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Quarentena

Diário de um isolado 2

Hora de aceitar o confinamento, aprender piano, solfejo, tricô para fazer roupinhas para cada bolacha cream cracker, lavar as mãos a cada tuíte da Vera Magalhães e desenvolver suas excepcionalidades, como decorar as capitais do mundo

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Lonely-life

Quinto dia

Voltei a colocar açúcar no café. Sinto-me um criminoso. Quer saber? As pequenas transgressões, sobretudo quando o que se transgride é uma frescura desmesurada, faz um bem danado pra alma. Quando esse isolamento acabar, se eu sobreviver, volto a palitar os dentes no restaurante.

Passamos para a fase 2 da quarentena, talvez a melhor fase. Os áudios médicos cessaram. A gente já sabe o que fazer, como lavar as mãos de sete em sete segundos, já treinamos como se deve espirrar ou tossir, já estamos cientes dos alimentos que aumentam nossa imunidade, como se reproduzem os siris do Djibouti, o diabaquatro. Agora vem a aceitação e, com ela, as piadas. Memes, áudios engraçados, vídeos toscos, uma beleza. É a primeira fase da negação. Semana que vem tá todo mundo que nem a Vera Magalhães, berrando histericamente. Mas, por ora, alegremo-nos. 

Tudo vai indo bem. Tenho usado o tempo da melhor maneira possível. Vi documentários, todos os jogos do Brasil nas copas. Me desculpem os campeões de 70, mas a de 58 é, de longe, a melhor. Gilmar, De Sordi, Orlando, Belini e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Pelé, Vavá e Zagallo. Djalma Santos jogou a final no lugar do De Sordi, mas a lateral direita na copa é do jogador do São Paulo, vamos ser justos. 

Descobri que no Amazonas tem um rapaz chamado Tospericagerja. É uma homenagem aos campeões de 1970. Tostão, Pelé, Rivelino, Carlos Alberto, Gerson e Jairzinho. Que coisa incrível, não?

Pensando nisso e como ainda não tenho filhos, bolei alguns nomes para os meus futuros rebentos, tendo em mente as copas que assisti e o Brasil ganhou. em homenagem  a 1994: Dumatarobe. Descubram aí. 2002: Marororori. É a risada do Silvio Santos. 

Vou até o mercado. Já amarrei um lenço na boca, calcei as botas, me armei com facões, caso alguém queira me cumprimentar no hall do prédio. Já na rua, cruzo com um tufo de feno e duas pombas que me encaram como dois sentinelas russos. Só estou indo buscar um rolo de papel higiênico e frutas, penso.

É quase a paisagem de um romance do Cormac McCarthy. 

Tentei colocar dois dos meus personagens favoritos nesta confusão de gripe chinesa.

O barulho do gatilho soou seco e depois, silêncio. Joseph K. franziu o corpo todo num pavor amarelado. Nada, nenhum pensamento lhe passou naquele instante. Nenhuma dor assomava no horror que fazia seu corpo todo trepidar, nenhum sangue transcorria de cima a baixo, nenhuma… E recolheu o álcool gel que havia deixado cair no susto. Ao longe, viu a silhueta de Mersault, seu velho amigo, que fugia com dois rolos de papel higiênico a baloiçar nas mãos.

Muita coisa já aconteceu. A última é que nossos “liberais”, aquela gente prudente and sofisticada, estão defendendo o regime comunista chinês. São tão graciosos! Dessa crise toda, quando os poucos que restarem se restabelecerem, esse episódio será o mais vergonhoso. 

E fiquei sabendo também que a prefeitura de São Paulo vai gastar 103 milhões de Reais, isso mesmo, vão torrar 103 milhões de Reais para espetáculos nas janelas. A idéia é inspirada no que aconteceu na Itália. Só há uma diferença: lá foi uma manifestação voluntária, ninguém gastou um tostão. Sou um pé rapado, mas se pudesse, doaria a mesma quantia para não haver nenhum espetáculo na minha janela. Um coisa é ouvir uma ária de Verdi, outra é aguentar Eguinha Pocotó. Estamos no meio de uma pandemia e nosso prefeito aqui em São Paulo quer tornar nossa quarentena insuportável. 

Mas, falando sério, esse dinheiro deveria ser todo ele destinado para a saúde. Um absurdo e um reflexo da absoluta estupidez auto referente por que passam nossos políticos. 

Me deparo, contra a minha vontade, com um tweet de João Amoedo. Ele fala sozinho, só pode. Porque aquilo não é comportamento de alguém em plena posse de suas faculdades mentais. Quando o mundo era saudável, ninguém dava bola pra ele. Agora então… Aliás, Amoedo possui, no máximo, primárias mentais. Parece aquele amiguinho chato, mimado, que você faz o possível para manter à distância e, que para se sentir importante, faz discursos heróicos aos seus soldadinhos de chumbo.

A seleção de 82 (que eu vi, mas me lembro muito pouco) também era incrível. Meu ranking de melhores seleções é: 58, 70, 62, 82, 2002, 94. 

Já assisti às últimas 10 temporadas do The Voice, Got Talent, X-Factor USA, Inglaterra, Holanda, França, Portugal, Espanha, Rússia, Finlândia, Uganda, Serra Leoa, Azerbaijão, Ucrânia, México, Equador, Chile, Argentina, Angola, Austrália, Dudinka e mais dois continentes a sua escolha. Choro em todos. Será que é efeito desse confinamento sem fim? 

Vou fazer uma seleção dos melhores, dos piores, dos mais feios, mais bonitos, dos barítonos, tenores, contraltos, sopranos, dos que têm pele seca, oleosa… Tudo vai indo muito bem nessa quarentena. 

Comecei esse confinamento lendo Thomas Mann, Cioran e Chesterton. Tenho certeza que vou terminar lendo Içami Tiba e Augusto Cury. 

Já contei 37 casas e 81 prédios até onde meu horizonte alcança.

Tá na hora de levantar agora.

 

Mais uma playlist fresquinha para curtir a quarentena e aliviar os pulmões.

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Carlos de Freitas

Carlos de Freitas é o pseudônimo de Carlos de Freitas, redator e escritor (embora nunca tenha publicado uma oração coordenada assindética conclusiva). Diretor do núcleo de projetos culturais da Panela Produtora e editor do Senso Incomum. Cutuca as pessoas pelas costas e depois finge que não foi ele. Contraiu malária numa viagem que fez aos Alpes Suiços. Não fuma. Twitter: @CFreitasR

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