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Crônicas da Hérnia

Como se desce por um escorregador

O que Yeats, Costinha e um clássico entre Corinthians e São Paulo tem em comum? E com direito a uma revelação bombástica: a diferença entre um gato e o papel-higiênico

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capacronic

A idéia desta crônica me veio depois que li um texto do Alexandre Soares Silva. “Suburbanadas” é o título e está no livro A Humanidade é uma Gorda Dançando em um Banquinho. Acho que foi Platão quem disse que esse encontro silencioso de almas que não se conhecem é a grande beleza da vida. Pensando bem, acho que essa frase tem mais a cara da Xuxa Meneguel. Deve ter escrito isso num dos momentos de angústia, untada de purpurina, nos bastidores das gravações do Clube da Criança. 

 Narrarei o acontecido:

O caso deu-se nesta madrugada. Eu lia uma edição bilíngue dos poemas de Yeats e resolvi buscar no YouTube algumas leituras feitas com aquele belo sotaque britânico. Escutava tentando repetir aqueles sons tão melódicos, com as vogais abertas para o mundo, como se o abraçassem; as consoantes como um cutelo. O sotaque britânico, sobretudo o escocês de Glasgow (mentira! Não sei diferenciar o sotaque de um inglês nascido em Denver de um nascido na Rua Aurora), consegue conferir charme ao mais Gregório Duvivier dos seres reais. Se o ornitorrinco grasnasse (não achei o nome do som correspondente do ornitorrinco, talvez ele seja mudo) em inglês seria a mais bela das criaturas e não esse híbrido esquisito, uma espécie de Tammy Gretchen do reino animal. 

Mas aí as coisas se complicaram, já que aquelas malditas telinhas laterais ficam nos sugerindo vídeos com base no nosso histórico e, de repente, não mais que de repente, enquanto escutava The Rose Of The World, quase no fim do último verso “Before her wandering feet”, cliquei no vídeo As Proibidas do Costinha. São 46 minutos da mais absoluta falta de retidão e método. Troquei a suavidade dos versos de um dos maiores poetas do mundo para escutar coisas como: “A senhora lavou bem esta bunda?”. Ao invés de velejar para Bizâncio preferi descobrir coisas mais elevadas como qual a diferença entre o gato e o papel-higiênico¹.

Depois desse requinte todo, de ouvir “The Lake Isle of Innisfree” e sobre o pintor nu que pendurava o balde no jaramalho entumescido, a densa gravidade do vídeo Corinthians 2 x 2 São Paulo – 26 / 06 / 1988 ( Quadrangular Final Paulista ) imprimiu uma força descomunal no meu dedo fura-bolo fazendo-o clicar no dito vídeo e lá estava eu na atmosfera dos anos 80, num Pacaembu mais maltratado que muito campo de várzea de hoje, os uniformes dos jogadores mais justos que os das dançarinas do Faustão, acompanhando lance a lance daquele Majestoso cheio de furadas e lances bizarros.

Meus heróis estavam em campo: Biro-biro e Wilson Mano. Aquele Corinthians foi um dos grandes exemplos do futebol força. Biro era um gênio do jogo sujo, do carrinho, da bicuda pra qualquer lado, do gol feio. Tínhamos Tupãzinho, que com sua vasta cabeleira inspirou o mundo sertanejo. Fez a cabeça de toda uma geração. E Wilson Mano, claro! O coringa. Os cabeças-de-bagre do Brasil profundo suspiravam ao ver suas furadas. Uma furada do Mano valia mais que um gol de placa. Os craques o caçavam com seus dribles elásticos e canetas, mas Wilson Mano, sempre elegante, esnobava as provocações quebrando uma tíbia aqui, um perônio acolá. A história há de fazer justiça. Queremos mais Manos e Biros, não Neymares.

O jogo então! Imagem ruim, narrador estridente, aquele falatório pincelado ao fundo pelos urros das torcidas. 2 a 2. O São Paulo conseguiu tomar um gol de contra-ataque aos 46 do segundo tempo quando vencia o jogo. Que maravilha! Fiquei sabendo que o grande Dulcídio Wanderley Boschilia, quando não estava expulsando alguém de campo, pintava quadros. Li em algum lugar que Picasso, quando não estava pintando quadros, apitava jogos de futebol. Que época!

Foi essa a minha madrugada. Do êxtase espiritual à jocosidade animal em 3 vídeos. Mordi a traiçoeira maçã moderna da distração. E ainda lambi os lábios. O que me falta agora? Um debate na CNN? Aí seria o pouso definitivo no último círculo do inferno. Não se pode trair a si impunemente. Quem disse isso? Dante Alighieri ou Nair Belo? 

Não sei se estou certo disso, mas acho que os acontecimentos desta fria madrugada resumem bem minha vida: do ímpeto genuíno de uma transcendência para a carinhosa realização de uma nulidade.

¹ Na anedota em questão, o autor buscou uma maneira incomum de diferenciar o gato do papel-higiênico, qual seja, passando ambos no reto, restando ao gato o dever de arranhar-nos as pregas.


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Carlos de Freitas

Carlos de Freitas é o pseudônimo de Carlos de Freitas, redator e escritor (embora nunca tenha publicado uma oração coordenada assindética conclusiva). Diretor do núcleo de projetos culturais da Panela Produtora e editor do Senso Incomum. Cutuca as pessoas pelas costas e depois finge que não foi ele. Contraiu malária numa viagem que fez aos Alpes Suiços. Não fuma. Twitter: @CFreitasR

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