black bloc sp 2016

Os black blocs voltaram à tona ontem, sobretudo no eixo Rio-de-Janeiro-São-Paulo-Belo-Horizonte, com novos protestos organizados pelo MPL (Movimento Passe Livre) contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô.

Seguindo o roteiro conhecido a partir de junho de 2013 (mas não restrito àquele mês), a inflação gerada pelo governo federal fez o preço das passagens subirem.

Jovens membros a coletivos de partidos políticos, como Juntos! (do PSOL), ANEL (do PSTU) e UJS (do PCdoB), tomam às ruas junto a sindicalistas e o que a América chama de community organizers, os “líderes comunitários” cujo trabalho é organizar manifestações de rua (Barack Obama, antes da advocacia, era um community organizer).

Os protestos se iniciam num horário determinado, sempre provocando alguma espécie de incômodo extremo para a população. Raramente seguem o combinado com a polícia para a manifestação – isto quando a polícia é acionada.

Logo, a polícia tem de tomar alguma atitude para restabelecer a ordem. Esta palavra tão complicada, ordem, é associada a alguma forma de autoritarismo. O que nunca é exibido é o estado das cidades enquanto a manifestação é realizada. Em São Paulo, com todas as vias entre o centro antigo (sobretudo o Anhangabaú onde fica a prefeitura e arrebaldes) e o novo centro (Avenida Paulista e região) tomadas, alguém no trânsito pode ficar preso por mais de 5 horas para andar menos de 1 quilômetro. É esta “ordem” que precisa ser restaurada – apenas num exemplo sem chamas, vandalismo etc.

Com a polícia atuando, logo há confronto, e manifestantes que passaram toda a primeira fase do protesto provocando a polícia passam a fazer papel de vítimas, filmando cirurgicamente os atos policiais contra eles, que sempre se auto-declaram pacíficos, mártires da causa justa – tão justa que é combatida com “truculência” e “forte repressão” por aqueles que são pintados como “autoritários”. A causa em questão, mesmo a mais impopular, é tratada como justa, correta e necessária – até mesmo heróica, após tal “resistência”.

Nestas horas, aparecem black blocs – os grupos de mascarados “infiltrados” num protesto que “começou pacífico”, e então foi tomado por uma “minoria de vândalos”.

O curioso deste roteiro vale-a-pena-ver-de-novo, fora a reprise milimetricamente copiada, é esta narrativa da imprensa.

Por que os black blockers (assim definindo os participantes dos black blocs, conforme definição do black blocker e pesquisador do fenômeno Francis Dupuis-Déri), se são infiltrados na manifestação, apenas se “infiltram” em manifestações do Movimento Passe Livre?

Ou, no máximo, ligadas aos coletivos e community organizers da esquerda, como CUT, MST, UNE e quejandos?

Se são “infiltrados”, se aproveitando da manifestação para praticar seu vandalismo (e um vandalismo niilista art pour l’art seria “o objetivo” deles), por que não se “infiltram” em manifestações outras? Há mais de 200 manifestações por ano apenas nas cercanias da Avenida Paulista em São Paulo. Por que os blockers apenas se aproveitam naquelas promovidas pelo MPL?

veja-black-bloc-emmaO termo “black bloc” (que deveria dizer respeito ao “bloco” inteiro, e não aos blockers em particular) ficou famoso no Brasil graças à capa da revista Veja de 17 de agosto de 2013, que estampou em sua capa a blocker “Emma” (posteriormente edulcorada por Caetano Veloso, que se vestiu como blocker em homenagem ao fenômeno).

Cristalizada como exotismo no senso comum brasileiro, a expressão entrou para o maleável vocabulário popular e político sem uma definição precisa. O jornalismo da Veja investigou e apresentou os participantes, mas o restante do jornalismo apenas usou o termo sem entender do que falava.

O black bloc não é um grupo, como o MPL: é uma tática. Ou seja, não é que uma manifestação do MPL é repentinamente tomada por um grupo de blockers. É que os próprios membros do MPL ou seus admiradores e acólitos podem repentinamente sacar suas camisas, blusas e máscaras, cobrir o rosto e praticar atos de vandalismo conforme as circunstâncias.

Desconhecendo o que pensam tais anarquistas, socialistas e community organizers, as análises no Brasil, já em 2016, prosseguem repetindo sempre a mesma cantilena ad nauseam: que as manifestações “começam pacíficas” (até um assalto costuma “começar pacífico”), e então são tomadas por infiltrados, como se eles fossem aproveitadores da manifestação original, virginal, pura e perfeita.

Quando algum curioso pesquisa um pouco mais a fundo, mas ainda calçando esta lente deformante da realidade, chega a conclusões que considera surpreendentes.

Tsavkko_BlackBLocCinza

Por exemplo, surpreendem-se quando descobrem que a violência dos blockers é política e possui um objetivo além do vandalismo – o que costuma ser apresentado com esgares de choque, arautos de uma justificativa para a destruição.

É o caso dos fraquíssimos pesquisadores Esther Solano, Bruno Paes Manso e William Novaes, autores de Mascarados, livro que pretende contar “a verdadeira história dos adeptos da tática black bloc” (além de apenas fazerem entrevistas maçantes, apenas exibem suas impressões pessoais, chocados ao descobrir que os blockers possuem um objetivo em suas ganas por destruir o que outros criaram).

black_bloc-anarquiaOra, qualquer pessoa que tenha estudado movimentos de massa desde a Revolução Francesa e os métodos revolucionários, sobretudo o anarquismo, já sabe que isto não apenas não é novidade: a própria definição de anarquismo é a revolução e a coletivização de toda a atividade humana, mas ao contrário dos comunistas, preferem a ação direta. O que é a ação direta? A violência contra as instituições da sociedade.

Ou seja, os black blocs são apenas uma tática já velha e desgastada – a única novidade é trocar a estratégia da “propaganda pelo ato”, os ataques de longo prazo (de Johann Most e o assassinato da princesa Sissi e o decorrente esfacelamento do Império Austro-Húngaro ao terrorismo puro e simples, como as bombas em Wall Street que mataram 38 pessoas em 1920, colocadas pelos anarquistas italianos galeanistas), pela tática de rostos cobertos e ação em bando.

Os protestos do MPL, portanto, não são tomados por uma minoria de vândalos – do contrário, tal minoria apareceria em outros protestos.

black-blocs-Reynaldo-Vasconcelos-Futura-PressPelo contrário: o próprio objetivo do MPL e de outros community organizers é promover uma situação em que se possa agir de tal maneira, e dentre suas próprias fileiras, partir para a violência, com o objetivo político: o anti-capitalismo do “passe livre” (idéia ultra-coletivista por definição) e a destruição de símbolos do capitalismo como agências bancárias e lojas comerciais (mesmo singelas bancas de jornal), todos escudados por uma massa de jovens hormonais que sempre serão filmados como “vítimas de brutalidade da repressão policial” quando a polícia, despreparada que seja, tem de lidar com uma multidão.

Em junho de 2013, as primeiras manifestações, ao contrário do que a memória nacional fez crer, já eram extremamente violentas. Mas, devido justamente à empatia da população em desgostar do sofrimento de jovens diante de violência, a população correu às ruas para fazer peso para os protestos. Tendo as duas primeiras semanas sido esquecidas da memória nacional, hoje muitos pensam em 2013 como um ano em que “o povo”, sozinho, foi para as ruas para exigir algo contra o governo petista – sem perceber que obedeceram pari passu o esquematismo de revoluções e movimentos de massa desde a Revolução Francesa.

O jornalismo, ao invés de simplesmente apresentar nomes sem definição ao povo, deveria trabalhar minimamente a narrativa dos fatos, com começos, meios e fins (sobretudo os meios utilizados e os fins pretendidos). Assim, a população, mesmo a mais instruída, teria ferramentas adequadas para analisar os fatos nas ruas, sem tentar entender se, por serem de esquerda, são petistas, ou se são ligados a algum partido ou quem os financia.

Protestos com black blocs já haviam ressurgido no fim do ano passado, e tudo indicava que ressurgiriam em 2016. Não foi preciso muito mais do que uma semana do ano.

Mas todo o seu funcionamento já está descrito em meu livro, Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs, as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Não se trata de um livro sobre junho de 2013 (o black bloc, aliás, é posterior a junho). Trata-se de uma análise política, filosófica e histórica do modo de fazer política através dos movimentos de massa, tomando o Brasil como um exemplo.

Até o momento, 2016 é apenas mais do mesmo. Nada de novo no front. Nem mesmo na forma como o noticiário, percebendo ou não, praticamente justifica as causas revolucionárias (e impopulares) ao narrar as notícias desta forma – noves fora ignorar que o real objetivo dos protestos não é ser “contra a tarifa”, e sim exigir o comunista “passe livre”, e também todos os partidos políticos de esquerda ostensivamente guiando as multidões pelas ruas do país, preferindo apenas chamá-los de “manifestantes”.

Afinal, movimentos de massa têm dinâmica idêntica e resultados idênticos desde pelo menos 1789.

protesto MPL juntos PSOL

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  • Alef Al Faied

    E no final quem pagará as contas destas depredações é o contribuinte.

  • Alef Al Faied

    O interessante é que o MPL é financiado pelo Alquimídia que também é financiado pelo dinheiro público para gerar um movimento que depreda instalações públicas.

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  • João

    Por mim os blockers são uma “versão burguesa”, ocidental-leite-com-pêra, dos palestinos de Gaza. Provocam até o “inimigo” não ter outra opção além de reagir com violência, tudo isso generosamente coberto pela mídia.

  • Certa vez encontrei-me com um Senhor na Cidade Judiciaria de Campinas e durante nossa conversa ele mencionou ser conhecido da família Covas, e me disse que esse bando seria financiado pela CCR. Fico pensando: O que o governo ganharia infiltrando estes elementos nas passeatas. Digo governo, pois quando se fala em CCR, cujo presidente ainda é família Covas, se fala em situação. Votei na situação mas deixo aqui essa dúvida para que você possa se aprofundar nas suas matérias.

  • Everton

    Flavio, muito bom! Você faz a perguntas que a extrema-esquerda não quer ouvir.

  • Pingback: É o monopólio, estúpidos!()

  • Vander Vafu

    Flávio: um pequeno adendo à tua ótima análise sobre o ‘fenômeno’ dos mascarados.

    Eu iria mais adiante e diria que essa turma é um pretexto, um gatilho para que o governo ilegítimo atenda, ‘generosamente’, aos ‘anseios’ da população e conceda mais tirania.

    Lembra-te de que em julho/agosto de 2013 Dilma rapidamente usou os protestos para tentar emplacar até mesmo uma nova constituinte? Não chegou à tanto, mas chegou perto.

    Pois é… Eis aí uma nova tentativa. E desta vez [acredito que] será a derradeira, pois os ilegítimos sabem que seu tempo está acabando e se falharem na tentativa de continuidade, não terão outra chance. Em outros lugares eles já estão desabando.

  • Francisco

    Off-topic: a respeito da situação dos “refugiados” em terras tedescas (houve protesto ontem em Colônia) e alhures, você pretende escrever algo em breve? (estou torcendo por uma resposta positiva, esse tema me tem despertado muita curiosidade)

    • Flavio Morgenstern

      Claro! Stay tuned!

  • Vitpr

    Tem que se perguntar por que nesse tipo de protesto acontece esse tipo de conduta da PM

    http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2016/01/video-mostra-pm-colocando-objetos-em-mochila-de-manifestante-em-sp.html

    • Flavio Morgenstern

      Porque a PM é despreparada e há muitos criminosos na PM, mas também seria interessante se perguntar por que a PM não precisa fazer isso em outros protestos, mesmo que odeie os manifestantes. Aí você chegará a uma conclusão fechando um todo coerente, teórico, político, histórico e filosófico – não apenas impressões subjetivas jogadas a esmo sem formar um raciocínio, apenas uma defesa apressada.

  • Tão feio “advogacia”… vem do latim “ad vocato”, ‘a chamado’, e já estamos tão acostumados a usar com o “c”… tem uma crase a mais no início de seu texto, ***tomaram às ruas***. Desculpe eu ser chata, mas eu sou mesmo! rsrsrs Quanto ao mais, excelente artigo, como sempre!

    • Flavio Morgenstern

      Lucia, que horror, perdão pelo horresco referens, já estamos torturando violentamente o responsável pelo g em nossas masmorras, o horror, o horror! Já a frase inicial não encontramos, mas muito obrigado pela correção urgente!

  • Fernando

    “Por exemplo, surpreendem-se quando descobrem que a violência dos blockers é política e possui um objetivo além do vandalismo ”

    Por que vândalos e não terroristas?

    Acredito que por ter uma motivação ideológica, o que eles praticam é terrorismo.
    O vandalismo, em si, não tem nenhum objetivo político.Se faz por ignorância, prazer etc.

    • Flavio Morgenstern

      Fernando, pensava o mesmo. Nas últimas páginas do meu livro, a dra. Janaína Paschoal explica o risco dessa terminologia.

      • Rose

        São terroristas, pq agridem quem não participa do ato..Já vão preparados para promover a baderna, por fogo no que estiver na frente e espancar qq um q for pego sozinho..eles vão com a intenção de matar!

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