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Sei lá, entende?

Eduardo Giannetti da Fonseca diz que, para reduzir a direita a pó, as mortes do corona não são de todo ruim

O sr. Giannetti cria a figura do extremo-liberal e sai na frente na disputa do prêmio Mao Tse Tung de Prudência & Sofisticação

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Homens da catadura do sr. Eduardo Giannetti da Fonseca não se fazem mais. É uma pena. Em sua entrevista à Folha, sereno, refinado, amável como só um liberal brasileiro consegue ser, o sr. Giannetti traça uma análise da atual conjuntura nebulosamente clara ou claramente nebulosa, nunca se sabe. 

Em tempo de pandemia, nada melhor que alguém que já perdeu toda a vontade de viver para nos trazer uma mensagem de luz e graça. Vamos às impressões.

A repórter que assina a entrevista já começa a desenvolver sua ficção ao dizer que Giannetti é um dos intelectuais mais respeitados do país. Ela confunde Marina Silva e seu habitat com o país todo, mas vamos lá. O papel da Folha é angariar cabeças, mesmo que elas não sejam lá muito brilhantes, para falar mal do governo. 

O Mentor intelectual de Marina, o que já deveria servir como repelente a qualquer pessoa que saiba conjugar mais de 5 verbos, “diz que houve uma perda, possivelmente irreparável, de capital político (de Bolsonaro) pelo equívoco cometido diante da crise atual”. 

Giannetti ignora, possivelmente de propósito, todos os esforços feitos pelo governo para conter a crise. O ministro Mandetta tem se desdobrado para controlar os alarmismos e reduzir as mortes buscando uma ação coordenada com os estados, mas isso não importa muito.

Importa causar alarde, dizendo que a população vulnerável do Brasil é muito maior que a de países ricos e que os efeitos econômicos serão mais acentuados aqui.

E arremata, salivando: “Se essa crise tiver como efeito colateral a corrosão, a destruição, a redução a pó dessa direita populista, ela não terá sido totalmente perdida. Lideranças desse tipo colocam em risco a humanidade.”

É claro que, para Giannetti, o que importa é a destruição total de seus adversários ideológicos. Já vimos algo semelhante na recente história do mundo, não? Mesmo que o custo seja a bancarrota do país e a morte de pessoas. As semelhanças crescem ainda mais.

Numa cara de pau das mais notáveis, o sr. Giannetti diz que a polarização raivosa ajuda a aumentar a imprevisibilidade em tempos de pandemia. Reduzir a pó os adversários, longe de ser um desejo raivoso, é a síntese da moderação dos nossos liberais.

Tudo o que Giannetti da Fonseca tem de fraqueza física e moral ele tenta substituir por uma falsa firmeza intelectual. Fraqueza essa visível em seu DNA. Giannetti é pai de Joel Pinheiro da Fonseca, o cara que comparou um estuprador assassino de crianças a Jesus Cristo. Tipos tais, como Bob Pai Bob filho, ainda terem espaço na mídia revela o quanto a nossa inteligência foi, essa sim, reduzida a pó.

Nesse momento de crise, onde o Estado adquire um papel mais centralizador na condução da economia, o sr. Giannetti deve sentir profunda inveja de não ser ele quem comanda o tesouro brasileiro. A sanha pelo Estado inflado e graúdo deve deixar Dudu em polvorosa. Um liberal de Marina Silva não pode querer tanto assim que o mercado regule as relações de negócios.

Giannetti, possivelmente, está querendo se vingar das inúmeras vezes que deve ter sido arremessado na lixeira quando era um molecote cheio de sonhos tão mesquinhos. Até aí, perdoável. Mas o que salta aos olhos é alguém dar a isso alguma atenção. 

Mas estamos falando da Folha de S. Paulo, o veículo que criou a maior Fake News na campanha presidencial de 2018. Fake News desmentida em plena CPMI das Fake News que foi criada para provar que Bolsonaro se elegeu com Fake News por mensagens de WhatsApp, mas que revelou que quem disparava as Fake News era o PT. A linguagem truncada e mal colocada é uma homenagem ao jornalismo profissional.

Mas voltemos aos Pinheiro e Giannetti da Fonseca.

Há que se louvar os esforços da família Fonseca para, dos caros restaurantes da Alameda Lorena e dos botecos descolados da Vila Madalena, defender a prudência e a sofisticação contra o mundo conservador representado pela direita “populista”. Mesmo que seu estímulo para isso seja o modelo stalinista de varrer seus adversários do mapa. Nada como a elegância genocida de um liberal brasileiro.

É salutar também ressaltar que, tal como no seu livro Auto-Engano, o Sr. Giannetti viva se autoenganando. Sem apresentar nenhuma prova, o nosso liberal com soja diz que Trump tem um projeto de se perpetuar no poder (sic). Na sua análise brilhantérrima, ele cita até o bombardeio americano que matou um dos principais líderes terroristas do mundo como prova do “projeto de poder perpétuo” de Trump.

“Se a economia continuar indo bem, eu me reelejo. Então, não vou tomar as medidas necessárias para conter a expansão da epidemia que vão prejudicar a economia, porque isso mina a minha condição de reeleição.” 

Quando a História do Grotesco Nacional for escrita, tenho certeza que essa frase do Sr. Giannetti deve entrar como uma das cinco mais espantosas da nossa longa estupidez.

A linha de raciocínio, típica dos nossos liberais, lembra a garatuja de uma criança de quatro anos, no máximo. Eu vou deixar meio mundo morrer porque a economia não vai se importar com isso e assim eu me reelejo eternamente. Genial!

O sr. Giannetti sente em conversas e panelaço (só se for no seu bairro chique) que a insatisfação é crescente. Lendo a Folha e os tuítes da Vera Magalhães é possível que a sensação seja essa mesma, e o sr. Giannetti careça de outros instrumentos cognitivos para captar a realidade que ele diz não tolerar desaforos.

A entrevista é um longo lamento por parte do nosso liberal de almofadinha em volta do pescoço. São tipos como o sr. Giannetti, intelectual dos mais nulos, que dominam o debate feito nas cafeterias gourmets do país; liberais que mantém um ar de garbo por fora enquanto cobiçam as cabeças dos adversários. 

Parafraseando o mestre Cartola, pode-se dizer que o mundo é um moinho, que ele vai triturar teus sonhos tão mesquinhos e vai reduzir tuas ilusões a pó, Eduardo.

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Carlos de Freitas

Carlos de Freitas é o pseudônimo de Carlos de Freitas, redator e escritor (embora nunca tenha publicado uma oração coordenada assindética conclusiva). Diretor do núcleo de projetos culturais da Panela Produtora e editor do Senso Incomum. Cutuca as pessoas pelas costas e depois finge que não foi ele. Contraiu malária numa viagem que fez aos Alpes Suiços. Não fuma. Twitter: @CFreitasR

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