O debate sobre aborto geralmente é raso, feito com frases de efeito e, apesar da pretensão, sem base científica. Não é difícil melhorar.

Esses dias tenho acompanhado muitos debates na internet sobre aborto. Acho que me deparei com todos os argumentos possíveis à favor e contra. Dos mais inteligentes aos mais patéticos, dos mais nobres aos mais malignos.

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Apesar de ser um tema que desperta emoções fortes dos dois lados, a linha argumentativa tende sempre a cair em dois polos comuns: A liberdade de escolha da mulher de abortar versus o direito que o feto em desenvolvimento tem de continuar vivendo.

Resolvi então criar um guia pra resumir o debate e chegar à conclusão que me parece a mais acertada e de forma mais rápida.

Vamos lá: Em primeiro lugar, se mantenha longe de argumentos religiosos. Abortistas em sua maioria são ateus, logo não reconhecem esses argumentos como válidos, para começar. Se forem cristãos, não reconhecem os próprios princípios que dizem reconhecer, logo tais argumentos se tornam inúteis.

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Mas não precisamos da religião para provar que estão errados de qualquer forma. Normalmente os abortistas vão usar uma linha utilitarista de defesa do aborto pra tentar convencê-lo. Ou seja, vão tentar mostrar supostas desvantagens de manter o aborto ilegal. Os malefícios que trariam para as mães, famílias, para a sociedade ou para o Estado. Os argumentos vão desde que a legalização protegeria tais bebês de um futuro sombrio, passando por vantagens econômicas para o Estado e indo até a proteção da vida de milhares de mães que teriam teoricamente acesso à melhores serviços de saúde.

Entretanto, para sustentar o utilitarismo, é necessário que se prove que a vida do bebê em formação no útero vale menos que a vida de um recém-nascido. Ninguém defenderia a escolha de assassinar um neném por nenhuma dessas teóricas vantagens da legalização do aborto, certo? Então podemos poupar tempo e passar logo pro segundo debate.

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Já que assumimos que se a vida do feto no útero vale tanto quanto a de um recém-nascido, qualquer utilidade de seu extermínio, seja ela social ou financeira, torna-se irrelevante. A grande maioria dos abortistas defende que um bebê que vai nascer daqui a alguns minutos tem tanto direito à vida quanto um que nasceu há 5 minutos.

Mas ainda existe uma minoria que acha que não. Que bebês prestes a nascer dependem da vontade da mãe pra decidir se podem vir ao mundo ou se vão ter seu crânio partido ao meio, seu cérebro sugado com uma cânula e seus membros partidos com uma pinça cirúrgica, pelo simples fato de ainda estarem geograficamente localizados dentro do útero. É um argumento absurdo, repugnante e moralmente insustentável. Se você se deparar com um desses, encerre a discussão e reze por sua alma. Ela vai precisar.

Agora, se estamos lidando com a maioria dos abortistas, ou seja, aqueles que defendem que em algum ponto no meio da gestação o bebê deixa de ser um ser sem direito à vida, completamente sujeito à conveniência da mãe, e passa a ser um ser independente, único, com o direito à se desenvolver e nascer, então temos que pedir que digam qual é esse ponto de referência e o motivo de ser esse e não outro o escolhido.

Aqui vamos escutar toda sorte de idades gestacionais e motivos. Desde o desenvolvimento da batida do coração até o desenvolvimento do sistema nervoso, pra não sentir dor – que aliás começa nas segunda pra terceira semana de gestação e vai até a adolescência – passando pela idade projetada de que o bebê poderia viver fora do útero sem a ajuda da mãe.

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Há um problema sério com todos esses argumentos. O desenvolvimento do feto é uma linha contínua que começa na concepção e dura até anos, ou mesmo décadas após o nascimento. Não existe um ponto de transformação marcante o suficiente que possa ser usado e defendido de forma razoável como “início da vida”. Mesmo seres unicelulares são reconhecidos como seres vivos pela ciência. Não há motivos pra acreditar que um bebê em formação, com toda sua complexidade desde os primeiros dias, não seja.

Além disso, o permanente desenvolvimento da ciência permite que fetos sobrevivam fora do corpo da mãe cada vez mais cedo. Vamos sempre correr o risco de legislações obsoletas permitirem que pequenos bebês sejam mortos por conta da lei não acompanhar a velocidade do desenvolvimento científico.

Outro ponto é que é impossível se precisar a idade gestacional na imensa maioria das gravidezes. Normalmente existem estimativas com uma ou duas semanas de aproximação. Logo, seria possível que muitas vezes o que assumimos legalmente ser um embrião sem direito a vida já seja um bebê com direitos constitucionais, por conta de um erro esperado no cálculo da semana gestacional.

Por fim, todos esses diferentes “pontos de transformação” são completamente arbitrários e é por isso que vemos tantas respostas diferentes de diferentes abortistas. Não podemos arriscar a vida de milhões de bebês por um simples erro de cálculo. Não vejo nenhuma outra situação em que sociedades civilizadas aceitem tal risco quando se trata de decidir quem vive e quem morre. Se temos qualquer dúvida sobre se um ser está vivo ou não, por questão de prudência, devemos considerar que está.

Sendo assim, quando vamos debater aborto, temos que primeiro avaliar em qual dos três grupos descritos está o abortista. Se ele se encontra no primeiro ou segundo grupo, ou seja, se acha que a vida de um recém-nascido ou de um bebê que está prestes a nascer deve depender da vontade da mãe, baseada em qualquer situação social ou de conveniência, então estaremos diante de um psicopata assassino e o debate não tem razão nenhuma de acontecer. Não se debate racionalmente com maníacos sociopatas.

Já se estamos lidando com abortistas do terceiro grupo, ou seja, pessoas comuns que podem estar somente desinformadas ou nunca refletiram sobre o assunto, então vale a pena usar esse guia e transformar o debate em algo mais objetivo e produtivo.

Não é uma questão de escolha, é uma questão de direito à vida. Não é sobre o útero, mas sobre a vida ímpar, singular, que se desenvolve dentro dele. Precisamos de mais razão e menos emoção nessa questão. Uma civilização mais educada sobre esse assunto é igual a vida de bebês inocentes sendo salvas todos os dias.

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  • Raphael Souza

    Caro Matheus, procure no facebook ou na internet em geral pelo Dr Helio Angotti Neto.

  • Marcelo

    Chegue tarde à discussão, mas “gostei” do nível da argumentação, especialmente a parte do “quem não concorda comigo é um psicopata assassino e um maníaco sociopata.”

  • J Paulo

    Sou à favor do aborto em alguns casos,sim (estupro, risco para a mãe) e acho um tanto antagônico quem se diz de direita, defensor da liberdade individual, estado mínimo, etc. se posicionar histericamente contra.

  • Stef, o caso do estupro é o mais complicado pela lei, definitivamente. Todavia, há casos e mais casos de pessoas que não abortaram e sobreviveram a isso. De toda forma, a perspectiva de adoção, ao invés de esquartejamento, parece nem sequer ser aventada pelos defensores da legalização.

  • Jean Gomes

    Os três artigos do professor Olavo sobre o aborto que estão no “Mínimo” para mim são inquestionáveis. A grande dúvida (e só por não haver um consenso, matar um ser que pode estar vivo ou não já é imoral e por isso, errado) no fundo é se o feto é ou não é um ser vivo. Sendo um ser vivo, é assassinato, ponto final. Claro, que aí vai entrar todo tipo de mentiras, como: a questão do desenvolvimento, sistema nervoso central, se é humano ou não e blábláblá, mas esses são argumentos tão deficientes e ridículos, que quem ler os três artigos, facilmente poderá derrubá-los.

    PS: Comece sempre perguntando ao seu oponente se essa pessoa já viu como é feito um aborto. Se ela dizer que não, convide-o a assistir. Se sim (e mesmo assim continuar a defender o aborto), mande a PQP e a trate como um monstro.

  • O caso 2 se encaixa numa “excludente de ilicitude”, o estado de necessidade (o clássico
    “furtou uma salsicha para comer” ou mesmo “disputou a tábua de salvação”). Eu acredito que é uma concessão válida, e de fato ficaria a cargo da gestante e do pai da criança (sim, os dois – claro, a última palavra seria da mãe, mas o pai também tem que dar sua opinião).

    De qualquer forma, você pode resumir com “esses casos já são previstos, e além disso são bastante raros”.

    O caso 3, basicamente você tem que derrotar a tese da “viabilidade”. Mas, resumindo muito: eugenia.

    Matar um feto com microcefalia é, em última análise, uma questão de eugenia. Você pode, por exemplo, apontar que na França é permitido abortar concepturos com Down (e que o governo pretende banir comerciais de crianças com Down, para evitar trigger warnings nas mulheres que fizeram isso).

    O caso 1, cara, é complicado. A resposta curta e grossa é simples: o concepturo gerado não é o culpado pelo crime de estupro, e ele não merece morrer em lugar do pai.

    • Mauricio Fleury da Silveira

      Quanto ao segundo caso, creio que haja um consenso entre nós, então esta posição está cedimentada; já as posições 1 e 3, tenho que discordar. Nunca devemo-nos ater simplesmente a fria letra da Lei. No caso do estupro, a criança carrega em si uma carga que pode ser grande demais para a mãe suportar. A criança não foi gereda pelo amor de duas pesoas e sim por um ato hediondo que por si só macula a concepcão. O filho será sempre uma lembrança dolorosa para mãe. Já na acefalia e micro-cefalia, não encaro como eugenia. Aa clássica definição de Galton, “o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente” pode nos remeter a 2 Grande Guerra e ao Lebensbaum nazista. Não é esse o enfoque que creio ser válido; vejo como uma forma de eliminarmos de vez por todas doenças há muito conhecidas e sem cura por serem “doenças genéticas”.

  • Bem, o Peter Kreeft tem um livro, em que ele descreve um diálogo entre Sócrates e três personagens, em diferentes estágios: um doutor, um professor e um psicólogo. Vou ver se compro e traduzo clandestinamente, haha!

    The Unaborted Socrates: A Dramatic Debate on the Issues Surrounding Abortion

    https://www.amazon.com/exec/obidos/ASIN/0877848106/theofficiapet-20

  • Henrique Moreira de Costa

    Adiciono: É inútil debater pontos periféricos como “clínicas clandestinas”, “SUS não daria conta” e afins pois os argumentos de ambos os lados partirão de premissas diferentes, logo, não faz sentido você argumentar com a premissa de que há vida e ele de que não há e é como uma tirar uma unha pois se as premissas fossem iguais vocês concordariam. Atenha-se ao “é vida x não é vida” e, se você não puder provar quando inicia a vida você, eticamente, está com a razão.

  • Ilbirs

    Talvez o lance seja ser bem gráfico, uma vez que palavras atenuam demais. É preciso que as pessoas vejam claramente como é que se faz um aborto e se horrorizem com isso:


    https://www.youtube.com/watch?v=iPyn2_Tdizs

    https://www.youtube.com/watch?v=Y4SBjCNYCgI

    Caso alguma pessoa não se horrorize com a morte de outra que estava sendo preparada no ventre, que esta passe a ser vista como um monstro moral e cúmplice disso. Tudo bem que sabemos que socialistas são cúmplices morais de coisas como esta:

    http://i.dailymail.co.uk/i/pix/2015/08/23/01/000BD06800000258-0-image-a-5_1440289192879.jpg

    http://1.bp.blogspot.com/-1nWSQlNW2vs/UU1GRVh5EtI/AAAAAAAAA-w/WF3wHlvgGYE/s1600/Skull-shelf.JPG

    http://endgenocide.org/wp-content/uploads/sites/4/2015/08/Cambodia-refugees-AP-600x.jpg

    http://khmer-rouge.weebly.com/uploads/2/1/7/2/21725064/296460597.jpg?910

    Também sabemos que eles sofreram tal grau de lavagem cerebral que poderemos ver casos de gente que sequer se sensibiliza quando mostramos exatamente o que eles estão defendendo. Novamente é necessário que façamos nossa parte ostracizando essas pessoas e que incentivemos o ostracismo tanto de esquerdistas que não se sensibilizam com isso como também os isentões do aborto que falam coisas como “ninguém é a favor do aborto, mas sim de sua legalização”, mas pôr no ostracismo mesmo e só voltar a ter contato com esse tipo de gente se eles puserem a mão na consciência e verem a atrocidade que defendiam.
    O aborto é uma das versões gramscistas do genocídio. Como sabemos, o marxismo cultural prega que o poder do partido seja invisível e, portanto, por analogia, o aborto é a modalidade oculta dessa barbaridade tão defendida como direito pelos discípulos da Escola de Frankfurt, uma vez que praticado longe das vistas das pessoas comuns como é o genocídio feito na via clássica de matar pessoas em câmara de gás, extenuadas por trabalho excessivo ou outras modalidades.

    Outra coisa que pode ser lembrada a um mundomelhorista da vida é o quanto que os revolucionários invertem as coisas quando uma determinada circunstância não mais lhes é útil. Vamos lembrar dos regimes comunistas clássicos proibindo qualquer tipo de aborto quando seus líderes notaram que isso estava reduzindo exércitos, força de trabalho e outras coisas essenciais que dependem de pessoas para serem feitas normalmente. Talvez o mundomelhorista não faça nexo e é aqui que vamos lembrar da função que as atrocidades têm para a implantação de um regime totalitário quando anestesiam o comum do povo. Aqui é que também vamos lembrar de que a leniência com a criminalidade comum tão típica de regimes gramscistas é também genocídio disfarçado e apoiado por aqueles que depois ficam bradando narrativas como “estão matando jovens negros e pobres”.
    Tudo bem que a parte do genocídio oculto por meio da violência cotidiana não contida é a mais difícil de explicar ao leigo tornado histérico por estar seduzido pelo canto de sereia dos psicopatas no poder, mas a parte do aborto é bem mais fácil justamente por haver conhecimentos bem visíveis a serem mostrados para que a pessoa tenha noção de o que aquilo que apoia causa. Resta a quem é contrário ao aborto perder os pudores de mostrar claramente aquilo em que consiste essa prática. Sequer é preciso explicar que uma pessoa é uma pessoa de sua concepção até sua morte, pois o chocante da coisa já diz tudo.

  • Nilton

    Otimo guia, Flavio saberia me informar onde posso encontrar argumentos cientificos sobre o aborto pois quando debato me deparo com os argumentos tipo a ciencia ja provou que o feto antes da terceira semana ainda nao e um ser humano.

    • Carlos Alberto Guedes Pereira

      Peça para quem argumenta que a ciência provou que exiba o estudo.

  • Felipe Flexa

    Eu desisti de debater este tema. Só respondo quando me perguntam e quando isso acontece, valho-me de Nelson Rodrigues: “Aborto é coisa de Jack, o estripador.” E mais não digo.

  • Fábio Villela

    Melhor argumento contra quem apoia aborto é pedir para que ele se aborte. Um grande favor para a humanidade.

  • Enéas Carneiro

    Muito bom. Esses dias conversei com um abortista que disse que a vida de um ser humano tem o mesmo valor de um animal qualquer, percebi que seria perda de tempo argumentar.

    • Pedro Rocha

      Eu digo apenas uma coisa para esse tipo de psicopata: não use antibióticos, já que a vida dele vale tanto quanto a de uma bactéria.

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