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Trump ainda pode ganhar – mas não estamos mais em 2016

Pesquisas já começam a mostrar um cenário menos otimista para Joe Biden – mas a "surpresa" total e vitória avassaladora de Trump em 2016 não tende a se repetir

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Lendo a grande mídia, a eleição de Donald Trump à presidência americana em 2016 é sempre acompanhada do adjetivo “surpreendente”. Se a mídia não fosse tão auto-referente, e os jornalistas não passassem 20 horas por dia lendo outros jornalistas, saberiam que a única classe que de fato se surpreendeu com a eleição de Trump foram os próprios jornalistas, além de, talvez, alguns poucos sobreviventes ainda crentes no jornalismo.

Trump liderou na maior parte do tempo (e com amplíssima margem) as primárias americanas. Barack Obama, que hoje é conhecido apenas por historiadores especialistas que conhecem personalidades obscuras e esquecidas da história americana, amargava uma rejeição crescente, com o falhanço absurdo do Obamacare, de escândalos com o Imposto de Renda e espionagem pesada, além da agenda identitária, preocupada com questões metafísicas como “transfobia“ ou “racismo sistemático”, além de feminismo e multiculturalismo. Para quem não se lembra, como 99% da humanidade, este tal Obama, na época, era presidente americano.

Incensado pela mídia, mas tão esquecido pela população que ninguém mais se lembra direito do que fez em 8 anos, Obama fez com que Vladimir Putin fosse considerado o homem mais poderoso do mundo por quase todo o tempo de sua gestão. 

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Além de enfraquecida, a América tinha outro desafio contra Putin: o Estado Islâmico, que matava ocidentais quase semanalmente de maneiras horrendas. Sua Secretária de Estado, Hillary Clinton, tinha uma idéia que poderia colocar o mundo numa rota direta para uma Terceira Guerra Mundial em poucos meses: criar uma “zona de exclusão aérea” na Síria, tentando derrubar o ditador Bashar al-Assad enquanto lutava contra o Estado Islâmico.

Tal, digamos, “idéia” fez com que tropas americanas e do Estado Islâmico lutassem do mesmo lado contra Assad, além de “sugerir”, digamos, que um avião russo na Síria deveria ser abatido (Assad é apoiado por Putin). Nem na Guerra Fria tentou-se derrubar um MiG. Já Hillary, a Clinton, falava tal asneira a sério em debates, sendo ainda aplaudida por jornalistas sem nenhuma noção de causa e conseqüência no mundo real. 

Pouca semanas antes da eleição, Putin mobilizou tropas e até mesmo um porta-aviões em direção à Europa. Think tanks russófilos, como o Katehon (do alto escalão do Kremlin), já falavam abertamente em uma Terceira Guerra Mundial. Americanos, que se preocupam mais em ouvir os militares da família do que as conversas vespertinas de dondocas de Manhattan sobre o percentual de âncoras de jornal portadoras de vaginas, votaram em massa em Donald Trump. Não seriam os correspondentes da Globo News que iriam para o front.

A mídia inventou o termo “fake news” para justificar por que errou tanto em 2016

O que ninguém na classe falante parece ter aprendido em 2016 é que sua narrativa não fazia sentido para quem acorda 6 da manhã para pegar ônibus ou metrô e ir pro trabalho. E nem a narrativa da direita, fosse o empolamento de Ted Cruz, fosse o neoconservadorismo de Jeb Bush, fosse uma espécie de “vingança histórica” (um obamismo às avessas) de Marco Rubio. 

Trump saiu vencedor em 41 estados nas primárias. Estava à frente o tempo todo. Apenas a mídia martelava roboticamente que logo Trump seria derrotado. Sem apresentar nenhuma razão para isso, além do seu próprio desejo. Depois, se “surpreendeu” com a vitória.

No Colégio Eleitoral, que é o que garante liberdade apesar do voto popular na América, que é uma república, e não uma democracia, Trump venceu Hillary por 30 a 20. 

O adjetivo “surpreendente” começou sua escalada ao estrelato. Como, afinal, jornalistas poderiam estar errados? Mais do que isso, errados em uníssono, orquestradamente errados, errados monocordicamente, errados sem exceção, errados sem margem para o acerto – logo os jornalistas, que são arautos da ciência, da moral, da ética, do certo, do belo, do justo, aqueles sacerdotes que guiam o povo para a verdade, poderiam errar? O mundo erra. A verdade erra. Deus erra. Não jornalistas.

Após duas semanas, criaram o termo “fake news” precisamente para justificar seu falhanço miserável: se as pessoas não acreditaram nos jornalistas – e, afinal, não votaram em quem eles queriam – só poderia ser porque acreditavam em supostas “fake news” nunca apresentadas, “acreditando” em outras fontes que não a grande mídia (história que conto em detalhes no livro Inquérito do fim do mundo).

Havia se criado um termo para instaurar a censura no país fundado na impossibilidade de censura: ou havia a mídia “oficial”, ou sites que eram “fake news” e, assim, deveriam ser censurados em mecanismos de pesquisas e redes sociais (aquelas que definiram a eleição, muito mais do que a TV ou jornais impressos). Não fosse Donald Trump usar o mesmo termo contra Jim Acosta, da CNN (no famoso “you are fake news!”), equalizando o termo para todos, o mundo hoje viveria uma situação de censura quase chinesa.

O que a invenção do conceito de fake news ignora mais terrivelmente é que não foi apenas Trump que foi eleito (e, afinal, eleito por delegados no Colégio Eleitoral, um voto muito mais técnico, difícil de ser manipulado por “agentes russos” ou modismos de última hora): o Partido Republicano inteiro teve a maior vitória em 87 anos. Desde o 71.º Congresso de 1929-1931 que os Republicanos não tinham controle sobre o Senado e a Câmara ao mesmo tempo. Isto depois de Trump liderar desde o começo todas as intenções de voto e todos os rallies Republicanos. Em outras palavras, não foi apenas Trump que foi eleito: foi a maior rejeição aos Democratas, após 8 anos de Obama, em praticamente um século.

Hoje, “fake news” é um termo repetido com o mesmo tom de quem acusa o alvo de “nazista”. Leis são feitas para punir supostas fake news, ignorando o horror do mundo de 1984, de George Orwell, a torto e a direito. Tudo para, oh, ironia, esconder que Trump ganhou de lavada, segundo expressão feliz de Scott Adams, que também cravou a vitória de Trump desde o começo. Numa landslide – com Câmara, Senado e um número altíssimo de votação até entre eleitores não-freqüentes (a América, afinal, não tem voto obrigatório, nem mesmo um feriado no dia de votação).

Mas o mundo mudou muito nestes poucos 4 anos. Sobretudo em 2020.

Nem esquerda e nem direita conseguirão reproduzir 2016

2016 foi o ano da “tempestade perfeita”, portanto: todos os elementos possíveis para uma vitória acachapante de Donald Trump contra uma candidata fraca, envolvida em histórias pouco gratificantes com seus e-mails (ok, essa parte da história pode se repetir) e em negociatas bilionárias com magnatas do petróleo de ditaduras que eram antigos satélites soviéticos (ok, essa parte também pode se repetir). Mas os outros elementos são mais complicados.

Da parte da esquerda, foi fácil pintar Trump como Hitler, ou como Lúcifer. As pessoas falavam e acreditavam mesmo que o homem laranja praticamente iria transformar a América em uma teocracia violenta para matar muçulmanos (foi o presidente, entre Republicanos e Democratas, que menos quis se envolver em guerras em países islâmicos), escravizar mulheres, expulsar latinos (uma parte importantíssima do seu eleitorado, já que são mais rígidos com questões como aborto e criminalidade) e enforcar gays (essa vem só de brinde com o vezo moderninho em falar “racista-machista-homofóbico”, tudo junto: Trump nunca teve nada em seu histórico de celebridade conturbada contra gays). Basta lembrar de Monalisa Perrone, ao vivo na Globo, perguntando a sério, se a vitória de Trump foi saudada com “mantras de Donald Trump”, como “odiamos muçulmanos, odiamos negros… nojentos”.

O problema para 2020 é simples: como repetir que 4 anos de gestão Trump transformarão a América em um “Quarto Reich”, se já tivemos 4 anos de gestão Trump e o país continua inteirinho? O desemprego entre negros nunca esteve tão baixo (analistas tentavam menosprezar Trump, afirmando que “jobs, jobs, jobs” era sua única plataforma econômica). Sua aprovação entre mulheres subiu. Sua geopolítica transformou o Estado Islâmico (que iria trazer o apocalipse) em um califado sem califa, resolvendo problemas internos e disputando territórios com outros jihadistas, além de isolar o regime atômico iraniano e selar a paz entre estados árabes e Israel. Fora a própria Coréia do Norte se entendendo com a Coréia do Sul (Trump, o mão-de-vaca, detesta guerras, não por ser humanitário e fofinho, mas por guerras serem caras; é exatamente como nós).

Como, então, a esquerda pode tentar ser arauta do apocalipse e afirmar que Trump seria o pior presidente americano? Claro que esquerdistas ainda acreditam nisso. Mas são apenas eles próprios. E a realidade mostra um mundo mais seguro e uma América mais forte (exatamente o slogan de Trump), com até a Rússia de Putin deixando de ser protagonista do xadrez geopolítico. Tal narrativa não ganha votos, ou ao menos não ganha mais votos do que já ganhou.

Alguém aí sabe alguma proposta de Joe Biden? Além de “sou o cara da esquerda, e não o Trump”? Nem eu. Até as propostas desastrosas de Hillary Clinton eram, afinal, propostas.

A esperança para a esquerda não é que a demonização pegue, mas sim que mova, um passo mais difícil, porém não impossível: não tendo voto obrigatório, a campanha americana é focada em fazer o próprio eleitorado tirar a bunda da cadeira e ir votar. Algo bem mais difícil do que concordar, mas o turnout, o comparecimento às urnas, parece bater recordes, tal como em 2016 – porém, desta feita, em estados com tendências Democratas.

Talvez seja uma lição que a esquerda tenha aprendido após o desastre absoluto da campanha de Hillary, que não ia tanto aos swing states, preferindo o conforto de conversas de dondocas que concordam entre si em redutos eleitorais progressistas como Nova York.

Já para Trump e os Republicanos, as notícias tampouco são airosas: após ganhar de lavada em 2016, o segundo maior termômetro eleitoral, as midterm elections, eleições gerais no meio dos mandatos presidenciais, tiraram um poder imenso dos Republicanos, que perderam a maioria na Câmara e começaram a ter derrota atrás de derrota no Legislativo (até um pedido de impeachment de Trump aceito na primeira casa). Em termos mais claros: um desastre.

Adicione-se uma peste chinesa, Trump pegando Covid-19, um clima de “já ganhou” que em nada ajuda, uma crise econômica, política e internacional sem precedentes, o risco enorme de fraude eleitoral, uma votação massiva por correios em estados anti-Trump e, sobretudo, um desejo de muitas mudanças pelos americanos, que pode ou não se consubstanciar em votos Democratas: a situação Republicana como um todo é ruim (e Trump não teria 2 anos de apoio massivo no Legislativo, parecendo-se mais com os últimos 2 anos de governo travado) e as chances reais de Biden não podem ser desprezadas.

Mesmo assim, Trump ainda pode ganhar com uma vitória apertada, ainda mais com, desta vez, algumas pesquisas respeitáveis, que se aproximaram mais do acerto em 2016, apontando seu favoritismo. Mesmo um cenário hiper-otimista, com até 311 votos no Colégio Eleitoral não é irreal. Entretanto, o clima de “tempestade perfeita” já inexiste. Estados como Florida e Pennsylvania são verdadeiras incógnitas. E em um país sem voto obrigatório, o turnout pode significar tanto uma vitória gigantesca como uma derrota terrível com as mesmas pesquisas, ainda mais com a peste chinesa. Nenhum otimismo é mais verdadeiro, a quitanda já está aberta e nunca foi tão difícil prever uma pesquisa na América quanto em 2020.

Em números: as pesquisas estão sempre erradas

O conceito-chave para entender por que as pesquisas, sobretudo americanas, erram tanto, é tratá-las não como um substantivo, mas como um verbo: polling. Sobretudo na América, fazer uma pesquisa, ou conjecturar o resultado de uma eleição (polling), é algo realizado por entes com extremos interesses. Nada diferente do Brasil de Datafolha, Ibope, Vox Populi etc – as pesquisas que mais acertaram as eleições aqui foram as de institutos de pesquisa locais, como o Paraná Pesquisas.

Algumas pesquisas americanas são feitas com uma amostragem tão pequena quanto 500 adultos (!), num país com 333 milhões de habitantes, nos quais muitos estrangeiros podem votar, e as regras de voto variam absurdamente entre os 50 estados – alguns aceitam votos pelo Correio, votos antecipados, votos posteriores, a contagem de delegados não tem nem sequer equivalência perfeita de estado para estado etc.

O cenário é perfeito para pesquisas errarem ainda mais do que no Brasil: grandes analistas, que cobram fortunas por previsões, erram de maneira cabeluda, mantendo sua reputação curiosamente intacta (um erro que Nassim Nicholas Taleb aponta tanto no livro Antifrágil).

Neste sentido, as pesquisas brasileiras têm uma vantagem: ainda que prospectem entre 2 mil pessoas para um cenário de 208,5 milhões de pessoas, uma pesquisa entre adultos em idade de voto num país com voto obrigatório tem uma chance maior de refletir o resultado eleitoral. Uma pesquisa feita num país com voto facultativo tende mais a refletir uma preferência geral da população, sem averiguar mobilização: não verifica se a pessoa é politizada o suficiente para ir votar, defensora o suficiente de tal candidato, preocupada demais com o país, crente em uma grande vitória ou preocupada com o outro candidato e assim por diante.

Como uma pesquisa, muitas vezes feita por telefone, poderia refletir com muita precisão o resultado de fato das urnas? Pesquisas realizadas (polling como verbo) são um reflexo de pessoas que querem ser pesquisadas. O americano, que vive a vida absurdamente mais distante da política do que o brasileiro falando do STF o dia inteiro, pode até responder uma enquete online, mas qual irá se mobilizar para votar, como perguntou o próprio New York Times?

Para piorar, uma das maiores frações do eleitorado americano é justamente a mais difícil de ser alcançada quando se faz pesquisas (quando se “polling“): homens sem educação superior, entre 30-49 anos. Imagine uma pesquisa tendo maior déficit exatamente neste nicho – exatamente onde Trump é mais popular, e Biden, ou toda a esquerda, menos representativo. Para agravar a situação para Biden, justamente este eleitorado teve a maior parte dos seus problemas resolvidos na gestão Trump, e cada vez mais pessoas com educação superior tendem a aprovar Trump.

Aqui cabe uma análise antropológica: René Girard, que conseguiu explicar o cristianismo de maneira acadêmica e moderna com exímia maestria, fala do desejo mimético: desejamos aquilo que outras pessoas desejam (por isso pessoas “belíssimas” de outras épocas nos parecem tão feias). Se pesquisas eleitorais são feitas por conglomerados de mídia (como Datafolha ou Vox Populi no Brasil), ou mesmo entidades partidárias, é natural que apontem sempre o candidato de sua própria preferência na frente.

O Datafolha no Brasil, por exemplo, sempre mostra os petistas na linha superior da margem de erro, e os concorrentes na linha inferior. Um jeito fácil de “acertar”, manipulando a um só tempo. Tal se dá porque as pessoas querem votar em vencedores – a um só tempo, isto “desanima” os eleitores de candidatos na rabeira.

Por isso, pesquisas internas de partidos sempre mostram o próprio candidato à frente (dá-se um ânimo, e justifica-se o preço da pesquisa). Não adianta mostrar o próprio candidato precisando de votos, e sim já “vencendo”: só assim não se adota uma postura derrotista, e toda vitória se deu com eleitores felizes e esperançosos, e não pedintes desesperados.

As grandes pesquisas na América são realizadas, em sua imensa maioria, por institutos ligados aos Democratas ou justamente à ala mais establishment do Partido Republicano – e tendem sempre a tentar mostrar Trump abaixo da realidade. Quem paga pela pesquisa já quer certo resultado, e o resultado não é “científico” ou puramente matemático: o número apresentado quer criar uma mobilização. É o que Folha, Estadão, Huffington Post, El País e Antagonista são incapazes de entender, por não serem cultos e só lerem jornalismo, e não filosofia e ciências sérias.

Quando uma pesquisa não pergunta como um eleitor irá votar, o resultado se mostra magicamente diferente: 56% dos pesquisados pela Gallup afirmaram que estavam numa situação melhor do que estavam há quatro anos. Trump pode ser um boquirroto, mas também chama atenção o que a mídia, para variar, não mostra: que o americano se sente melhor na Trumpland do que na Obamaland (quem lembra quem é Obama em 2020?). 56% também acreditam numa nova vitória de Trump. De fato, o eleitorado pode não gostar de Trump como pessoa, mas gosta e vive bem com suas políticas (quantas vezes você viu a mídia comentar isso?).

Além disso, o voto facultativo também favorece que pessoas que não se considerem muito aguerridas e nem muito bem informadas sobre a situação política tendem a deixar a votação para os outros. Assim, ao invés de uma avaliação geral de cenários, o único fator numérico que é relevante está nos extremos: aprovação extrema ou desaprovação extrema, sobretudo contra candidatos igualmente fortes (Obama enfrentou candidatos fraquíssimos, tal como George W. Bush).

Neste cenário, os números de aprovação de Trump, mesmo bombardeado pela mídia, estão subindo – um pouco menores do patamar nos quais estavam Obama e Bush quando foram reeleitos, mas não muito menores.

Uma forma de análise que tenta contornar esta dificuldade seria observar a mobilização, que mais se “sente” do que se mede. Os debates americanos são feitos, justamente, para mobilizar o próprio eleitorado (por isso soam tão chatos para nós, já que “pregam para convertidos”). Assim se entende fenômenos como a Revolução Reagan ou o primeiro mandato Obama, enquanto Bush (os dois), Clinton e o segundo mandato Obama representam mais uma rejeição ao outro candidato.

Trump mobilizou sobretudo o eleitorado menos politizado, focando sua atuação nos swing states mais ignorados economicamente na América, como o rust belt, o cinturão da ferrugem, onde está boa parte da produção da indústria pesada americana, com a working class, a classe trabalhadora (em sentido mais tradicional) sendo ignorada por políticos em lugares como Indiana, Ohio, Illinois ou Pennsylvania (curiosamente, o que a esquerda faz em eleições municipais no Brasil, lembrando de 4 em 4 anos que a periferia existe). Tal história é muito bem contada no livro Era Uma Vez Um Sonho, de J. D. Vance. O único esquerdista que acertou que Trump era favorito desde o começo foi Michael Moore, que fez sua vida em Michigan, também do cinturão da ferrugem.

Como Bush foi pintado como Hitler, e Trump praticamente como Lúcifer, ou um pouco pior (Satanás anda com popularidade alta na grande mídia e no Partido Democrata), 62% dos americanos dizem não querer revelar suas preferências políticas, como efeito da extrema polarização e demonização pública de conservadores. Curiosamente, pessoas de extrema esquerda se sentem cada vez mais confortáveis para explicitar seu radicalismo (tratado até como “defesa dos direitos humanos” pela mídia). Pesquisas, justamente por serem peças de propaganda, e não ciência, criaram elas próprias um vácuo negro que não conseguem enxergar.

O National Council on Public Polls elencou 20 questões que um jornalista deveria levantar sobre pesquisas, e todas são sumariamente ignoradas (ainda mais no distante Brasil) quando jornalistas noticiam seus resultados, simplesmente dando destaque para uma já vitoriosa campanha Democrata, e ignorando qualquer resultado pró-Trump.

Ou seja: nenhuma eleição foi e será tão misteriosa quanto a de 2020, que vai simplesmente decidir se o Ocidente continua existindo, ou se vamos virar um protetorado do Partido Comunista Chinês (nós todos, não só os americanos). Joe Biden definitivamente fez alguns ganhos modestos após o penúltimo debate e o diagnóstico de Covid-19 de Trump abalou um símbolo e um discurso – porém, o Republicano, mais uma vez, tem sua força justamente onde as pesquisas não podem ver.

Há questões em aberto a serem definidas hoje. A situação é absurdamente incerta em estados como Pennsylvania (a fiel da balança para Trump em 2016, como acertou em cheio nosso Filipe G. Martins, que fez a melhor análise do planeta, acertando 48 de 50 estados) e Florida, o swing state mais dividido, e do qual Trump tanto depende. Todo o otimismo em relação a Trump em 2016 se foi, e a chance de o homem laranja perder não é desprezível, transformando o Ocidente em um puxadinho do Partido Comunista Chinês (“liberal” a la Doria). A situação é também confusa no Michigan, Wisconsin e Arizona, com derrotas praticamente certas em Maryland, ainda que com vitória provável em North Carolina e Georgia.

Há até uma possibilidade remota de Trump chegar até mesmo a vencer no voto popular, como não fez em 2016, mas isso dependeria de um turnout gigante, talvez pelo medo americano do Partido Comunista Chinês. Mas isso num extremo improvável. Novamente, as chances de perda de Trump não são desprezíveis, tornando quase impossível um prospecto peremptório. 2020 é um novo ano. Infelizmente.


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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record).

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