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A culpa nunca é do inocente

Caso Bianca: A culpa não é “dos homens”, é do traficante

A hashtag “Parem de nos matar” culpa até o “patriarcado” pela morte de Bianca Lourenço. Ninguém comenta que o assassino também é traficante

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Uma jovem de 24 anos, Bianca Lourenço, estava desaparecida na Penha, bairro do Rio. Mesmo o pai da moça já admitia o provável desfecho do caso e foi conversar com seu ex-namorado, que negou qualquer crime. Mas o pior aconteceu: seu corpo foi encontrado totalmente mutilado, boiando na Baía de Guanabara. Deus a receba em sua infinita misericórdia.

Todos estavam comentando sobre Bianca nas redes. Pedindo justiça, o que hoje costuma-se vociferar muito mais como narrativa para alguma agitação política do que se pensando em verdadeira justiça – com ética, estudo de causa e consequência.

O bordão criado para ser repetido roboticamente foi “Parem de nos matar”. A quem é dirigida tal imprecação? A assassinos? Seria alguma campanha por prisões mais rígidas, Código Penal pega-pra-capar, fim das saidinhas e audiências de custódia? Nada se viu a respeito. Pelo contrário, culpava-se “homens”. Um tal “patriarcado” (que é quase o oposto dos papéis sociais existentes no mundo moderno).

https://twitter.com/_strangermy/status/1349191255754989573

Procurando-se saber a história que culminou em um crime tão bárbaro, que lembra até mesmo o assassinato de Liana Friedenbach (na época, relativizado por Marilene Felinto, da Caros Amigos, e Túlio Vianna, professor de Direito Penal da UFMG), descobrimos algo que não está em quase nenhuma manchete sobre o caso.

Bianca era ex-namorada do chefe do tráfico na favela Kelsons. Eu, você, a feminista “Marielle Vive”, o Max Horkheimer, até o chefão do tráfico na Rocinha – ele mais do que todos nós – sabemos que isto não é um mero detalhe insignificante.

Por que falar de “feminicídio”, “Bianca morreu por ser mulher” e “Parem de nos matar” se o caso é violentíssimo, de extrema lamentação – e de gerar revolta indignante – mas também, infelizmente, bastante óbvio? Por que esconder que o assassino é um traficante, até mesmo em postagens exibindo seu rosto e exigindo “justiça” (esperamos que, pelo menos desta vez, estejam cogitando exigir cadeia sem mordomia)?

O pior é que uma explicação, criada justamente por tipinhos como Max Horkheimer, Michel Foucault, Simone de Beauvoir, Paul de Man e outros “filósofos” de quinta categoria tratados como semi-deuses em faculdades. Discordar desta patota em um curso superior é tratado como algo bem pior do que jogar água benta num terreiro.

Para nós, pessoas normais, a realidade é apreensível por si. Existe bem e mal. Matar é mal. Outras coisas fazem parte da categoria “mal”, e são todas aparentadas entre si. Alguém que mente compulsivamente para se favorecer às custas dos outros pode roubar. Quem rouba pode matar. Assim por diante. São dados da vida – mesmo da natureza.

O tráfico de drogas é o enriquecimento pela exploração de viciados, ao custo da dor de famílias inteiras. O tráfico é gêmeo heterozigoto da exploração da prostituição. Quem não gosta de gente espancada, quem não gosta de violência doméstica, quem não gosta de quem passa a perna até nos amigos e família por alguns segundos de prazer, quem não gosta de ganhar dinheiro explorando a dignidade e o corpo de mulheres mais fracas é contra o tráfico de drogas. Ponto.

Chega a ser ridículo ter de explicar uma obviedade destas. Grandes tratados de Direito – da época em que a disciplina se preocupava com conceitos reacionários e de extrema direita obscurantista como “o bem” e “o justo” – nem se dão ao trabalho de explicar tal evidência, pois qualquer um a presumia antes de abrir o livro.

Aí veio a onda do feminismo. Da esquerda identitária. Da revolução sexual de Reich. Das críticas à estrutura de poder de um pedófilo ressentido como Michel Foucault. Da Escola de Frankfurt. Da “empoderada” Simone de Beauvoir, que arrumava amantes para seu marido Sartre e, em agradecimento, era espancada e viu o marido dar sua herança para uma de suas exploradas sexuais quaisquer.

Estes gênios não acreditam que a realidade – e a noção de bem e mal – é apreensível diretamente por nossas caixolas (ao menos para quem tem 2 neurônios). Crêem na esparrela de que grupos sociais encobrem uma “infraestrutura” do mundo material – é como “relêem” o estúpido Marx, que ao menos desprezava assassinos.

Para estes ideólogos cegos para a realidade, grupos rivais precisam tomar as estruturas de poder, mídia – mesmo de definição da verdade, como a Academia e a ciência. Cria-se a preocupação maior com “Quantas mulheres negras transexuais passaram na OAB” do que em punir criminosos.

Após anos sofrendo lavagem cerebral com propaganda, o jovem acredita que não existe bem e mal, e sim grupos de identidade disputando o poder. Não existe mais um ser humano que pratica o mal, e sim um grupo a ser culpado. Não há um crime, mas uma estrutura de poder que precisa ser destruída e substituída, via repetição de bordões de fácil digestão por celebridades. Ao invés de se estudar a Ética a Nicômaco de Aristóteles, repete-se os chavões de uma tal “Gabi Coelho”, que é da agência de controle de pensamento e censura “Estadão Verifica”, que já nos censurou usando opinião contra dados que apresentamos.

É desta superstição, que seria tratada como fantasia infantil há um século, que surge o novo objetivo do movimento revolucionário: não uma nova Revolução Bolchevique, de homens de caserna em coturnos (como Lenin, Fidel e mesmo Lula pareceriam “machistas tóxicos” hoje, não?), mas a luta de classes interna: negros contra brancos. Mulheres contra homens. Gays contra héteros (por isso, é necessário para eles que cada vez mais pessoas se tornem gays). Crentes no aquecimento global contra “negacionistas científicos”. Especialistas contra “obscurantistas”.

Todos os termos recentes repetidos pela Academia, pelas celebridades e pelo jornalismo (e como o vocabulário público anda repetitivo, reducionista, maçante e histérico, sempre parecido com propaganda sensacionalista!) são meios para este fim. De “fake news” e “patriarcado” a “feminicídio” e “desinformação” e, claro, “discurso de ódio” – sem falar em “diz leitor”, “sem apresentar provas”, “incitou violência” e assim por diante.

São termos criados ad hoc para se exigir um controle do pensamento tão absoluto que deixará o Big Brother do 1984 de George Orwell parecendo uma matinê.

Assim, não há bem e mal, e sim lutas de grupos, que só podem ser resolvidas, óbvio, com um poder global unificado – leis idênticas em todos os países. O objetivo não é resolver o caso da pobre Bianca, e sim culpar os homens (todos) e reconstruir a sociedade com base em “valores” como transexualismo e o fim da presunção de inocência. Todo totalitário tem um discurso sedutor.

Ao invés de se exigir uma punição para um criminoso, exige-se um controle sobre todos os homens. Porque Bianca não morreu por se envolver com alguém que usa a violência, o vício e o mal como forma de vida – Bianca morreu porque “é mulher”, e ninguém cita o assassino como um “traficante”, e sim como “um homem”, “um ex-namorado”.

Se qualquer pessoa atina em segundos que o roubo é parente do assassinato, os progressistas acham que um traficante matando uma mulher tem parentesco com… um homem que namora uma mulher. Com um casamento. Com uma relação de amor. Afinal, oh, horror, há um homem e uma mulher na mesma frase. Alguma violência certamente está ocorrendo.

Precisamos de uma política de controle falando-se em mulheres. E tome-se mais propaganda. Muito mais fácil repetir “sororidade, manas” a vida toda do que ler São Bernardo de Claraval analisando o mal e Hugo Grócio sistematizando o Direito Natural.

https://twitter.com/turbininha19/status/1349382121912205312

https://twitter.com/ZuleicaFarias1/status/1349348470038138880

https://twitter.com/bjsdabarbie/status/1349188984027688961

https://twitter.com/martaaraujo98/status/1349207807204196353

Relatos de indignação da campanha “Parem de nos matar” (“vocês” quem, cara-pálida?) falam de homens que tiram mulheres de festas puxando-as pelo cabelo. Não sabemos que tipo de festas essas meninas andam freqüentando. Falta, justamente, o tal “patriarcado” que tanto criticam: homens usando sua força para proteção das mulheres.

O Globo, Correio Braziliense, UOL, BOL, Yahoo, Extra, Metropoles, Globo Play e tantos outros não divulgaram em suas manchetes o “detalhe insignificante” de que a pobre Bianca se envolveu com um chefe do tráfico. Chefe este que mandou a jovem para outra favela antes de esquartejá-la, pois não poderia matar a jovem na favela onde ela se encontrava sem pedir “autorização” para o chefão e “dono do morro” local. Por que será?

Tampouco se viu um muxoxo de reclamação exigindo que se faça uma manifestação subindo o morro e quebrando bocas de fumo. Pedindo para jovens hedonistas pararem de fumar maconha e enriquecer pessoas violentas que vivem de tratar seres humanos mais fracos como lixo. Para variar. Deus tenha misericórdia.

Continuaremos a sermos chamados de “obscurantistas de extrema direita” por enxergarmos a realidade com nossos próprios olhos, sem precisar das lentes que enxergam “o machismo tóxico” de intelectuais do funk carioca.


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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record).

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