O assassinato do embaixador Andrei Karlov na Turquia demandará respostas da Rússia. Pode o caso ser o de um Franz Ferdinand do século XXI?

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As relações entre Vladimir Putin e o instável ditador turco Recep Tayyip Erdoğan vinham se esfarelado desde antes do avião russo abatido pela Turquia em novembro de 2015. Erdoğan, até mesmo pela posição de rota comercial unindo três continentes que seu país possui, é um ponto de encontro entre Ocidente e Oriente. A ambivalência cultural de seu país é massacrada por uma ambivalência moral de seu ditador.

Quando o avião russo foi derrubado pelo exército da Turquia, os ânimos entre Recep Erdoğan e Vladimir Putin foram contidos com rapidez impressionante.

O caso mais claro foi o auto-golpe aplicado por Erdoğan para tentar ser plenipotenciário no seu governo: o ditador turco costuma chamar Putin de “degerli dostum” (meu valioso amigo), e Putin foi o primeiro a ligar para Erdoğan. O chefe do exército russo fez a primeira visita à Turquia em 11 anos. O Grupo Perincek, com muitos seguidores nas Forças Armadas e na burocracia, é pró-Rússia, e foi o principal responsável por cindir o exército e evitar o golpe que tiraria Erdoğan do poder. O cenário continuou razoavelmente inalterado: Erdoğan continua inatacável graças ao apoio russo. Sem ele, islâmicos, místicos, cristãos e seculares já o teriam apeado do poder.

Na ocasião, Recep Erdoğan culpou seus arqui-inimigos, os gulenistas, seguidores de Fetullah Gülen, que são considerados “secularistas” no Estado turco. O ditador afirma, na tipica retórica conspiracionista de países de Terceiro Mundo, que o movimento é financiado pela CIA. Essa é a desinformação dos canais oficiais que é acreditada como factual por boa parte dos apoiadores de Erdoğan.

Sem surpresa, foram exatamente os mesmos que foram culpados hoje pelas agências de desinformação turcas, quando o embaixador russo Andrei Karlov foi assassinado diante de câmeras por Mevlut Mert Altintas, membro da Polícia Nacional Turca. A Reuters foi a primeira a divulgar que autoridades tucas consideravam que o assassino do embaixador russo era ligado à rede de operações do Gülen, que – como sempre reafirmam – seria financiada por americanos.

Cumprindo bem o seu papel de desinformação, e sempre eufemizando fatos a favor de ditaduras, a informação sai sem fonte no UOL, sem afirmação de que é a teoria da conspiração de um Estado totalitário e violento que manda prender jornalistas. Lendo sua manchete (e mesmo seu texto faltando exatamente as palavras principais para entendimento), tem-se a impressão de que o financiamento ocidental do atentado é um fato, e não a desculpa do governo:

Putin e Erdoğan esfriaram muito as relações desde então, sobretudo nos dois últimos meses. Mais uma vez, como quase tudo o que significa guerra no mundo atual, a razão principal é a Síria. A Turquia, membro da OTAN, apóia grupos rebeldes na Síria, enquanto a Rússia fica do mesmo lado do Irã, apoiando o regime de Bashar al-Assad.

Em uma cisão ainda mais complexa, Erdoğan passou a última década como Primeiro Ministro flertando com a idéia de a Turquia entrar de vez na União Européia. Para tal, precisaria se adequar a paradigmas mais transparentes de eleições, direitos humanos e diversos outros contrapesos ao poder aos quais o atual ditador turco não pretende se submeter.

Em face do cenário de guerra nas suas fronteiras, e sabendo que a Turquia é, literalmente, a porta de entrada do Estado Islâmico na Síria (a maior parte dos combatentes chega à Síria pelo aeroporto de Ankara, posteriormente cruzando a fronteira entre os dois países), Erdoğan sente a pressão dos dois lados, mas parece indigesto estando no poder apenas pelos desejos de Vladimir Putin.

Conforme foi explicado pelo podcast Xadrez Verbal (episódio #76: Itália, República Centro-Africana e Europa), a Rússia pretende criar uma espécie de federalização na Síria, como já fez outrora com a Bósnia e seus conflitos étnicos-religiosos. Enquanto a Rússia pretende fortalecer a autonomia dos curdos, Erdoğan enxerga o perigo ao seu projeto de poder, com o exemplo dos ditadores que caíram na Primavera Árabe.

É o mesmo conflito que colocou Putin em rota de choque com a política externa de Hillary Clinton, Secretária de Estado de Barack Obama e que poderia se tornar presidente: Hillary fez a América dar apoio aos rebeldes contrários a Bashar al-Assad, ditador que já foi vigiado de perto pela América, mas que Hillary, ao ver a oportunidade no efeito dominó da Primavera Árabe, quis derrubar. Putin, antevendo muito mais do que a visão cor de rosa de Hillary, preferiu apoiar Assad, percebendo que os rebeldes salafistas da Síria eram ainda piores na imposição da shari’ah do que a Irmandade Muçulmana que derrubou Mubarak no Egito (um esquema profundamente simples foi apresentado por Nassim Nicholas Taleb em seu Medium).

Guerra na Síria resumida, por Nassim Nicholas Taleb

Putin manobra seus exércitos no tabuleiro geopolítico tendo a mudança de administração americana em mente. Com a saída de Barack Obama, o provável é que Donald Trump pare de alimentar exércitos salafistas que tornaram um dos lugares mais ricos do mundo em um genocídio só comparável aos horrores do Holodomor, do Khmer Vermelho e da revolução maoísta, o que nem os nazistas conseguiram fazer. É graças a essa negociação que o Ocidente afirma que Trump é “amigo” de Putin, ou mesmo que seria uma “marionete” do neo-czar.

Contudo, ao contrário do esperado para lados tão opostos em um conflito militar, Erdoğan e Putin parecem muito mais dispostos a uma resolução pacífica. Assim como no auto-golpe, Putin já ligou para Erdoğan e pediu uma reunião de emergência com seu ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov. Ambos alinharam a retórica para afirmar que foi um atentado feito para azedar a relação entre os dois países, podendo culpar a América, os adversários de Erdoğan e o Ocidente, eternos bodes expiatórios de ditadores. O atentado ocorre um dia antes de uma reunião conjunta entre Irã, Turquia e Rússia sobre a guerra civil síria.

A Turquia já sofre sanções impostas pela Rússia graças ao acidente com seu caça, e a tensão aumentou nas duas últimas semanas com o deslocamento de mais tropas russas do Mar Báltico para o Mediterrâneo, o que poderia fazer com que o país acionasse a OTAN – criada, justamente, para enfrentar a então União Soviética. Mas quem na OTAN compraria uma briga com a Rússia pela Turquia? Ainda mais países enfrentando as ondas imigratórias partindo da junção entre Europa, Ásia e África, como a Polônia ou a Hungria.

Juridicamente, tampouco é uma situação de ataque à Turquia, mesmo que a Rússia quisesse responder ao assassinato com ações militares: o conflito foi provocado pela Turquia, não se encaixando como uma situação de defesa. O mesmo dispositivo da OTAN já foi invocado na Guerra das Falklands, quando a Inglaterra atacou a Argentina sem obter o suporte dos demais países-membros.

Muito provavelmente, Putin aumentará as sanções já impostas à Turquia, além de tentar negociar seu poder de ação na Síria (ou mesmo no conflito entre Armênia e Azerbaijão, que, como lembrou o Xadrez Verbal, também coloca Turquia e Rússia em lados opostos). O discurso de ambos, quando bem afiado, quase certamente colocará o atentado na conta de um “lobo solitário”.

A Rússia também está em vias de obter acordos mais favoráveis com o Ocidente, ao diminuir a escalada de conflitos que fez analistas ocidentais e eurasianos considerarem o risco de uma Terceira Guerra Mundial. Seria improvável voltarem a uma estaca zero graças à Turquia – e a amostra de poder de fogo não funciona bem como carta na manga quanto à América e Europa Ocidental.

Vladimir Putin, homem muito mais inteligente e bem informado do que os comuns-mortais, não agiria como mero autômato reativo, quando até sua sombra se move sem gratuidade nenhuma. No cenário atual, que pode mudar a qualquer momento, quem pagará o preço de um muçulmano gritando “Allahu akbar!” diante do Ocidente, enquanto é chamado de secular pelo governo turco com anuência do UOL (sic), serão os sírios no fogo cruzado entre rebeldes salafistas insurgentes e o exército de Assad, com genocidas enfrentando armas químicas, e nenhum respeito por civis no meio do caminho.

Todavia, fica justamente a reflexão: como seria tal ato entendido, sendo um ato de guerra para qualquer país normal no mundo (o que não inclui a OTAN do século XXI), se Hillary Clinton tivesse ganhado as eleições americanas? Seu projeto de interferência total na Síria mudaria completamente a visão de Vladimir Putin, como já explicamos, forçando uma movimentação militar intensa entre Síria e Turquia, em uma guerra em cenário apocalíptico que transformaria Andrei Karlov no Franz Ferdinand do século XXI.

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com colaboração de Filipe Martins e Filipe Figueiredo, do podcast Xadrez Verbal.

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