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Na Discussão Musical Brasileira, a MPB está sob revisionismo, relevando-se que não era a unanimidade que se imaginava. Afinal, o que é MPB?

“Não usar a sigla MPB em hipótese alguma”: este foi o recado deixado pelo escritor e biógrafo Ruy Castro para o editor de uma revista que o contratou para escrever sobre música brasileira. Não posso dizer com certeza o que motivou o autor de Chega de Saudade – a história e as histórias da bossa nova a se preocupar com detalhe aparentemente tão insignificante, mas posso imaginar. Então imaginemos.

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Quando foi criada, em meados da década de 60, a sigla tinha um significado definido: era, basicamente, a música que se fazia na casa dos pais da Nara Leão. Jovem da classe média-alta carioca, Nara promovia festas no famoso apartamento do edifício “Champs-Elysées” em Copacabana. Entre uma  bebericada de tequila sunrise e um flerte com um broto, cantava-se bossa nova, sambas e canções com influência de ritmos regionais brasileiros. Sempre com letras cheias de críticas sociais foda, claro. Ali nascia a MPB.

Artistas da Zona Sul, filhinhos de papai, socialistas, prédio com nome de bairro de Paris, música engajada… talvez esteja aí o motivo pelo qual conservadores e liberais xinguem muito no twitter só de ouvir falar no gênero, frequentemente associado à esquerda universitária. Já foi mesmo, a ponto de organizarem uma passeata contra a guitarra elétrica em 1967 (Sério! Olha lá a foto que ilustra este artigo). Porém, pouco depois, a MPB já abarcava coisas tão diversas quanto Mutantes e Tom Jobim, Raul Seixas e Paulinho da Viola, Odair José e Ernesto Nazareth. Hoje, então, a coisa degringolou:  cantou em português e não é fado, já é MPB. O resultado disso é que, assim como aconteceu com a palavra “fascista”, o significado da sigla ficou tão amplo que esvaziou-se de sentido. Então, conservador amigo, dá o dedinho aqui e vem fazer as pazes com a música brasileira que o tio vai ficar feliz. Tem pra todos os gostos.

Toca Raul

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ABRE PARÊNTESE:

Recentemente a facebookosfera entrou em mais uma das suas profundas discussões do tipo “biscoito ou bolacha”, daquelas que duram um dia mas dão a impressão que vão mudar os destinos de todas as humanidades do universo: seria a música popular de Cartola, Noel Rosa e Radamés Gnattali, inferior à música erudita de Villa-Lobos, Carlos Gomes e Camargo Guarnieri? Como diz a velha máxima: música, só vendo. Então ouçam com seus próprios olhos e me digam o que acham. Uma dica para o caso de você ser do século passado como eu: tem links nos nomes dos compositores.

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Comparar música popular e erudita é como comparar um prato de bife à milanesa da sua avó com outro de vieiras desidratadas sobre creme de agrião ao molho de tinta de lula do René Redzepi. Ambos são feitos para comer, mas cada um tem funções espirituais completamente diferentes. Enquanto um nos leva ao que há de mais transcendente, outro nos aproxima do que temos de mais íntimo. O Addagietto da 5ª Sinfonia de Mahler pode revelar outra dimensão da existência. Mas só um sujeito desdentado cantando “tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com minha dor” vai produzir o efeito emocional que ajudará você a passar por aquele pé na bunda sem pensar em arrancar os próprios olhos com uma navalha cega.

Diz a lenda que uma vez levaram Villa-Lobos pra conhecer a música do morro. A certa altura alguém gritou: “Cartola, toca um sambinha seu aí”. Villa-Lobos ouve a canção em silêncio e, quando o sambista termina, dispara: “Tá tudo errado, mas tá maravilhoso”. Villa-Lobos era um cara legal.

Como bem disse Tom Martins, também colunista deste Senso Incomum: “Enquanto o conservador brasileiro desdenha do samba, do choro e da bossa nova, o conservador americano coloca “Wave” na lista de standards eternos do jazz. Não conheço conservadores americanos desdenhando do blues por acharem que BB King, Robert Johnson e Muddy Waters não são gênios.”

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Tom Martins sobre samba e blues

Concordo que a palavra “gênio” é usada sem muito critério. Parafraseando Ariano Suassuna, a mesma palavra não pode definir o sujeito que faz uma sinfonia, uma piadinha na internet, a Pietá ou um funk ostentação. Mas há critérios objetivos para diferenciar música popular mal feita da música popular sofisticada. Aposto que ninguém vai negar que a distância artística entre Cartola e Villa-Lobos é bem menor do que entre qualquer um dos dois e Chimbinha. Se bem que…

É evidente que boa parte da música brasileira é chata pra cacete, rasa, metida a chique e não tem nada de genial – especialmente o tipo que faz sucesso nos barzinhos onde um sujeito com cara de uspiano toca aquele repertório Anacarolinavercillogonzaguinhaloshermanos. Mas como definir Nazareth, Gnattali, Jobim, Cartola, Noel senão como gênios? Não fossem indivíduos com extraordinárias capacidades intelectuais, notadamente as que se manifestam em atividades artísticas (valeu, Houaiss!), tropeçaríamos em similares por aí. A única diferença entre eles e os eruditos é que, enquanto uns produzem  alta cultura, os outros produzem cultura popular. Genialmente.

Diferente das artes plásticas, onde a técnica se perdeu e qualquer pote de merda é considerado arte, ainda há como separar, na música, o que é popularesco do que é sofisticado. Algo parecido acontece no cinema e na literatura onde alguma técnica é imprescindível. Um grande problema da direita, e que a esquerda sabe explorar muito bem, é o desdém pela cultura pop (leiam The Crisis in the Arts: Why the Left Owns the Culture and How Conservatives can Begin to Take it Back do Andrew Klavan, pfv!)

Quem me indicou este livro, aliás, foi Alexandre Borges, que escreveu um texto sensacional defendendo que a música “Não deixe o Samba Morrer” é na verdade um hino conservador. Entre outras coisas diz: “temos que separar a legítima reverência pela alta cultura ocidental, da qual o Brasil é um contribuinte pouco relevante, de um elitismo afetado e incapaz de enxergar méritos, quando existem, na cultura popular”.  Eu não resumiria melhor meu ponto.

A cultura pop bem feita pode levar o sujeito comum à alta cultura. Quantos moleques não foram estudar mitologia através do Star Wars ou Senhor dos Anéis? Quantos não chegaram à grande literatura através de gibis ou desenhos animados? Eu fui um. Alguém disse recentemente que, enquanto o Omelete for o site de cultura pop mais lido do Brasil, não vamos chegar muito longe. É verdade.

Tem coisa boa sendo feita por aí que não foi sequestrada pela leirouanetização das artes. Precisamos de um “Omelete” feito por pessoas com nossos valores, afinal, um deles é não passar a vida falando sobre política. Tentarei fazer isso aqui como colunista do Senso, mostrando um pouco do que está sendo produzido, mas fica escondido aí nas internétes da vida. Então tira esse pince-nez, afrouxa a gravata e vem tomar um sol aqui na cultura pop. O Chesterton não vai fugir da sua estante.

FECHA PARÊNTESE

Uncle Sam - We need you!

Epílogo

Sempre achei uma bobagem essa coisa de dizer que há um gênero musical superior. Não porque ache que não há arte superior (claro que há, ora porra!). Minha implicância é que o gênero descreve uma parte muito pequena da obra musical. Mas, vá lá!, se o sujeito diz não gostar de samba, de mambo, de house ou hip-hop, ainda podemos delimitar esses estilos de uma forma mais concreta. Mas e a MPB? Da forma como é entendida hoje significa, para alguns, aquela estética USP-barzinho. Pra outros, praticamente toda a música popular ocidental cantada em português. É exatamente por isso que eu sugeriria, assim como Ruy Castro para o seu editor: “não usar a sigla MPB em hipótese alguma”. Nem pra defender, nem para atacar. Música popular brasileira é do balacobaco. MPB é uma merda.

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  • Geraldo Etchverry

    Li esse texto ouvindo um disco de Zé Rodrix se 1973.

  • Ao que tudo indica dá pra ler o texto do Andrew Klavan aqui: http://www.frontpagemag.com/fpm/217934/crisis-arts-frontpagemagcom ou ao menos parte dele.

  • Jean Carlos

    Sensacional!

  • Carlocarlus

    MPB ou música popular, a verdade é que a qualidade foi lá prá baixo. E não há nada de bom escondido por aí não.

    • Filipe Trielli

      Isso aqui é só o que peguei de bate-pronto. Não sei qual seu estilo de música preferido. Mas tem sim. Só não é muito fácil de encontrar. Todas essas são composições novas de autores vivos. Abs

      Alexandre Mihanovich e Soundscape:

      Spok Frevo:

      Nailor Proveta:

      Rhaissa Bittar (um jabazinho não faz mal a ninguém)

      O Terno

      Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz

  • Bernardo Coimbra

    Filipe, permita-me discordar. Do que eu tinha aprendido na época que eu era mais ligado com música (coisa de uns 8-9 anos atrás), a MPB nasceu e dizia respeito, especificamente, às músicas dos grandes festivais de música da década de 60, como aquelas compostas por Vandré, Chico Buarque, Jair Rodrigues etc. Alguns músicos ao longo do texto pertencem a movimentos mais bem delineados, como a Tropicália (Gil, Caetano), a bossa-nova (Tom, Vinicius, João Gilberto), o samba (Cartola, Noel), choro (Nazareth) e até rock (Raul, Mutantes).

    Mesmo os próprios caras que são a cara e a alma da MPB, como o Chico, circulam muito bem por vários estilos brasileiros. “A Banda” é uma marcha, “Contrução” é uma bossa-nova, “Meu Caro Amigo” é um choro, “Apesar de Você” é um samba etc.

    • Filipe Trielli

      Sim, como eu disse, ela foi mudando o sentido. Os festivais são um pouco posteriores à criação da sigla que veio ainda na segunda fase da bossa nova. E o meu ponto é exatamente este: pode olhar que hoje o Tropicalismo, o samba e o rock são incluídos na MPB então a discussão acontece no vazio. Às vezes um lado está falando de uma coisa e outro de outra. Na verdade a gente concorda.

  • Felipe Martins

    Juro que achei que você fosse escrever sobre Chico Buarque, Geraldo Azevedo, Caetano e Bethânia, e fazer um contraponto com Thiago Iorc, Filipe Catto, Tulipa Ruiz e Céu, mas preferiu enveredar por outro caminho, com Jorge Vercilo e Ana Carolina, que, a meu ver, foi abrangente demais.

    MPB, enquanto definição de gênero musical, sofre o mesmo que o sertanejo, que depois de Milionário e José Rico, abriu as portas para que o brega romântico de Zezé di Camargo fosse “sertanejo” só porque um dia eles cantaram menino da porteira. Então, qualquer dupla que aparecia no Faustão, era sertanejo. A tempo, não considero ‘sertanejo universitário’ nada além de mercado.

    “Diferente das artes plásticas, onde a técnica se perdeu e qualquer pote de merda é considerado arte, ainda há como separar, na música, o que é popularesco do que é sofisticado.”

    Peralá, e a técnica não se perdeu na música não? Tem certeza? Dentre os nobres colegas que apreciam rock pesado, não existe quem defina os guitarristas como “virtuosos” ou “fritadores”? Ou seja, basta eu fazer esse solo num shape whatever de pentatônica, em 180bpm, que eu sou o fuckin rei do rock. E não tem quem diga que virtuosismo demais é um pé-no-saco?

    Essa questão do famoso pote de fezes do Manzoni (reflexo da “Fonte” do nosso amigo Marcel Duchamp) é a eterna questão do “sexo dos anjos”. Há quem considere arte porque “propôs reflexão, catarse e tem senso estético” – afinal, era uma latinha no mínimo curiosa. A minha crítica à arte “reflexiva demais” é que acabou perdendo as rédeas (mas arte tem rédeas – ou regras?). A obra de arte é manifestação da expressão do artista, mas eu sempre considerei que ela só se completa quando há fruição pelo público. Se não sucinta nada em ninguém… fica difícil, né?

    Ou então, se arte só é arte se vier nos moldes de consumo mais fácil ou o que vende mais porque tem mais público, então funk é uma tremenda arte porque vende muito mais que muito erudito (não, não acho funk arte – mas considero bem artístico muita coisa eletrônica).

    Sobre a tal “lei ruanetização”, bem se vamos entrar no mérito do mecenato, ou da mercantilização, cabe outro artigo para que eu entenda o que você pensa.

    Por fim, acho uma besteira separar arte em “direita x esquerda” – mais uma das pobrezas que é o legado da polarização política do país.

  • Bruno Moraes

    Caraca, adorei esse texto!!!! Concordo com cada vírgula! Fora o alívio que dá em ler uma crítica mais amena, ao invés das costumeiras… Leio o Senso Incomum por obrigação (e todos deveriam ler), mas pegar uma publicação como esta (com palavrões mais bem colocados dos que o do Olavo, kkkk), é sempre bom. Até quando a gente critica, música alivia a dor da alma.

  • Pedro Rocha

    Salvo engano, foi André Rieu quem fez uma definição interessante sobre a música, afirmando que não existe música erudita nem música popular, mas música de bom e de mau gosto!

    Particularmente concordo com essa definição, pois muitos estilos que hoje são considerados “clássicos” ou “eruditos” nem por deixam de ser ou ter sido populares. O chorinho, por exemplo, é visto hoje como um estilo musical “refinado” mas era o “som do barzinho” no começo do século passado.

  • F3N

    Pra mim MPB significa MÚSICA PESADA BRASILEIRA, tipo Sepultura.

  • jorge santos

    Texto muito bom. E Ximbinha ganhou o meu respeito!

  • Que artigo BOM! Que estreia sensacional Filipe Trielli! 😀

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