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Repulsa ao sexo

Colunista da Folha pede que jovens transem porque ela não consegue mais

Colunista que está brigada com o pai faz confissão comovente da vida infeliz que leva e pede: alguém aí transe por mim. É o modo tia velha de idealizar o sexo

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casal-de-idosos

Johan Huizinga, no livro As Sombras do Amanhã, diz que “cultura requer, antes de tudo, certo equilíbrio entre valores materiais e espirituais”. A elevação cultural se mede pelo espírito, não pelo intelecto. O intelecto pode enganar facilmente, o espírito não.

Gente mesquinha e sem graça pode, utilizando os ornamentos da cultura, passar a impressão de que domina um assunto, mas será incapaz de dar graça ao mesmo assunto. Qualquer civilização saudável aspira a uma ordem que transcende a mera satisfação pessoal.

E toda sociedade doente padece com humoristas que querem possuir intelecto e não espírito. Daí que é muito mais saudável para uma civilização uma epidemia de Ari Toledos e Costinhas que uma de Duduviers e Porchatos.

Para exemplificar esse desequilíbrio entre espírito e intelecto é que recorro novamente a uma coluna da Folha de SP. A Folha possui um verdadeiro time dos sonhos de desequilibrados, ressentidos e telhudos de toda sorte.

A última coluna da senhora Tati Bernardi, conhecida por brigar com a família por causa de política, é uma evidência clara da doença espiritual que acomete nossa elite tagarelante. Com o poético título “Jovens, Por Favor, Transem”, a senhora Tati oferece a seu público uma confissão comovente do seu ocaso.

Respondendo à ministra Damares, que disse que crianças de 12 anos ou menos não tem maturidade para transar, a senhorinha Tati saiu em defesa de sabe-se-lá-o-quê. 

 


Logo no primeiro parágrafo, num tom bíblico, nossa Dona Bela de calça skinny conclama os jovens, não às crianças a que Damares se refere, ao sexo sem consequências. Algo assim meio anos 60. A nossa esquerda progressista não vê a hora dos anos 70 começarem. 

Se o texto parasse por aí, ok. A gente entende que ficar para trás nos assuntos de hoje é muito difícil para quem já não tem assunto. Apesar de não compreender falas simples, como a da ministra, é possível compreender a vontade de se mostrar alguém pra frentex na sua fantasia de um mundo atrasado, tal qual o da colunista. Mas o que vem depois é de cortar o coração.  

Tati resolve alertar os jovens sobre a vida adulta. O texto é quase uma viagem no tempo. Agora estamos nos anos 50.

Tati confessa que as costas doem, os joelhos estalam. Tudo são neuroses que anseiam pelos antidepressivos desesperadamente. Não há sexo no casamento, “se vocês não transarem antes do casamento, talvez vocês não transem nunca mais!” Lendo assim parece que Tati está na casa dos oitenta; ela alega ter só quarenta. 

Mas não são só as articulações motoras de Tati que andam mal. As mentais praticamente encerraram as atividades há muito tempo. Tanto que tudo o que nossa vetusta Tati faz é lembrar-se dos tempos em que abanava os ananases e esfolava cabritos quando não tinha chefe e um marido que fica o dia todo com seu fone de ouvido (a gente entende o coitado). Seu bovarismo é retroativo. Lembra com saudades das escadas que frequentou. Pelo que se deduz, ela só deu bisnagadas em escadas. Se tivesse variado as condições, talvez não tivesse tanta dor nas costas e os joelhos não estalassem tanto.

Tati acha que filhos bem sucedidos têm pais progressistas que os matriculam em escolas progressistas e psicanalistas lacanianos e freudianos progressistas. Tati não quer um filho, quer um Leandro Karnal. 

Desde a última visita de Tati a este espaço, a grande mentira que conta para si parece estar aumentando. Sua mais nova teoria é que o sexo é coisa pra jovem. Os velhos se entopem de remédios porque casaram e descobriram que ter a Tati Bernardi como esposa é a mesma coisa que vegetar numa cama de hospital. Me parece uma boa teoria.

Mas Tati vê tudo embaçado pela sua lente ideológica. Desconhece os prazeres da vida adulta, do sexo adulto, de um papo no boteco. Toda vez que eu ouço um esquerdista falando de sexo, tenho certeza que ele está falando sobre tortas holandesas em restaurantes finos no East Side.   

Tudo o que peço é que o marido de Tati não largue esse fone de ouvido por nada nesse mundo e seus pais, a fim de salvaguardar sua saúde, mantenham-na a uma distância segura. Dou esse mesmo conselho a quem pretenda ler uma de suas boçalidades. Não leiam Tati e levem uma vida verdadeira. 

É realmente inacreditável, é contra tudo o que se espera, que alguém que queira enfiar Lacan e Freud goela abaixo de um filho, que priorize sua visão política rasteira, deixando a família em segundo plano, que ache que depois dos trinta a vida seja neurose vs. antidepressivos porque sua mãe destruiu sua autoconfiança, não desperte mais o desejo libidinal de alguém. Quem diria? É totalmente imprevisível esse mundo. 

Tudo o que lhe resta não é pedir que os jovens transem, isso acontece desde que o primeiro nematelminto dividiu-se em dois. Tati quer romper com os padrões de 1920. E, quem sabe, que algum macho tóxico responda aos seus apelos velados e lhe dê umas boas palmadas de graça.

A conclusão é que Tati não mete, remete.

P.S. Poupei da análise o parágrafo em que ela fala sobre rimas. Seria um abuso do direito de bater em bêbado.

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Carlos de Freitas

Carlos de Freitas é o pseudônimo de Carlos de Freitas, redator e escritor (embora nunca tenha publicado uma oração coordenada assindética conclusiva). Diretor do núcleo de projetos culturais da Panela Produtora e editor do Senso Incomum. Cutuca as pessoas pelas costas e depois finge que não foi ele. Contraiu malária numa viagem que fez aos Alpes Suiços. Não fuma. Twitter: @CFreitasR

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