras, ocupou um espaço razoável na política de Israel a ponto de desequilibrar esse jogo de forças na direta e exigir do povo de Israel a revisão das verdadeiras bases do sionismo. Lieberman obriga o povo de Israel a responder para os políticos se a base do sionismo é a Tanah ou os tanques e drones.

A depender do resultado de hoje, Israel poderá entrar em uma fase histórica nova em que as armas prevalecerão sobre a palavra de D’us.

Minha aposta? Uma arma não pode ser manuseada por um covarde.

A arma pode ter enorme poder de fogo, mas se quem estiver por trás dela não tiver a mais importante munição da vida, a coragem, a arma de nada serve.

E a maior fonte de coragem, é, sem sombra de dúvida, a palavra de D’us, que está na Tanah.

Voltando para o “politiquês”: Netanyauhu vencerá mais uma vez, Gantz fará apagada oposição, ortodoxos e o partido da “Nova Direita” (Yamina) protagonizarão um “passeio” nas urnas, tudo isso alimentado pelo baixíssimo comparecimento dos árabes e seculares, que acabarão por mandar Lieberman a ver de casa a formação do próximo Knesset, o de número 22, que na Kabalah Judaica significa, entre outras coisas, o atingimento de um objetivo que, aos olhos de muitos, parecia impossível.


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