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Rafael Nogueira: Biblioteca Nacional não será “megafone de direita”

Nosso colunista também lembra que Olavo de Carvalho nos ajuda a pensar com liberdade, e o papel da Biblioteca é sair "ilesa da guerra cultural"

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Rafael Nogueira, Biblioteca Nacional, Entrevista

Nosso antigo colunista e agora presidente da Biblioteca Nacional, Rafael Nogueira, concedeu entrevistas ao Estadão e a Folha de SP, no dia 9 de Dezembro, explicando quais serão a metodologia de trabalho e a ideia que norteará a Biblioteca em sua gestão.

Ao jornal Folha de SP, Nogueira disse que não quer transformar a Biblioteca em um instrumento para uma briga partidária, mas que pretende manter aquilo para qual foi criada: a preservação da identidade nacional.

“Mas a ideia não é chegar aqui e transformar a biblioteca num megafone de direita. Eu não recebi essa instrução e não é o meu estilo. A ideia é manter o que ela está fazendo bem e implantar um pouco da minha visão docente, que é de aproximar as pessoas e de democratização da leitura.”

Além disso, pretende elaborar planos para que jovens e adultos tenha acesso aos clássicos: “quero promover cursos de aproximação a grandes livros; a adultos, inclusive. Esse é o objetivo”.

Para o Estadão, a entrevista foi mais densa, com trechos inteiros da fala do professor Nogueira. Nas linhas abaixo, encontram-se as passagens mais importantes da entrevista. (Em negrito é a pergunta da repórter)


Em uma de suas postagens, o senhor disse que nunca foi um sonho ter um cargo público e que tinha outros planos para os próximos anos. Por que foi o escolhido? Como recebeu a notícia? Qual imagina que possa ser sua contribuição e o que o habilita para o cargo?

Roberto Alvim, ele disse que acompanhava meus vídeos e gostava da minha forma de transmitir meu amor à pátria. Eu me destaco por ser professor de livros clássicos. Meu sonho era ficar em casa, montar uma estrutura para gravar minhas aulas, e ganhar mais dinheiro, podendo também me dedicar às minhas pós-graduações. Mas o Roberto Alvim me chamou e disse que a preocupação era que a juventude tivesse inspiração, gosto pelo estudo, amor à pátria. Minha figura tem servido justamente para isso, então eu seria a pessoa ideal. Eu me vejo como alguém com experiência. Meu primeiro emprego foi como assessor da presidência da Academia Santistas de Letras, já ensino sobre livros desde 2006, formei o primeiro grupo oficial de leitura da Universidade Católica de Santos. Percebo que as instituições culturais não sabem se comunicar bem com o público. Venho com a missão de fazer a ponte entre a instituição e quem quer ter acesso a elas.

O senhor reclamou da forma como foi apresentado: monarquista, olavista e que associava o analfabetismo a artistas como Caetano Veloso.

A primeira notícia que apareceu me trazia falando do Caetano (Veloso) e as pessoas me definiram como alguém que fala mal de personalidades da cultura popular. Aquilo era um tweet de mais de dez anos, quando eu tinha dezenas de seguidores e notei que livros didáticos mencionavam mais a música popular do que os grandes livros da literatura, mas foi mais uma brincadeira do que uma visão sobre o analfabetismo. Para mim, a música pode ser usada para alfabetizar. Não sou um monstro retardado mental. Faltou checagem, era só me perguntar. Quanto a ser apresentado como monarquista ou olavista, acho que falta contexto. Sou um professor, quase sempre falando de livros e, ainda que seja para pessoas interessadas em ouvir sobre monarquia ou em ver aulas do professor Olavo de Carvalho, estou falando de livros clássicos, de leitura. Cria-se uma caricatura. Porque as pessoas entendem o professor Olavo não como o professor e filósofo que nos abre portas para uma reflexão livre, pública, mas como o autor de posts mais polêmicos, que fala palavrão. Eu fiquei encaixado nessa má visão dada ao professor Olavo. Ao mesmo tempo, sou apaixonado pela história de Portugal, do Brasil colonial e imperial. E enxergo no segundo reinado e na constituição de 1824 experiências políticas e jurídicas interessantes. Porque não tivemos uma República de 1889 até hoje, tivemos várias, e essa república já está dando sinais de confusão. No mínimo a gente tem muito a aprender com o século 19. Não é proibido discutir a monarquia como alternativa. Mas a minha visão é que ainda como República temos que conhecer melhor a experiência política do século 19. Mas é claro que acho a experiência social ligada à escravidão abominável. Então, quando se fala em olavismo, as pessoas interpretam como algo agressivo, como alguém que não sabe conversar. E, no monarquista, veem alguém autoritário, que quer ter um rei e pessoas privilegiadas submetendo o restante da população.

A história do Brasil está guardada aqui. Como será o seu esforço para que nada se perca – por acidente, negligência ou ideologia?

O papel da Biblioteca Nacional é sair ilesa dessa guerra. Eu cheguei agora e percebi que essa nau está sendo conduzida para a preservação da memória e da identidade brasileiras. Mas não sejamos ingênuos, há quem queira tomar a cultura para que seus partidos se deem bem. Há muitos anos é o espectro da esquerda, ainda que não tenha identificado isso aqui, que busca atrapalhar o desenvolvimento da cultura, que é levada para o sucesso partidário. O partidarismo atrapalha o trabalho intelectual e estético. Quando ele fala em guerra, ele quer impedir que a cultura seja transformada em uma arma da política. Ele quer que a cultura floresça como cultura. Ele não me pediu para transformar todo mundo em olavista ou monarquista. Eu entendo as falas dele, as pessoas se apegam a momentos em que ele se aborreceu ou se exaltou, usando palavras que não foram bem escolhidas. E é interpretado como alguém que quer que as pessoas transformem a cultura em uma loucura. Para mim, ele não pediu isso.

O prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa, é feito em parceria com a BN. O presidente Bolsonaro não quis assinar o diploma de Chico, o mais recente premiado. Isso pode sugerir que autores críticos a este governo podem não ter chance nas próximas edições?

Peço desculpas, mas só ouvi falar desse caso específico. Meu critério não é de autores que sejam meus amigos ou não populares. Minha visão é que as premiações têm suas regras e critérios e elas devem ser cumpridas. Mas eu não estava aqui e não prestei atenção na obra que foi premiada. Mas garanto que a Biblioteca Nacional não é lugar para ficar se transformando em bajulação de amigo. Mas não entendo que o ato do presidente seja por isso, ele deve ter suas razões, pode ter encontrado problemas que eu não saiba. A premiação foi feita e não posso mexer nisso.

Com os novos diretores indicados por Alvim assumindo as instituições de Cultura do governo, pode-se dizer houve uma guinada conservadora. O que isso quer dizer na prática? Qual é o projeto do atual governo para a cultura?

O conservador tem a vocação à preservação. E queremos preservar arquivo, memória, identidade. Esses termos precisam ser bem explicados. Conservador tem sido citado como aquele que tem visão de privilégios, autoritária, mas é aquele que quer que o Brasil, em vez de se transformar em refém de modas internacionais e inclusive de organizações internacionais, possa encontrar seu próprio caminho. As vias formativas da cultura, o desenvolvimento da linguagem, da educação musical, elas tem um lado técnico pelo qual o conservador tem mais amor do que o revolucionário. O revolucionário quer criar coisa novas, que são interessantes. O conservador tende a preservar o que já foi realizado e partir disso realizar uma criação com base em parâmetros desenvolvidos por séculos. Os conservadores têm vocação interessante para cuidar da cultura. Há uma preocupação de que transformemos as instituições culturais em porta-vozes do bolsonarismo. Isso foi feito por quem veio antes. O que queremos agora é preservar a cultura. Isso não significa a politização do que não é político.

Sabe o que faço com livros escritos por pessoas de quem discordo? Eu leio. A liberdade de pensamento é sustentada pela liberdade de edição e de publicação e por muitos anos os livros que não eram de esquerda eram difíceis de publicar. Havia a visão de que eram perigosos. Sou um entusiasta dos livros. Acho que vocês estavam prevendo outra pessoa.

O maior inimigo da Biblioteca Nacional é o ódio ao conhecimento, porque gera negligência e descaso. E também pessoas mal-intencionadas que não compreendem a importância do acervo e querem lucrar com ele. E as pessoas que não entendem a necessidade de se preservar o acervo, do amor à cultura e do amor à pátria.

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Oliver

Oliver é dropista, podcaster e palestrante. Twitter: @Oliver_talk

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