Morte na escola ocupada: sem responsáveis?

Um adolescente foi morto na "ocupação" de uma escola em Curitiba. Quantos na mídia defenderam ocupações sem sofrerem conseqüências por isso?

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A notícia de que um jovem foi assassinado com uma facada dentro de uma das chamadas “ocupações” de escolas contra a PEC 241, em um colégio em Curitiba, não exatamente chocou o Brasil: trata-se do que é conhecido como “tragédia anunciada”, uma série de eventos cujo desfecho é tão previsível que a única surpresa seria a tragédia não ocorrer.

Dois jovens tiveram uma discussão após consumirem uma droga sintética. No típico estado alterado de consciência provocado por tais drogas, um dos jovens esfaqueou o outro, fugiu do local, mas conseguiu ser preso pela polícia.

Friedrich Nietzsche, em suas ganas iconoclastas, afirmava que não conseguiríamos nos livrar de nossos deuses enquanto não nos livrássemos de nossa gramática. Afinal, em línguas como o alemão (e o inglês), eventos da natureza exigem um sujeito oculto que, em seu ateísmo, não existiria. Para se dizer que “chove” ou “está chovendo”, tais línguas mantêm um sujeito na frase que parece “personalizar” a natureza: it’s raining/es regnet.

Talvez a língua portuguesa ajude no efeito oposto em nossa mentalidade: as ações sem sujeito. Há uma crença comum em nossa cultura de que vários fenômenos da realidade acontecem sem nenhum agente, sem nenhum responsável, sem nenhuma causa discernível além de uma fatalidade do destino. Se vale para a chuva, acaba uma hora sendo a “explicação” comungada para casos como a da escola invadida: um mero acidente de percurso, uma falha da sociedade antes da sociedade perfeitamente dirigida, algo como alguém ter escorregado na rua e morrido.

Tal mentalidade se aprofunda com o que fazem os organizadores de tais “ocupações”, escondendo-se atrás dos chamados “coletivos”. Tal como em junho de 2013, tal como nos black blocs, tal como nas manifestações a favor do PT, os organizadores nunca afirmam que são organizadores (ou que há organizadores), muito menos os partidos que participam, financiam e são maestros do processo. Não se fala em PSOL: aparece apenas o coletivo “Juntos!”, que não diz aos não-iniciados a quem representa. Ou não se fala em PSTU, e sim em ANEL. Menos ainda do PCdoB que estava mancomunado com o PT em nível federal, e sim da UNE.

Quando tragédias ocorrem, para o jornalismo e até mesmo juridicamente, não parece haver um agente responsável, alguém com poder, concorrendo a eleições, recebendo dinheiro do pagador de impostos brasileiro através de fundo partidário, orquestrando o fenômeno que gera mortes: só há uma morte que, como diz o delegado que cuida do caso, “nada tem a ver com a ocupação”.

Para quem toma a vida humana como uma sacralidade inviolável, mesmo uma tragédia anunciada é sempre lamentável, pranteável e escandalosa. Exatamente ao contrário da visão da “sociedade dirigida” por idéias revolucionárias, não há sacrifícios a serem realizados.

Nos cacoetes repetidos roboticamente por jovens que se consideram mais “críticos” quanto mais obedecem um comando central, desde que não seja o de seus pais, as invasões foram contra a PEC 241, que limita os gastos públicos, e contra as próprias reformas educacionais que os movimentos estudantis hoje, quando Dilma Rousseff era presidente, apoiavam, incluindo a MP 746, que institui o ensino integral nas escolas.

Curiosamente, os jovens que queriam implantar o ensino integral para melhorar nossa péssima educação hoje o repudiam por tomar-lhes muito tempo. Parece que, ao se consubstanciar na realidade o que pedem apenas em discurso (algo como todos termos o conhecimento de Harvard, Oxford e MIT somados), a proposta pareça menos interessante. Ainda mais curiosamente, ocupam escolas em tempo integral, pelo direito de terem mais dinheiro público “investido” sem precisarem estar na escola em tempo integral.

É apenas uma das infinitas contradições desses jovens. Uma pergunta que todos deveriam fazer, por exemplo, é por que toda essa aleivosia contra propostas antes exigidas por eles próprios vem na rabeira de outras exigências bem pouco familiares à educação, mas também roboticamente repetidas, como o “Fora Temer” e a desmilitarização da polícia.

Afinal, sem polícia nas escolas, mortes acontecem. E bem ao contrário da propaganda goebbelsiana dos organizadores das “ocupações”, a polícia não aparece para impedir o direito à livre manifestação de estudantes: apenas busca um criminoso, para proteger outros jovens que tenham caído nessa conversa.

Quem não protege os jovens e os coloca em risco em troca de um discurso que os próprios jovens mal conseguem expor em palavras é justamente quem os jovens defendem como heróis.

Por acaso, com essa dissolução de responsabilidades, sem agentes e sem atores no palco da tragédia, alguém se lembra, por exemplo, de se perguntar onde está Esther Solano, que há uma semana estava vociferando na Jovem Pan, divulgando seu livrinho sobre black blocs, questionando o apresentador Carioca se ele já havia ido em escolas ocupadas? Para Esther Solano, é preciso ir a uma ocupação para saber que “aulas de feminismo” estavam sendo dadas (e negando o conteúdo intelectual trocado por doutrinação esquerdista nas escolas) para ver se eles “quebram tudo” mesmo. Esther Solano é mais uma agente inexistente para a mentalidade brasileira.

Muito menos exigirão responsabilidade dos partidos envolvidos em “ocupações”. Como se a tomada de um espaço público, novamente atentando-se para a linguagem, fosse o mesmo que uma “ocupação” de assento escolar ou uma ocupação militar: trata-se de uma invasão, um crime em si, que nunca é tratado como tal, nem mesmo juridicamente, tal logo a palavra entre na mentalidade comum.

Sem saber o que estão fazendo, e atraídos por um discurso goebbelsianamente repetido prometendo um atalho eterno ao prazer, à satisfação de desejos pueris em loop infinito, crendo-se contra a autoridade quando enaltacem a autoridade suprema para destruir a suposta tirania anterior, e sem conseguir explicar em números, dados e fatos o que estão fazendo, a  mando de quem e por que, tais adolescentes estão oferecendo outros adolescentes em sacrifícios em um imenso culto à irracionalidade absoluta.

Saber que idéias têm conseqüências e que fenômenos não ocorrem sem causas discerníveis anteriormente no tempo foi o que fez o maior economista do mundo, Ludwig von Mises, chamar seu magnum opus de Ação Humana: na economia e na vida, seja o orçamento ou um assassinato, há ações humanas que geram os efeitos desejados e indesejados.

Infelizmente, para a mentalidade esquerdista dominante sobretudo no jornalismo, nos famosos e nos jovens, o dinheiro para educação ou uma facada parecem surgir do nada, por pensamento mágico, sem ter alguém que tenha criado as condições ou a ação que deixará um lugar vazio na mesa de uma família para todo o sempre.

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