hizbollahsalute

Imagine um homem, branco, loiro, biótipo germânico, acima de 1,90 m, careca, de calça militar, coturno, suspensórios e tatuagens nazistas andando nas ruas. Sua retórica é a de que judeus são os culpados pela fraqueza européia, que precisa resgatar valores pagãos para possuir força, inclusive física. Antes de entrar num bar, ele faz a saudação nazista.

Ele, contudo, nega o Holocausto, garantindo que os alemães não praticariam aquele genocídio contra judeus – e é a favor de sua expulsão para a sua “terra santa” (dito com aspas de desdém), e não de seu extermínio. Nunca agrediu ninguém e é contra espancamentos.

isis one fingerImagine agora um homem de tez acobreada, barbas protuberantes, biótipo árabe ou norte-africano, roupas típicas de um muçulmano. Sua retórica é a de que os judeus são os culpados pelos fracassos muçulmanos, e que a religião islâmica só obterá seu êxito quando todo o mundo se submeter ao islamismo (islam, afinal, significa “submissão”). Antes de entrar numa mesquita, ele faz o sinal de um dedo indicador levantado, para dizer que o mundo todo deve se submeter a um único Deus, Alá, e uma única religião, o islamismo.

Dentro, ouve que os atentados terroristas do Estado Islâmico, Boko Haram, al-Qaeda, al Shabaab e demais jihadistas (mujaheddin) são reações muçulmanas à “nova Roma”, o demônio encarnado, os Estados Unidos. Ouve pregações sobre como os muçulmanos têm o dever da jihad ou de ao menos prestar sua admiração aos que nela se engajam. Sua mesquita é freqüentada por radicais e nunca culpa os terroristas por seus atos, e sim o Ocidente que é materialista e “odiador de muçulmanos”, os únicos que possuem a verdadeira lei.

Qual dos dois é mais perigoso? Qual dos dois enfrenta sérios problemas com a lei tão somente ao pôr a cara na rua? Qual dos dois pode usar a carta do “racismo” para se proteger e continuar pregando ódio?

O nazismo foi o mal em si do século XXI, e por isso até mesmo países que praticamente não sofreram com sua perniciosa influência, como o Brasil (para onde fugiu o carrasco Josef Mengele, o “Anjo da Morte” [Todesengel], morto em Bertioga), proibiram até mesmo seus símbolos. Hoje, por uma mentalidade analógica, em que a forma máxima de conhecimento atingível é a analogia com algo grandioso, tudo o que é adversário é comparado unicamente ao nazismo. Praticamente nenhum país ocidental permite algo como um “partido nazista”.

Rarissíssimas pessoas, contudo, se perguntam por que o nazismo odiava tanto judeus. Uma das palavras de obediência imediata hoje é “tolerância” – assim, se explica que os nazistas não “toleravam” judeus, como se o grande mérito hoje fosse “tolerá-los”. “Xenofobia” e explicações sobre o “diferente” só fazem sentido para quem pensa sob a clave da Copa do Mundo.

Encontro entre Adolf Hitler e Amin al-Husseini, 1942

Encontro entre Adolf Hitler e Amin al-Husseini, 1942

O nacional-socialismo, proibidíssimo hoje, tinha relações claras e óbvias com o nacionalismo pan-árabe e os movimentos anti-colonialistas do século XX. Estes são rigorosamente defendidos pela esquerda e pelo modelo de educação brasileiros (é impossível esperar uma questão de vestibular em que Israel deva ser defendido do H’zbollah ou colocado em perspectiva em relação ao totalitarismo iraniano, por exemplo). Já o nazismo permanece como a consubstanciação do Inferno na Terra.

A própria idéia da câmara de gás para resolver o “problema judeu”, concebida em 20 de janeiro de 1942 às margens do Wansee, em Berlim, foi uma forma de praticar en masse a solução que muçulmanos sempre deram para judeus: a exigência de conversão, o pagamento da jizya ou a morte. O que muçulmanos fizeram desde Maomé – degolar pelo fio da espada, para garantir que o inimigo não sobreviva – foi trocado pelos nazistas pela câmara de gás. Mais rápido, mais barato. E sob um mórbido ponto de vista, talvez até mais “humanitário”. Maomé ele próprio degolou centenas de judeus.

A visão ocidental em relação ao islamismo, contudo, sob égides como “multiculturalismo”, “tolerância” ou o mote revolucionário francês liberté, égalité, fraternité, é sempre positiva. Se há violência praticada pelo islam, em nome do islam, para favorecer o islam, contra pessoas cujo único crime foi serem “infiéis”, o assassinato sempre será computado como uma “resposta” ao Ocidente.

Muslims-burning-American-FlagO mesmo discurso, claro, poderia ser usado para os crimes nazistas: todos respostas ao Ocidente, o seu “imperialismo” e seu “materialismo”, seus “valores degenerados” e suas instituições hipócritas. Felizmente, não é utilizado neste caso.

As maiores organizações genocidas e anti-semitas do mundo são defendidas pela esquerda como “vítimas” dos judeus – retórica usualmente adocicada pelo escorregadio termo “sionismo”, que parece se referir a uma idéia, e não a um povo – embora esta idéia seja justamente a de uma terra para um povo.

Estas palavras de fortíssimo apelo psicológico e partidário nos discursos correntes, mas que apenas dizem respeito a impressões apressadas retiradas de notícias, e não a definições claras e conceitos universais, têm efeito deletério grave.

Se o islamismo não fosse uma religião – aquilo que é protegido pela idéia da livre associação religiosa – e sim um partido político pregando o mesmo que prega, seria considerado tão ou mais ilegal do que o nazismo.

Para agravar a confusão, o próprio conceito de “religião” inexiste na língua árabe e, por conseguinte, na visão muçulmana. O islamismo é um jin, uma visão cosmológica, uma formatação civil, um padrão de comportamento, um código jurídico, um eixo moral. Apenas duas outras religiões são reconhecidas pelo islamismo: o cristianismo (“povo da Cruz”) e o judaísmo, considerado o grande inimigo. Qualquer outra forma de religião é descartada tão somente como infiel.

O que chamamos de religião, portanto, não é apenas uma religião. O muçulmano não vive para obedecer leis civis, como vários religiosos e não-religiosos de diversos matizes. Vive para obedecer a shari’ah e implantá-la pela conquista territorial. O muçulmano “moderado” (ou o grupo que Ayaan Hirsi Ali, em seu livro Herege: por que o islã precisa de uma reforma imediata, chama muito mais corretamente de “muçulmanos de Meca”, em oposição aos “muçulmanos de Medina) é apenas um muçulmano com influências ocidentais, que não segue pari passu o Corão e o islamismo integral.

Imagine um partido feito para se trocar todas as leis por uma teocracia, para passar a dividir indivíduos em grupos, em que os primeiros tenham direitos civis, e os segundos sejam tratados como cidadãos de segunda classe, a dhimmi (os não-muçulmanos num Estado islâmico), obrigados a pagar o imposto da jizya para aquele primeiro grupo. Imagine que, instituída shari’ah, homossexuais serão atirados de prédios, adúlteras serão apedrejadas (inclusive se “traírem” maridos mortos), que a blasfêmia será punida com métodos variando da decapitação à crucificação.

Turkey ProtestCaso seja um partido político que avente tal cenário, é bem provável que ele seja chamado de nazista (pela analogia óbvia), de homofóbico, de machista, de racista, de teocrático e de anti-semita (esta carta que só é sacada se o partido for declaradamente nazista, já que nunca é usada, por exemplo, contra o PSOL de Babá queimando a bandeira de Israel). Como o islamismo é uma religião (mas, como se vê, apenas em nosso conceito de religião, derivado do mundo judaico-cristão), pode fazer o mesmo abertamente.

É exatamente este o grande mote daquele que foi considerado o livro mais polêmico de 2015, Submissão, de Michel Houellebecq: a ascensão de um partido islâmico na França, terra das luzes racionalistas. Apesar de comumente descrito como uma distopia modelo 1984 ou Admirável Mundo Novo, o assustador no livro é o exato contrário: a naturalidade como o islamismo está tomando conta da Europa sob olhos tolerantes de todos.

O islam, conta Houellebecq citando Khomeini, ou é político, ou não é nada. Mas as pessoas apenas se assustam se o chamamos de partido político, enquanto continua fazendo o mesmo como “religião”.

Basta lembrar da contestação violenta ao candidato republicano à presidência americana Ben Carson, quando respondeu que um muçulmano não poderia ser presidente daquele país. Criticaram-no porque a Constituição não prevê o “teste de religião”, mas Carson permaneceu enfático: o islam é incompatível com a lei daquele país, que não é a shari’ah. Já um Donald Trump, por muito menos, como comentários passando do torpe ao francamente imbecis, é considerado inelegível e “fascista” por muitos. O que dizer de um presidente homofóbico, racista e machista como seria um muçulmano, então?

coexistNossas palavras, portanto, estão nos cegando para a realidade. Por mais que intelectuais de algum talento possam raciocinar longamente sobre o certo e errado com conceitos como imperialismo, auto-afirmação dos povos, liberdade religiosa, Estado laico, multiculturalismo, tolerância e outros termos de forte apelo, são poucos os que estudaram exatamente o que pensam querem os muçulmanos que tanto defendem contra o Ocidente, que tanto deu a esses próprios intelectuais a liberdade que usufruem para não concordarem tanto com o islam.

Basta descrever o que o islam é para causar pânico em qualquer ocidental. Basta dizer que um islâmico está dizendo o mesmo dentro de sua religião para que o mesmo ocidental exija respeito – e acuse de “islamofobia” quem ousa discordar. É o mesmo ocidental que criticará com horror a chamada “bancada evangélica” e o “fanatismo religioso” dos cristãos que conhece.

Colocados à luz das comparações que temem fazer gera algum calafrio – é um convite para se entender o que, de fato, sustenta o Ocidente e sua tradição de liberdade, e afinal, o que é o islamismo, tão defendido por ocidentais por considerarem que a tolerância e a defesa do diferente (a “diversidade”) é um bem em si, sem notar que defendem justamente aquilo que é tão contra o que eles próprios pensam – incluindo a tolerância com o diferente e a liberdade de pensamento.

O Ocidente, de Paris a Bruxelas, do 11 de setembro ao Réveillon em Colônia, arrisca-se a ser a primeira civilização que morrerá por suicídio.

Contribua para manter o Senso Incomum no ar sendo nosso patrão através do Patreon

Não perca nossas análises culturais e políticas curtindo nossa página no Facebook 

E espalhe novos pensamentos seguindo nosso perfil no Twitter: @sensoinc

Saiba mais:












  • Prezado Morgenstern, recomendo este vídeo do Bill Warner comparando a época atual com as Cruzadas, é um apoio interessante a esta tese que você expõe no artigo.
    https://www.youtube.com/watch?v=I_To-cV94Bo
    Abraços
    FA

  • Eu anseio por cada novo artigo. Vc trata o óbvio de maneira didática. Por que é tão difícil para as pessoas entenderem isso? Será que já incutiram até as entranhas os vocábulos esquerdizantes?

  • João

    Flávio, você pode dizer se o Ocidente considerou o Cristianismo como os países islâmicos consideram o islã (como visão de mundo, modelando não apenas o aspecto religioso, mas as leis, relações sociais, etc)?

    Alguns dizem que a Idade Média foi assim. Outros dizem que não. Se você souber alguns livros que tentam responder a essa questão, agradeceria que me indicasse.

  • Pablo Dias

    O ocidente já está morrendo por dentro há um bom tempo. Basta ver a dívida pública de todos os países, as manipulações de moeda por parte dos bancos centrais causando e escondendo crises, o capitalismo de compadrio (o livre mercado já não existe de fato há mais de 50 anos). E mais recentemente, para receberem a facada final, eles tem importado seus próprios algozes, que em duas ou três gerações vão subjulgar a população local e destruir os valores que o ocidente tanto preza: liberdade religiosa, liberdade de pensamento, liberdade de expressão. Tudo isso em nome de um medo politicamente correto boboca de chamar as coisas pelos seus devidos nomes. É um caso de auto-sabotagem sem precedentes em nenhuma outra civilização.

  • Lucas Henrique Fernandes

    Todos os artigos escritos e publicados neste site com a tag “religião da paz” deveriam ser obrigatórios para todos. Não vejo na grande e pequena mídia nenhum articulista, escritor, jornalista etc. que chegue nem perto das suas análises, Flavio.
    Realmente Submissão é avassalador, principalmente pela forma que as pessoas estão, literalmente, cagando para tudo o que acontece.
    Quanto às outras obras não conheço se não pela nome, quando muito; mas porei na minha lista de estudos.
    Obrigado pelo serviço que vem prestando. Você e seus textos estão cada dia mais ácidos, corroendo a camada de gordura da confusão geral e nos apresentando a verdade de forma limpa e cristalina.
    Forte abraço.

    • Flavio Morgenstern

      Lucas, o grande motivo para escrever é ler comentários como o seu. 🙂

      • Quando alguém faz algo por você, você agradece. Então, OBRIGADO.

    • João

      O melhor deste site são os textos sobre islã. Simplesmente NÃO EXISTE na mídia qualquer tipo de análise que vá além do “especialistas disseram que…” quando o assunto é Islã.

      Obrigado, Flávio.

      • Flavio Morgenstern

        Ainda virão muitos outros… Muito obrigado, João!

  • Bernardo Teixeira

    Mais um texto sensacional! Impossível encontrar um único texto sobre o assunto, em toda a imprensa brasileira, com 1/3 da profundidade dos seus! Posso aproveitar pra dar duas sugestões de temas afins ao que foi tratado neste artigo? 1. As conexões entre a esquerda e o terrorismo islâmico; 2. Por que a esquerda odeia tanto Israel?
    Fica o pedido de ver esses temas tratados aqui no Senso Incomum?
    Abraços!

    • Bernardo Teixeira

      errata: Fica o pedido de ver esses temas tratados aqui no Senso Incomum!

    • Flavio Morgenstern

      Bernardo, obrigado! Sabe que pensei exatamente nestes temas como os próximos? Exigem textos mais longos, mas vou tentar fazer a tempo!

  • Vinicius

    Analise perfeita. Parece que ninguém é capaz de enxergar o que parece ser “óbvio”. Na minha singela opinião tudo isto é possível acontecer graças ao relativismo cultural e liberalismo na qual uma Europa secularizada vive a muito tempo. Creio que veremos coisas piores.

    • Pablo Dias

      Concordo com você. O relativismo cultural e moral exerce papel central na queda do ocidente.
      Após o iluminismo, a religião começou a perder força na cabeça das pessoas. O problema nisso tudo é que, gostemos ou não da religião, ela cumpria naquelas épocas um papel importante no que diz respeito a standards morais. Valores históricos que foram importantes para a própria civilização ocidental judaico-cristã começaram a ser completamente relativizados ou mesmo abolidos. A moral religiosa judaico-cristã foi substituída por uma moral flexível ou mesmo um completo niilismo existencial, no qual tudo era potencialmente permitido e não existiam verdades absolutas. A noção de “certo” e “errado” foi trocada por “depende da situação”. E ao longo do tempo isso foi piorando. As virtudes e vícios individuais foram, principalmente após o século XIX, sendo diluidas na massa amorfa do “coletivo”, que ganhava cada vez mais força. Assim, o sujeito que outrora seria considerado um mero assassino ou ladrão passou a ser um “incompreendido social”, e os desvios morais individuais passaram a ser tolerados desde que fossem feitos tendo em vista uma causa maior, o coletivo. E hoje vivemos nesse hospício, onde todos querem justificar tudo e viver às custas de todos, ao mesmo tempo em que fingem termos atingido uma utopia “Imagine all the people”, na qual não existem perigos ou inimigos filosóficos reais, apenas “pessoas que ainda não foram corretamente inseridas no nosso contexto”.
      Os relativistas morais ocidentais já perderam a cognição e a capacidade de observação empírica há muito tempo. Agora estão abrindo caminho para, literalmente, perderem suas cabeças.

  • Rodrigo

    Esse artigo me lembra de uma frase do Aiatolá Khomeini, que aliás está no livro do Houellebecq que é a seguinte: ”Se o islã não é político, não é nada”.

    • Lucas

      Te lembra porque está no artigo.

Sem mais artigos