O PT se pinta como um partido dos excluídos, e o único motivo para alguém criticá-lo é ser rico e não gostar de pobre. Nada mais mentiroso.

Esta é a era dos memes, conceito de Richard Dawkins que define idéias, comportamentos ou estilos transmitidos em uma cultura por meio da memetização (imitação). Adicione a isto a rapidez dos 140 caracteres, RT e curtir, e a política passa de alguma tentativa rudimentar de argumentação para a pura “lacração”: repete-se roboticamente bordões e slogans vindos de autoridades e acredita-se que se venceu uma discussão, invocando-se o pertencimento a um grupelho. O clichê a ser repetido acerebradamente pela militância do PT, o partido de Lula, é o mais cacete: “a casa grande surta quando a senzala ganha poder”. Like, RT, voilà!

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Há evidentemente a confusão diabólica do anacronismo: a sociedade brasileira não tem sua economia definida por casas grandes e senzalas há praticamente 2 séculos, e eventos posteriores, como a imigração de japoneses, italianos e alemães que vieram substituir escravos, não permitem que a velha redução à “seqüelas da escravidão” convença alguém para explicar qualquer discrepância econômica do Brasil atual.

O referencial está não apenas 2 séculos atrasado: a história já até mesmo inverteu alguns dos personagens neste tempo.

Mas o erro maior é existencial. O que o PT pretende, ainda, é resgatar a velha e mofada teoria de “luta de classes” do marxismo ortodoxo e dar a realidade toda por explicada. Em um país desproporcionalmente assolado por um Estado gigante, populismo, corporativismo, conchavos entre público e privado, clientelismo, assistencialismo, corrupção e uma noção de realidade mais periférica do que o Sri Lanka, apostar na dinâmica fácil de digerir (e repetir em 140 caracteres) da Casa Grande & Senzala é apenas um bordão mais chato e sem sentido do que refrão de música emo.

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Com sua referência anacrônica, o PT tenta se pintar como um partido de pobres, de explorados, de oprimidos, dos grandes coitados injustiçados históricos da nação. Todos os seus adversários e inimigos seriam tão somente ricaços, a elite exploradora, os feitores e malfeitores.

Ninguém desgostaria do PT devido ao mensalão, à diminuição da liberdade de expressão, à torrefação de dinheiro público, ao petrolão, ao BNDES tirando dinheiro do pobre para dar para o empresário que paga dívida de campanha, Pasadena, Friboi, desemprego, inflação, Toninho do PT, roubos, triplex, sítio, Celso Daniel, nada.

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único motivo para alguém não gostar do PT, de Lula, de Dilma ou, sei lá, de Maria do Rosário ou do petrolão seria essa pessoa ser trilhardária, e o PT ser tão bom, mas tão bom que faz os pobres ficarem ricos (realidade que ninguém vê fora dos discursos petistas), e os ricos, por uma malvadeza horrenda, não gostarem de que pobres enriqueçam, preferindo que eles não tomem banho, os assaltem e ouçam funk alto.

Petistas precisam acreditar em tal estultice, ou seu discurso cai por terra. Mas há um adicional cruel a tal descoco: a maioria dos petistas é ricaNão é o partido dos pobres: é dos atores da Globo (tratada como “direitista” pelo PT), dos artistas Rouanet, dos empresários BNDES, dos professores de Universidades top que falam em “revolução operária” e fazem Jornalismo, Psicologia e Desenho Industrial.

Ou seja: eles são os ricos com “consciência social”. Já todos os outros ricos do país são malvados que, por algum buraco negro econômico, lucram explorando os pobres (o que eles próprios, misteriosamente, nunca fazem).

Tal nequice existencial gera a mais bizarra falha estrutural que já existiu na política brasileira.

Marilena Chaui odeia a classe média. Salário na USP. R$ 15 milO PT pode até ter um passado remoto de alguma pobreza. É um partido de sindicatos, que cresceu como alternativa ao velho PCB na ditadura fazendo greves. Tem sua ala trotskysta, sua ala maoísta, os velhos guerrilheiros. E cresceu pelo modelo do sindicalismo político (modelo mais próximo do fascismo do que do socialismo), unindo sindicalistas à Teologia da Libertação e à esquerda da USP.

Mas isto foi só sua “era romântica”, de guerrilheiros que queriam fumar charutos cubanos. O PT cresceu mesmo atrás de lideranças sindicalistas que falam cuspindo como Lula, Gushiken e Berzoini. O PT é mais Suplicy do que Okamotto, é mais Hoffmann do que Vicentinho, é mais Haddad do que Benedita. Experimentar ouvir seus sobrenomes no original não tem nada de “Silva” e “Santos”, é tudo bem europeu puro-sangue: Salvatti, Hoffmann, Rossi, Palocci, Rousseff.

Petistas hoje são universitários, concurseiros buscando cargos bem remunerados, empresários do “capitalismo social”, jornalistas poderosíssimos com grande trânsito na grande e velha mídia e, claro, empreiteiros, banqueiros, frigorifeiros e petroleiros afins. Pobre anda em desespero com a falta de segurança e a roubalheira e prefere Jair Bolsonaro dizendo que bandido bom é bandido morto ao dilmês hermético para falar de cachorro atrás saudando a mandioca.

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Pobre, que tem uma vida com muito maior percentual de urgência, quer solução para seus problemas, não firula ideológica de “transfobia”, “aborto contra o patriarcado”, “legalizar as drogas” e “educação socio-construtivista”. Se Lula conseguia convencer alguém com um discurso populista de greve transformado em Fome Zero (e depois do fracasso retumbante, em Bolsa Família), o aumento artificial de crédito e gasto é sempre um moinho de vento, que explode na forma de inflação e impostos depois.

O pobre hoje é mais anti-petista do que qualquer mauricinho filhinho de papai que sonha em ser youtuber de sucesso: o pobre é Deus, polícia e moralidade ainda mais rígida do que a de ricos urbanos no Jardim de Epicuro. Quem se identifica com o PT adora um discurso a favor de pobre, mas prefere vê-los no zoológico ou num filme da Anna Muylaert numa sala cult na Rua Augusta – não feliz por que o filho que canta no coral da igreja vai casar e entrar na faculdade de Contabilidade.

Não se trata apenas de uma refração ou inversão ótica: trata-se da própria estrutura da sociedade.

Os ricos intelectuais da USP que apoiaram os sindicalistas metalúrgicos, bancários e professores que fundaram o PT queriam uma sociedade não mais movida pelo empreendedorismo e moral capitalista, mas pela força do sindicalismo socialista. Hoje, os sindicalistas já estão no poder há mais de uma década: e ser sindicalista atualmente, nestes ricos sindicatos que dão poder político, significa ser rico e poderoso. Bem mais do que aquele empresário que abriu uma pizzaria na periferia.

Petistas querem uma sociedade em que metalúrgicos enriqueçam, e essa sociedade já é a atual. O problema é que, para transferir dinheiro para sindicatos (e BNDES, e Rouanet, e Bolsa-Blogueiro, e petrodólar para comprar o deputado do meião etc), o empreendedor é sufocado com impostos. Além de ideologia, hegemonia cultural, música do Tico Santa Cruz, textão da Eliane Brum e daí para baixo.

Lula, que fala que é um homem da “senzala” (Lula é negro?), diz que a “casa grande” não gosta dele. Seria mais sensato dizer que é o pobre que escapa da ideologia do reducionismo petista. O pobre que mais vive a realidade.

Sérgio Moro decretou o congelamento de R$ 600 mil de Lula. Petistas imediatamente apareceram para gritar que Moro, este “golpista tucano”, estava deixando Lula sem dinheiro para suas necessidades mais básicas. Logo a seguir, vem a notícia de que Moro também bloqueou R$ 9 milhões de Lula (sic) em um plano de previdência privada. Primeiro, vê-se a hipocrisia cheia de eufemismos e hipérboles (e nunca descrição fria) dos petistas. Segundo, que “classe média” e empresário e empreendedor individual e pai de família cristão heterossexual conservador coxinha por aí tem R$ 9 milhões só a receber, líquido? Mesmo R$ 600 mil?

Não era o Lula que, anteontem mesmo, estava dizendo que só existe corrupção graças ao setor privado, que só o Estado – ele, a “senzala” –  sabe fazer as coisas? E logo Lula tem R$ 9 milhões a sacar em um plano de previdência… privado?

O PT quer uma sociedade em que os amigos do rei tenham poder, e os que compram qualquer ideologiazinha de cota e promessa de sexo livre aplaudirão bovinoidemente. O problema é que precisam tirar o Nike Shox e falar mais contra bandido ferrando a vida do pobre honesto em bairro violento se quiser bancar o “pobrista”.

Afinal, as pessoas honestas preferem uma sociedade em que o trabalho honesto tenha recompensa, a família seja protegida, a liberdade seja sagrada e a riqueza caminhe com a moralidade. Uma sociedade em que o trabalho seja recompensado, que haja possibilidade de empreendedorismo e investimento que recompense e que a riqueza seja produzida, não tomada à força de outrem. O que é basicamente o oposto do sindicalismo.

Em tempo: Gilbero Freyre, autor de Casa Grande & Senzala, nunca desculpou o Brasil atual pelo passado, e era um sociólogo conservador. Seria interessante que petistas lessem o livro, ao invés de só citar seu título.

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  • Rafael Nascimento

    Esses 9mi ainda é dinheiro de troco. Esse barbudo deve ter no mínimo uns 100 milhões por aí. Basta ver o valor das obras financiadas no exterior.

  • Carlos Caramujo

    Acho que “triliardária” seria “trilhardária”, não? No mais, flawless victory.

    • Ops! Falha nossa, o responsável já está sendo torturado com óleo fervente em nossas masmorras! Muito obrigado pela correção!

  • TheDigosin .

    Eliane Brum encara perfeitamente o estereótipo de riquinha com consciência social. Alega que ser branco é um crime em razão da miséria do negro. Alega que tudo oque os brancos possuem hoje são frutos de roubo de outras etnias no passado. Ou seja, ela assume que possui bens que são frutos de roubo e ainda assim não se dispõe a devolver, diz que ser branco é um crime, mas não esta disposta a cometer suicídio pra melhorar a vida do negro. O arquétipo do socialista, cheio da grana e querendo fazer política social com o dinheiro dos outros. Essa do branco defensor do preto, o homem feminista, o super hétero defensor dos gays não passa de pura vaidade. Pessoas como Eliane Brum só querem atenção e ter o ego de engajadinha inflado, estão verdadeiramente cagando e andando pras minorias que dizem defender.

  • Kaio Cavalcante

    Uma ONGG contraria o princípio da não-contradição. Como é possível que uma coisa seja não-governamental e governamental simultaneamente? kk

  • “É um partido de sindicatos, que cresceu como alternativa ao velho PCB na ditadura fazendo greves.”

    No Estado Novo?

  • Fábio Lavratti

    Como é que o Lula explica a corrupção em Cuba?

  • Jonny Hawkye

    Volto a dizer o que sempre digo em vários blogs:
    NUNCA CONHECI UM PETISTA POBRE!
    Ou são ricos ou são de classe média alta! Todos os petista que conheci são médicos, engenheiros, professores (do estado ou de faculdade federal), músicos bem sucedidos (mamando em orquestras federais ou com a Lei Rouanet) e empresários de empresas medianas ou grandes! Falo isso há 20 anos. Uma vez disse a um médico porque ele era petista (pois ele era muito rico) e ele me disse: porque sou trabalhador explorado! Se um médico pensa assim, imagina esses militantes de faculdade.

  • Le Zuero

    Nunca senti tanta vontade de voltar pra senzala.

  • Guilherme Molnar Castro

    Só uma correção: a cifra de “~15 MIL” do salário da Sra. ‘eu odeio a classe média’ Chauí já está na casa dos ~25 MIL. Dá pra ver no portal de transparência da USP: https://uspdigital.usp.br/portaltransparencia/portaltransparenciaListar
    Os super salários da USP dão uma boa pauta pra artigo. Principalmente dos diretores do SINTUSP, técnicos administrativos com salários de 7 mil, técnicos de informática ganhando 10 mil, e por ai vai. Falam em “sucateamento da universidade” quando na verdade o que a deixa no vermelho são justamente esses salários de marajá que engessam o orçamento e a impedem de contratar mão de obra qualificada e com um salário justo.

  • Luiz Nascimento

    O PT convence o povinho, não pela ideologia, mas por prometer “benefícios grátis”, sem dor, sem trabalho!

    • Jonny Hawkye

      Perfeito! A velha história de “prestação a perder de vista” sem “aumento de salário!”

    • Isildur Bagual

      Esse é um dos meios. Porém acho que vai muito além desses “beneficios grátis”. A esquerda sempre foi muito mais romântica do que a direita. É mais simples intruduzir uma ideia de esquerda do que uma de direita.

      Eu comparo com a venda de um carro. Nenhum vendedor consegue vender um carro dizendo para o interessado que o carro tem uma desvalorização de tantos porcento ao ano, que o seguro custa tanto, que a pessoa vai fazer um investimento de tantos mil para usar o bem em apenas 4% do seu tempo na média. No entanto, se o vendedor vender “um sonho”, uma ideia, uma sensação, será muito mais fácil pois ele estará vendendo um conceito abstrato ou um recorte de realidade que, na média dos ideais, é aproximado a perfeição.

      No caso da direita, diga a um individuo que ele vai ter que estudar vários anos de sua vida, se aperfeiçoar, trabalhar enquanto estuda, acordar cedo, dormir tarde, etc, etc e etc. para conseguir um lugarzinho ao sol… E olhe que ainda assim nem há garantia de que esse lugarzinho ao sol é certo…

      Agora venda a ideia de que tem alguém que está te usurpando, crescendo nas custas do teu trabalho e que você está gerando riqueza para essa pessoa que nada faz. Venda a ideia de que tudo isso é injusto e há uma grande conspiração mundial para você ser explorado pelo resto de sua vida sem que você tenha chance de ascender na sociedade. Venda a ideia de que a pessoa é uma pobre coitada vitima de uma sociedade que não tem a intenção que ela cresça para poder usurpá-la pelo resto de sua vida. Venda a ideia de que isso não é justo e um mundo melhor seria possivel com a distribuição igualitária da riqueza…

      Percebesse uma diferença ululante entre vender a ideia da meritocracia e a ideia de direito conquistado sem nenhum esforço.

      • TheDigosin .

        Muito bom o comentário. Interessante notar que esta lógica do inimigo invisível é onipresente nos movimento militantes que foram cooptados pela esquerda. No caso das feministas, por exemplo, é vendida a ideia de que existe um machismo estrutural onde o patriarcado é responsável por todas as mazelas das mulheres do mundo. Mesmo que não haja um machismo real numa determinada situação, existe o “machismo estrutural” que sempre estará lá pra ferrar com as mulheres. Esta é a estratégia diabólica FASCISTA de criar unidade a partir da invenção de inimigos abstratos e invencíveis. Serve pra unir em torno de si a massa cooptada ideologicamente, escravos. Essa é a máxima das esquerda, ironicamente aquela que mais gosta de rotular os adversários de fascista. Lamentável.

  • Kaio Cavalcante

    É verdade, existe uma parcela dos pobre que é “Deus, polícia e moralidade”; mas não se esqueça dos que são droga, confusão mental, orgia, aborto, rede globo, e daí para pior.
    Eu nasci e me criei na periferia, sei do que estou falando.

    • Raimundo Lulo

      e quao influentes são estes do droga, aborto, confusao mental, etc…? pelo que sei a maioria em torno ainda os vê como vagabundos..

      dá uma olhada na pesquisa do Instituto Perseu Abramo (do PT) sobre a opiniao do pessoal da favela.. eles descobriram lá, embora a conclusao deles tenha sido outra, que os pobres são conservadores, veja aqui mesmo no senso incomum:

      http://sensoincomum.org/2017/03/28/fundacao-petista-favela-conservador/

    • Rodrigo

      Esses são minoria, Kaio.

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