O terrorismo não quer apenas matar: quer passar uma mensagem. Enquanto o Ocidente não a decifrar, será por ela devorado.

Mesmo antes da oficialização pelo governo, jornais e especialistas já sabiam que o atropelamento em massa em Nice, cidade turística no litoral da França, segue o modus operandi de um atentado terrorista, inclusive com o uso da palavra jihadista.

No momento, assomam-se mais de 80 mortes. A principal avenida da cidade, Promenade des Anglais, estava lotada em comemoração à La fête nationale, o “Dia da Bastilha”.

https://twitter.com/Le_Figaro/status/753757911227232256

Terrorismo, já definiu perfeitamente Lenin, é propaganda armada. Se a propaganda política age inspirando esperança (em dialética com a indignação) ou medo, o terrorismo eleva este ao último grau.

O terrorismo que realmente ameaça o mundo hoje é o terrorismo islâmico. Sua propaganda funciona: basta ver a ascensão islâmica na Europa, e como sua propaganda atrai jovens de todos os continentes, credos e culturas para o centro dos holofotes mundiais, numa era dirigida por notícias.

Sua propaganda quer passar um recado claríssimo: que o mundo inteiro deve se render ao islamismo, e a única lei a ser aplicada deve ser a shari’ah. Como o islamismo prega a jihad, a guerra para expandir a religião muçulmana pela espada, os atentados terroristas são apenas a aplicação da jihad no mundo moderno. É por isso que os terroristas do Estado Islâmico, por exemplo, mostram o dedo indicador em seus atentados para mostrar que querem um mundo seguindo apenas uma lei imposta por uma religião de um Deus e um profeta.

Pode não ser uma propaganda tão chamativa para ocidentais, mas a religião propagandeada também não é. Ou não seria: basta ver como o mesmo progressismo herdado do jacobinismo (já naquela época Rousseau admirava Maomé contra os cristãos), ao invés de produzir uma “democracia laica”, produziu uma cultura que defende com unhas e dentes os muçulmanos. Os marxistas que vociferavam que a religião é o ópio do povo há 50 anos hoje ululam que o perigo do mundo é a “islamofobia”.

O islamismo odeia alguns elementos comuns do Ocidente, como gays, cachorros, mulheres que não escondem o corpo na rua, judeus, cristãos, ateus, sexo fora do casamento, esposas que não obedecem seus maridos, usar o relógio no pulso esquerdo, comer comida que não seja halal, mostrar a sola do sapato. E quer impor tais proibições, com penas tão rigorosas como só o islamismo consegue ser, ao mundo ocidental.

Como nos ensinou Alex Catharino aqui, e também Flavio Gordon aqui, nosso mundo ocidental atual foi moldado pela Revolução Francesa, que teve como símbolo supremo a queda da Bastilha, antiga prisão política do Ancien Régime. Na verdade, a Bastilha só tinha sete presos naquela noite de 14 de julho, mas foi algo tão simbólico que é comemorado como “Dia da Festa Nacional” até hoje.

Deposto o Antigo Regime e decapitado o rei (uma curiosa ironia com o mundo que haveria de vir), a idéia da Revolução Francesa era instaurar um Estado laico, baseado no lema liberté, égalité, fraternité.

É contra isso que o islamismo luta, e por isso escolheu a data do 14 de julho. O islamismo é contra qualquer ofensa ao profeta Maomé, portanto fez dois atentados contra o jornal satírico Charlie Hebdo. O islamismo é contra gays, então fez um atentado contra uma boate gay em Orlando. O islamismo é contra o poderio americano, considerado “a nova Roma” com seu “capitalismo ateu”, e por isso destruiu o World Trade Center – não era concreto que ele queria destruir, mas um símbolo gigantesco e marcante da América, para ser sempre lembrado.

O terrorismo tem uma mensagem, um recado a passar para o Ocidente – o dhimmi, cristãos e judeus, e os kafir, “infiéis” que não são islâmicos. Mas o Ocidente não entende essa mensagem, por estar pensando com conceitos apartados da realidade.

Terroristas são quase sempre salafistas. O Ocidente nem sabe o que é isso. O salafismo é um movimento sunita que pretende aplicar o Corão à luz de uma emulação rígida dos haddith, os ditos sobre a vida do profeta Maomé. Portanto, o salafismo busca replicar em todos os séculos o modo de vida maometano o mais ipsis litteris possível. Há salafistas ligados à política, há salafistas praticantes da jihad.

Para os salafistas, mas também para todos os muçulmanos que seguem o Corão, os não-muçulmanos, os dhimmi e os kafir, são infiéis que devem ser convertidos, pagar a jyzia (imposto sobre cristãos e judeus, não acessível às outras religiões ou à descrença, que só cai nas outras duas alternativas) ou devem morrer.

O Estado Islâmico possui um componente a mais: além de salafistas, consideram-se um califado, ou seja, a ordem político-religiosa que deve controlar todo o mundo. O último califado foi o Império Otomano, desfeito na Primeira Guerra Mundial. O Estado Islâmico (Daesh) hoje quer reconstruí-lo. As cenas chocantes que vemos são apenas o que o islamismo sempre fez em seus reinos, mas nosso estudo de História nunca estudou as teocracias muçulmanas. O que o Estado Islâmico pratica como terrorismo na Europa não é muito diferente do que a Arábia Saudita aplica em seu próprio território.

O Estado Islâmico, além de espalhar o terror, quer passar a mensagem que o terrorismo, como propaganda armada, possui: que o Ocidente deve sentir medo, para se subjugar à shari’ah e ao reconhecimento do Califado mundial, ou deve estar em guerra. O Estado Islâmico, conforme famosa reportagem da revista Atlantic (com bom contraponto do American Thinker), crê no apocalipse muçulmano, e que seu objetivo é adiantá-lo o mais rapidamente possível, por isso fez um atentado na França para iniciar a Terceira Guerra Mundial, o que acabou não acontecendo.

É isso o que os jidahistas pensam. Por isso escolhem seus alvos e as datas que escolhem. Para mostrar o desrespeito pelas leis, culturas e, claro, vidas que o Ocidente abriga e protege. Sua ojeriza pela liberté, égalité, fraternité não poderia ser mais clara. Tal como seu ódio contra desenhos, piadas, gays.

Mas o Ocidente ainda não entende o recado. O Estado Islâmico ficará cada vez mais desesperado para fazer o Ocidente entender.

Enquanto o Estado Islâmico sabe usar redes sociais, Telegram, línguas ocidentais, melhores aeroportos para praticar atentados, uso de armas, de filmagens e afins, o mundo civilizado ainda pensa em termos como “religião da paz”, “não têm nada a ver com o islamismo”, “minoria extremista”, “todas as religiões são iguais”, “o cristianismo fez igual” e outras fantasias, o islamismo pensa em termos como jihad, como dhimmi, como kafir, como califado, como salafismo. Coisas que o Ocidente ainda nem parou para estudar.

Enquanto o Ocidente lamentar que o atentado ocorreu tristemente quando a França celebrava o mundo moderno e a “liberdade”, crendo que a Revolução Francesa foi um open bar com umas decapitações de consumação obrigatória, não vai entender que os jihadistas nem sequer usam os mesmos conceitos e valores que nós.

O que mostra a falha fundamental e fatal do Ocidente: acreditar mais em documentos oficiais e discursos empolados da linguagem política cheia de firulas do que na realidade. Afinal, como qualquer um já sabia antes da identidade do terrorista ser revelada, era óbvio que era mais um atentado terrorista islâmico praticando a jihad. A verdade é impermeável a ideologias e linguagem de perfumaria.

Acreditar que pedir tolerância mundial e cantar Imagine seja uma alguma coisa minimamente útil para não morrermos é o primeiro passo para todo aquele mundo que acredita em “liberdade”, em “igualdade” e em “fraternidade” ser destruído por quem nunca deu a mais ínfima bola para tudo isso. Um atentado no Dia da Bastilha não poderia passar recado mais claro.

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  • João Marcos

    Graças aos ONZE atentados islâmicos contra a França (desde janeiro/2015), tive que alterar minha ordem de leitura. Começo hoje o “Submissão” e ” Muhammad – His Life Based on the Early Sources”, do Martin Lings.

    Como uma das 03 grandes forças que disputam o planeta, é essencial compreender como pensa um islâmico.

    Agora, voltando à política, eu ainda não descobri uma alternativa que equilibra direitos e segurança nacional no caso francês (ou europeu). Tudo que eu soube trata-se de ou tratar islâmicos como uma subclasse suspeita, ou “acolher” a cambada toda. Talvez um controle de fronteiras bem rígido (aceitar apenas imigrantes que passaram pela peneira do serviço de Inteligência, que renunciam publicamente à Shari”ah, por exemplo) diminua o problema, mas a Europa já tem muitos extremistas dentro das suas fronteiras.

    Quem sabe uma catalogação e investigação de todos? Seria inviável devido à quantidade de pessoas.

    Eu tive uma ideia melhor, mas impossível de ser aplicada graças aos nossos intelectuais: para cada cidadão ferido ou morto em atentado islâmico, uma FAMÍLIA islâmica será deportada e banida (nunca mais poderá voltar ao país). Comece pela família do terrorista, se houver, ou da família mais próxima de onde ele morava. Assim, os próprios islâmicos começariam a denunciar indivíduos suspeitos.

    • Pobretano

      REMOVE KEBAB! é mais efetivo. Eu seria a favor da radical remoção física hoppeana. A únicanforma de um muslim renunciar a sharia é deixando de ser muslim.

  • Pobretano

    O último califado foi o Império Otomano, desfeito na Primeira Guerra Mundial.

    Isso ajuda a explicar o negacionismo do genocídio armênio!

  • Rodrigo

    Caro Flavio,
    Creio que você esteja usando o termo dhimmi de forma um pouco errada. Só são dhimmi aqueles infiéis (antigamente somente cristãos, judeus e zoroastrianos, depois também hindus e budistas) que vivem sob autoridade islâmica, como cidadãos de segunda classe, subjugados e pagando a jyzia. Em troca, podem manter sua fé, ainda que precariamente e sob risco constante. Alternativamente, eles podem se converter ou serem mortos.
    Lembrando que a jyzia foi abolida pelos otomanos por pressão ocidental em 1856. Em alguns outros poucos lugares durou um pouco mais.
    Um infiel que não viva sob autoridade islâmica é somente um infiel (kaffir).
    Abraço.

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