Bancada evangélica

Bolsonaro e Feliciano não me representam

A bancada evangélica, incluindo Bolsonaro e Feliciano, não me representam, mas representam alguém: os evangélicos. Sobretudo os pobres.

Não sou “evangélico”, não me identifico com que se diz evangélicos, e, decididamente, os deputados da dita bancada evangélica, incluindo nisso Bolsonaro, Feliciano et caterva, não me representam nem me representariam nos meus piores pesadelos. Na verdade, ainda que muita gente não saiba, eu comecei nessa coisa de internet, há coisa de vinte anos, com um programa de rádio e uma página de defesa da doutrina católica contra esse mesmo pessoal. Ainda dá para ouvir muitos programas antigos em https://www.mixcloud.com/carlos-ramalhete/

Mas esses políticos representam alguém, e é por isso que a grande mídia os trata como se fossem, alternadamente, palhaços ou monstros. Numa hora ridicularizados e tratados de dinossauros, em outra temidos como suposta ponta-de-linha de uma ameaça teocrática tão absurda que se tem vontade de perguntar o que anda fumando o jornalista, os políticos ditos evangélicos são como uma gota de mercúrio que rola pelo chão da sala e ninguém na mídia consegue capturar. A razão deste estranho fenômeno é simples: eles representam alguém, e é um alguém que a classe média urbana – os salões bem-pensantes do Pondé, ou sei lá como ele diz – não quer ouvir nem pintado de dourado. Alguém que não tem nem pode ter voz ou representação política.

E é aí que mora a graça da coisa toda, se é que dá para se encontrar graça em tamanha barbaridade: a situação pode perfeitamente ser descrita de uma maneira que levaria a esquerda ao haraquiri. Afinal, quem é representado pela bancada evangélica são os pobres: as empregadas domésticas, porteiros, mecânicos e demais serviçais da burguesia de classe média das capitais. A mídia tradicional realmente opera, como a esquerda adora afirmar, como porta-voz da classe mais favorecida para repetir um discurso que nega voz aos oprimidos. Só que o sinal da leitura esquerdista está evidentemente trocado. Afinal, o pobres não votam no PSOL nem se sentem representados por seus políticos.

Os pobres votam, em peso, é em quem faz um discurso de lei-e-ordem, quem se levanta contra a hegemonia do discurso de Maio de 1968. “É proibido proibir”, “nem Deus nem mestre” e outras gracinhas que soam tão sábias a quem mora na Zona Sul ou nos jardins não fazem sentido algum quando se está apertado no trem, rezando para não ser assaltado no dia em que se recebeu uns cobres para pagar contas e carnês. É exatamente isto o que atrai o eleitorado dos “evangélicos”, que muitas vezes é composto também, por mais difícil que seja à classe média urbana perceber, de muita gente que nunca pagou dízimo. De gente que frequenta centro espírita, terreiro e igreja católica, ou mesmo não frequenta nada, mas que acha absurdo alijar o Divino da esfera pública (não que sejam estas as palavras usadas) ou destruir as hierarquias sociais.

Os ditos evangélicos têm votos porque são percebidos como sábios e moralmente inatacáveis pelos serviçais oprimidos das mesmas pessoas que têm àqueles por palhaços assassinos e que pautam a grande imprensa para que seja esta a impressão que deles ela passa.

Já a grande imprensa, graças à invenção dessa contradição em termos que é o diploma de jornalista, serve basicamente de porta-voz dessa classe média urbana; o aluno pode entrar na faculdade normal, mas sai tão analfabeto quanto entrou, repetindo o kit pronto de “verdades” de 68. O jornalista acaba sendo o único serviçal da burguesia que aceita seus valores, que se identifica com ela ao ponto de desprezar todos os seus demais serviçais. Os outros – porteiros, domésticas, etc. – vendem os braços e calam a boca, mas os jornalistas vendem a língua e trancam o cérebro. Daí que na mídia só se possa tratar dos políticos evangélicos em tom de humor ou horror. Daí que seja o Duvivier a debater com o Feliciano; o Freixo, aquela flor da extrema-esquerda de butique, não poderia jamais “descer a esse nível”.

Feliciano, Bolsonaro e demais despertam na burguesia que os Freixo da vida representam um horror que só se consegue entender quando se percebe que eles são reconhecidos como iguais ao porteiro ou à doméstica, mas aparentemente desprovidos do bom-senso de se calar. Eles visivelmente não sabem o seu lugar: são revoltosos de senzala, são pobres respondões e grosseiros, pernósticos com um parafuso a menos, que fazem com que não se tenha mais as fáceis e tranquilas certezas. Eles fazem com que a burguesia não saiba onde pisar, e isso é apavorante.

Daí o horror da imprensa, que consegue ser ainda maior que o da “elite” a que ela serve, quando percebe que os mais pobres realmente acham que o Marcelo Crivella – o sobrinho do Edir Macedo! – é uma pessoa sábia e religiosa. Ora, o fato de ele não ser nem um nem outro é perfeitamente irrelevante. O que horroriza a burguesia é perceber que os pobres acham que ele o seja, que eles percebam como seu representante alguém que parece tanto com eles mesmos. O horror aumenta mais ainda quando veem que partilham desse alvitre até mesmo alguns pobres que eles conhecem pessoalmente (como serviçais mudos, claro) e em cuja condição de bons selvagens eles tinham plena confiança. “Que horror, Seu Sebastião da portaria votou no Crivella! Você acredita numa coisa dessas, Cida?”; “Cida”, a “secretária” (tudo tem muitas aspas nessa vida), continua mexendo as panelas em silêncio, com medo de revelar que não só ela também o fez, como que seu CD favorito é justamente dele, o “Perfume Universal”, e que aliás ela realmente não gosta nem um pouco de limpar os restos de maconha, camisinhas sujas de fezes, etc., que encontra toda segunda ao voltar ao trabalho. E que, aliás, o nome dela é Dona Maria Aparecida, se faz favor.

O que faria o Crivella – ou mesmo o Feliciano, com sua apavorante estética de cabeleireiro da favela – tornar-se um sábio aos olhos dos pobres? O simples fato de ele dizer que há Deus e há mestre, ainda que seu mestre seja o Edir Macedo. O simples fato de ele não ver sentido nenhum, muito menos beleza, em dizer que “é proibido proibir”. O simples fato de ele representar os pobres, ao menos no que mais os incomoda. A questão principal não é religiosa, mas social.

A classe alta se protege da realidade com muros eletrificados, portarias fechadas em que será um pobre a arriscar-se no primeiro contato com o recém-chegado, vidros do carro levantados. O pobre não. Para o pobre, no mais das vezes é um sonho remoto ter dinheiro para levantar o muro da casa, e com isso fazer com que só se veja tijolos expostos ao olhar pela janela. Mas seria tão bom não ter que botar a bicicleta na sala para que não seja furtada! Para o pobre, não há como fingir que não se vê quem bate no vidro do carro, porque ele não está do lado de dentro.

O colapso da civilidade – pois é este o fruto de Maio de 68 – afeta os pobres mais que qualquer outro. São eles que são mais assaltados, mortos, estuprados, surrados e espoliados de mil maneiras. São eles que mais perdem, são eles que mais quereriam ter de volta Deus e mestre ou, em Sua falta, proibições eficazes.

É por isso que eles votam nos “evangélicos”: eles realmente os representam.

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