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Macron já ganhou a eleição e Le Pen é caso perdido ou a mídia repetirá o erro Trump? Taiguara Fernandes e André Andrade analisam a França.

PRIMEIRA PARTE: CONTEXTO E PRECEDENTES

por André Andrade

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As eleições francesas têm chamado a atenção de muitos, alguns com esperança que seu resultado inflame ainda mais a ira contra o globalismo esnobe dos metacapitalistas, alguns com o natural desespero de verem que a tão chamada revolução popular os têm como alvo único, para além de qualquer conciliação.

O panorama da disputa eletiva entre Emmanuel Macron, que é: formado pela ENA, a Escola Nacional de Administração, o hub intelectual da elite burocrática francesa; ex-banqueiro do Rothschild & Cie Banque, um dos pilares financeiros da Nova Ordem Mundial; ex-filiado do Partido Socialista francês, saído dali para fundar um próprio, cuja sigla se iguala às inicias de seu nome (“En Marche!” – EM); ex-Ministro da Economia de François Hollande (sim, do presidente que precisou desistir da candidatura à reeleição para não ser humilhado nas urnas), e candidato da União Européia à “Vice-Chancelaria da Província da França”, e Marine Le Pen, deputada no Parlamento Europeu, presidente licenciada do Front National e filha do incontornável e intrinsecamente problemático Jean-Marie Le Pen, fundador e presidente, por vários anos, do partido (até que, em 2015, Le Pen filha expulsou Le Pen pai), é, simultaneamente, cristalino e turvo, óbvio e nebuloso, nu e oculto.

Os movimentos próprios da população, as ditas tendências eleitorais, baseados na pesquisa dos temas e da análise geográfica apontam para uma clara, não obstante apertada, vitória de Marine Le Pen no segundo turno a ser realizado neste domingo (o7/05), contudo a movimentação incessante dos eurocratas e do establishment francês podem assinalar a organização de uma fraude sem precedentes na História mundial, superando, inclusive, a ocorrida no Brasil, em 2014, quando da assim chamada reeleição da sra. Dilma Rousseff à Presidência do Brasil.

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Este primeiro tópico, para além de detalhar os pontos fracos dos dois candidatos – toda a descrição de Macron e a filiação de Le Pen – visa a apresentar um breve panorama da França, a fim de facilitar o entendimento da profunda análise que será feita a seguir.

A França de hoje, ou Os caminhos para a Modernidade doentia

guilhotina

A guilhotina: o instrumento para a realização da liberdade, da igualdade e da fraternidade – na morte.

Os atuais problemas padecidos por Mariana, símbolo antropomorfizado da França, possuem origens históricas bem mais remotas. Como apontado por Gertrude Himmelfarb em “Os Caminhos para a Modernidade”, a divergência fundamental dos Iluminismos anglófono para o francófono se baseia na prevalência do elemento realista, capaz de aceitar ou, ao menos, a não extirpar a natureza espiritual do homem e sua capacidade raciocinante. No Iluminismo britânico, prevaleceu, em suas palavras, uma “sociologia da virtude”, enquanto, nos Estados Unidos, o Iluminismo se apresentou como “política da liberdade”. A variante local francesa, por sua vez, originou-se em uma rebelião espiritual contra a Igreja, uma verdadeira birra adolescente capaz de sugerir, como modelo educacional para outros países, precisamente o que a Igreja Católica fazia na França, sem, porém, atribuir-lhe o mérito. O endeusamento dessa variante torpe de Iluminismo é, obviamente, uma das raízes profundas da crise existencial da França.

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O objetivo do intróito é apenas apontar que, ao contrário do que as falsas análises de apressados e de viciados em comentaristas de política internacional de canais de televisão – não importa se aberta ou a cabo – ou, pior, de jornais e de rádio, para não falar dos tagarelas de Internet financiados com dinheiro público, a autoincompreensão francesa já é mais que bicentenária: não seria este período eleitoral o conjunto de confissão e penitência para a absolvição dos pecados de Mariana.

Especificamente, os problemas debatidos na longa campanha, desde o primeiro turno, centram-se na real estrutura de poder que comanda hoje a Europa, a burocracia elitista, pesada, não eleita, responsável perante ninguém da União Européia. Os temas de fundamental importância para os eleitores, segundo pesquisa realizada já neste segundo turno, são emprego, imigração, globalização e terrorismo – por outras palavras, os pontos em que a União Européia é mais mal vista por seus, como é constante dos documentos oficiais, “administrados” (ainda que sua auto-imagem permaneça inabalável).

Contudo, não parece ser o caso de simplesmente ver, na fratura exposta do sistema globalista, sua morte, pois a candidatura de Marine Le Pen não traduz o mesmo grau de esperança que o visto por Donald Trump, no ano passado.

O Front National foi fundado na década de 1970 com pessoas comprometidas até a glote com o regime de Vichy, o governo fantoche do nazismo para os francófonos do sul (a parte norte estava sob administração militar nazista direta). Le Pen pai, por sua vez, nem mesmo pretendeu apresentar uma imagem pública minimamente não comprometida com o nazismo, tendo chamado, em mais de uma ocasião, o Holocausto um “detalhe” da História1. Tendo sido o único candidato do Front à Presidência da fundação da agremiação até 2007, é inevitável que a imagem do partido e da família Le Pen esteja profundamente comprometida, arranhada, não suscitando qualquer motivação inicial para aproximação, ou mesmo a suspension of disbelief de quem lidará com alguma obra de ficção.

Em 2011, diante da avançada idade do já vovô monstrinho, o Front realizou eleição interna para ver o substituto de Le Pen pai. O resultado, nas palavras de Nigel Farage, o herói da independência britânica, apelidado, com justiça, de Mr. Brexit, foi surpreendente:

An overwhelming vote of FN members saw Marine Le Pen become leader – beating Holocaust-denying Bruno Gollnisch. From the start, she wanted the FN to be more like Ukip than the BNP2. I was told that this would be a nightmare for me3.

[A maioria esmagadora dos membros do FN elegeu Marine Le Pen presidente do partido, derrotando o negador do Holocausto Bruno Gollnisch. Desde o início, ela quis que o FN se parecesse mais com o UKIP que com o BNP. Disseram-me que isso me seria um pesadelo.]

Esta virada foi acompanhada da popularização crescente do partido e da ruptura definitiva do chamado “cordão sanitário” ou “Frente Republicana”, a aliança entre todos os partidos do establishment contra o Front National em qualquer segundo turno. Algumas palavras precisam ser dedicadas nesse ponto.

Marine Le Pen e Jean-Marie Le Pen

Marine Le Pen e Jean-Marie Le Pen

No final da década de 1970, poucos anos após a fundação do FN, alguns ditos direitistas, em eleições locais, aliaram-se ao FN, e vice-versa, o que chocou (com razão) muitos eleitores, jornalistas e quem mais pudesse observar. De fato, naquela época, buscar tal apoio político e aceitá-lo de braços abertos, sem maiores reservas, era um verdadeiro absurdo, pois a direção do partido admitia orgulhosa a profissão de fé de vários itens do catálogo tipicamente fascista. A partir da década de 1980, porém, os ditos conservadores franceses4 e os diversos tentáculos do esquerdismo fizeram um pacto escancarado de se apoiarem contra o crescimento do FN.

De 1980 a 2011, essa aliança funcionou extremamente bem, tendo os sucessores do gaullismo e os socialistas se alternado no poder em todos os níveis de governo, quando não coabitando nele. Em rápida explanação, coabitação é uma experiência própria do regime político francês, na qual o Presidente, que possui preponderância política, mas não todos os poderes de governo, é de um partido, e o Primeiro-Ministro, respaldado pela maioria na Assembléia Nacional, é de outro. Três coabitações ocorreram até agora, todas durante o período áureo do “cordão sanitário”: na década de 1980, François Mitterand, presidente socialista (e que trabalhou para o regime de Vichy), precisou suportar Jacques Chirac, primeiro-ministro gaullista; nos dois anos finais de seus nada curtos 14 anos como presidente, Mitterand ainda precisou aturar Édouard Balladur, outro gaullista, e o próprio Chirac precisou engolir Lionel Jospin, um socialista que ele derrotara para a Presidência, como primeiro-ministro por cinco anos.

Em 2002, quando uma desilusão generalizada com o cenário político arregimentou uma abstenção de quase 30% no primeiro turno, os dois candidatos presidenciais principais, Jacques Chirac, então presidente e candidato à reeleição, e Lionel Jospin, então primeiro-ministro, tiveram votações ínfimas, o que catapultou Jean-Marie Le Pen ao segundo turno, a primeira oportunidade de segunda volta para o FN. Nela todos os candidatos e partidos – as partes do autoproclamado “cordão sanitário” – associaram-se a favor de Chirac, contra Le Pen pai, a fim de produzir uma vitória acachapante, o que, no fim de tudo, ocorreu: Chirac saltou de 19,88% (5.665.855 de votos), no primeiro turno, para 25.537.956 (82,21%), no segundo, enquanto Le Pen pai patinou de 4,804,713 (16,86%) para 5.525.032 (17,79%).

O resultado pífio ainda foi piorado por Le Pen pai em 2007, com parcos 3.834.530 (10,44%) – quando o guallista Nicolas Sarkozy venceu a socialista Ségolène Royal no segundo turno. Em 2012, porém, já sob o comando de Le Pen filha, a situação foi drasticamente modificada: sua votação ultrapassou a do pai e, ainda que não tenha chegado ao segundo turno (ocorrido entre François Hollande e Nicolas Sarkozy), obteve votação e percentual invejáveis: 6.421.426 de votos, representando 17,90%. Com o segundo turno realizado entre os dois candidatos mais impopulares e insossos dos últimos anos, o resultado saiu apertado: Sarkozy não foi reeleito, Hollande venceu e obteve maioria parlamentar, e a França caiu em um caos financeiro e social, sendo o alvo preferencial de toda sorte de atentados terroristas.

“France, fille aînée de l’Église, es-tu fidèle aux promesses de ton baptême?”

Eleitores do Front National

Eleitores do Front National.

A frase de São João Paulo II, utilizada para abrir este tópico, traduz bem a quebra da hegemonia do “cordão sanitário”, pois o resultado de 2012 já apontava para um terremoto político – que, de fato, veio a acontecer – em 2017: o retorno de membro do Front National ao segundo turno, desta vez com chances reais de vitória.

Não se pretende dizer que Marine Le Pen é a concretização do desejo que o Sumo Pontífice tinha, obviamente, mas para mostrar que essa mesma questão assombra as vidas dos pequenos franceses, cujas vidas pacatas, cujo quotidiano simples foi violentamente destruído pela imigração em massa.

Marine Le Pen, ciente de sua capacidade de crescimento e da necessidade de se diferenciar da âncora política que é seu pai, não pretendeu apenas apresentar uma nova face a idéias velhas, mas a refundar o partido, modificando inteiramente sua estrutura interna – escandalizando, aliás, os fascistas octogenários – e, embora não modificando as propostas mais ordinárias ou administrativas do FN, reinterpretando o conjunto em uma cosmovisão higiênica, enterrados os esqueletos que vestiam a bandana vermelha com círculo branco e símbolo em preto no braço.

Foi mencionado o escândalo dos fascistas de velha guarda: Marine Le Pen trouxe, desde que assumiu o comando, para a cúpula do partido gays assumidos e, com sua postura linha-dura em matéria de imigração e de proteção da sociedade francesa contra a invasão horizontal dos bárbaros promovida pelo globalismo islâmico, atraiu o voto gay em proporções que deixam a classe mais estúpida de pessoas, os jornalistas, desconsertados. Aliás, Le Pen filha ganhou deles um título carinhoso: “Pink Marine”5.

A coroação da “desdemonização” do FN veio em 2015: Le Pen pai foi expulso do partido que fundara quarenta anos antes, terminando, assim, o processo de exclusão de fascistas dos altos escalões do partido.

Marine Le Pen, em comício do Front National

Marine Le Pen, em comício do Front National.

Só essa atitude, é óbvio, não foi (nem é) suficiente para Marine eleger-se, como, aliás, ela própria sabe. Suas posições, ainda que algumas das soluções mais estatistas em economia e mais simpáticas ao regime de Putin, tornaram-se muito mais flexíveis em virtude de dois outros cataclismos políticos do ano passado: a vitória do “Leave” no referendo do “Brexit” e a vitória de Donald Trump.

A saída do Reino Unido, cujos procedimentos já foram formalmente iniciados em 19/03 deste ano, com a invocação do art. 50 do Tratado da União Européia, revelou quão pobre é a percepção que o povo europeu possui da organização burocrática que se tornou a UE. Esse resultado foi antecedido de dois pequenos testes anteriores, um referendo na Holanda, sobre o Acordo de Associação entre a UE e a Ucrânia, com resultado esmagadoramente contrário aos interesses dos eurocratas, e um referendo na Dinamarca, a respeito da capacidade de interferência da União nas questões de justiça e de polícia do pequeno país, com resultado contrário, embora não nas mesmas proporções, ao que queria a elite de Bruxelas.

A revolta dos ingleses inflamou a retórica eurocética, inclusive a da própria Le Pen, e revelou que as vozes aparentemente minoritárias contra os exageros de Bruxelas, na realidade, compunham a maioria dentre os “administrados”. Esse resultado reforçou o sentimento contrário às ambições mais federalistas6 existente em outros países, como a Hungria de Viktor Orbán, a Polônia de Andrzej Duda e o Reino Unido de Theresa May (uma política inicialmente favorável à permanência na União Européia, mas que viu sua grande chance de poder na entrega do Brexit, o que vem fazendo mais ou menos bem). Esses países são, precisamente, os que Marine Le Pen citou como seus aliados principais na Europa, nem chegando perto de dizer “Rússia de Putin”7.

De fora da Europa, seus aliados são a Índia de Narendra Modi (Primeiro-Ministro conservador após vários anos de esquerdismos burocráticos) e os Estados Unidos de Trump, este o segundo terremoto de 2016, aliás muito mais danoso que o primeiro. Se o Brexit foi uma indigestão no estômago globalista, Trump é sintoma da falência múltipla de órgãos, pois nenhuma de suas atitudes, até agora, mesmo as que mais parecem simpáticas ao globalismo, são destituídas de uma zombaria profunda, de uma semente a explodir no tempo certo8.

Financiando a própria campanha durante as primárias, ou melhor, rejeitando qualquer doação, mesmo de seus eleitores; dono de uma sinceridade cativante e de uma personalidade inquebrável e inamovível – embora pareça ceder, o que funciona apenas com quem só acompanha o noticiário da hora –; estrategista de acertos políticos e eleitorais que lhe concederam vitórias em estados que os republicanos doentes de bom-mocismo insistiam teimosamente em perder, e dono de uma capacidade de submeter os adversários às derrotas mais vergonhosas9, Donald John Trump é o mais perigoso inimigo público do globalismo, e Marine Le Pen foi rápida para perceber que, se ele vencesse, as chances dela disparariam – como, de fato, aconteceu.

Vinda de uma vitória relativa nas eleições para o Parlamento Europeu, em 2014, quando o FN ficou em primeiro lugar, e de uma vitória, igualmente módica, restrita ao primeiro turno das eleições regionais francesas em 2015, Le Pen filha encontrou um discurso menos rotulável em suas comparações com Trump: é absolutamente impossível ser tachado, com sucesso, de anti-semita e de “islamofóbico” simultaneamente. A oposição dura à invasão islâmica (com conseqüente ascensão terrorista) salvou Le Pen da acusação anterior, ao ponto de o próprio partido governante de Israel, o Likud do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu, já ter quem a apóie abertamente10.

Ao contrário da tentativa boba de o establishment reeditar o “cordão sanitário”, este segundo turno não é igual ao de 2002. Emmanuel Macron não é Jacques Chirac, um político experiente que já era presidente, já havia sido primeiro-ministro e prefeito de Paris, mas um jovem inepto e herdeiro do governo inerte de François Hollande; Marine não é Jean-Marie, tanto por não ter um passado sujo como o do pai, quanto por ter mantido uma linha que, nas palavras de Nigel Farage, não seja idêntica às dele.

André Andrade é advogado e analista político.

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SEGUNDA PARTE: PROBLEMAS E TENDÊNCIAS

por Taiguara Fernandes de Sousa

As principais questões em jogo

Marine Le Pen e Emmanuel Macron, no último debate presidencial

Marine Le Pen e Emmanuel Macron, no último debate presidencial

Nestas eleições francesas, não estão disputando apenas duas pessoas completamente diferentes, mas duas visões de mundo diametralmente opostas. De um lado, Emmanuel Macron encarna o projeto globalista da elite financeira ocidental; de outro, Marine Le Pen é a proposta de resistência a este projeto, em nome da soberania nacional.

Macron, que foi banqueiro da família Rothschild – uma das principais dinastias metacapitalistas do mundo (sobre metacapitalismo e globalismo, ler Olavo de Carvalho, História de Quinze Séculos e A revolução globalista) –, defende que a França deve continuar a ser membro da União Européia, uma das instâncias do poder global, a qual, através do seu centro burocrático de comando, sediado em Bruxelas (Bélgica), impõe às populações dos países-membros regulações e leis previamente fabricadas em favor desta mesma elite financeira, além de valores antagônicos àqueles que fundaram a Civilização Ocidental.

A destruição dos valores ocidentais é a principal meta de organizações globalistas como a ONU e a União Européia, pois são estes valores que impedem o avanço do socialismo no Ocidente – e, como o socialismo é impossível na prática, dependendo de uma elite financeira para sustentá-lo, sua instauração envolve, necessariamente, uma coesão espúria entre as grandes dinastias capitalistas e a burocracia estatal, pelo que o Estado mantém intocado os grandes patrimônios e impede outros de ascenderem (quem acompanhe o caso brasileiro, com o seus Petrolões, Mensalões e Eletrolões, consegue vislumbrar perfeitamente o âmago do projeto globalista ocidental).

O debate a respeito do domínio dos burocratas não-eleitos sobre as populações de nações soberanas tem sido frequente nos últimos anos. A Inglaterra deu o primeiro passo efetivo, com o Brexit, referendando a saída do país da União Européia. Em seguida, o povo dos EUA elegeu Donald Trump, um Presidente anti-globalista, que prometera o fortalecimento das fronteiras e a retomada do crescimento americano, além do fim da imigração descontrolada fomentada pelo Partido Democrata, de Barack Obama e Hillary Clinton, sequazes do globalismo ocidental.

A discussão francesa, guardadas as suas peculiaridades, não é diferente. Marine Le Pen entende que a União Européia tem, na verdade, subjugado a França ao poder financeiro da Alemanha. As fábricas têm saído da França e, com elas, os empregos dos franceses. De outro lado, fronteiras fracas e excessivamente abertas têm levado o interior francês ao caos: imigrantes muçulmanos têm vindo aos montes, sob as bênçãos do governo francês, e eles não compartilham dos valores do país. Ao contrário, os muçulmanos querem destruir a França e tudo que há de verdadeiramente francês – o que é, em suma, ocidental e, como já expliquei, destruir os valores ocidentais é uma das metas do globalismo financeiro; por isso o uso dos islâmicos – que possuem outra estratégia global, a do Califado Mundial – tem sido frequente pelos globalistas do ocidente.

Atentado terrorista em Nice, em 2016

Atentado terrorista em Nice, em 2016: um caminhão pilotado por um muçulmano atropelou e matou mais de 80 pessoas

Emmanuel Macron, por outro lado, banqueiro fabricado em candidato justamente pelos burocratas da União Européia – um rosto jovem, para aliviar as agruras a que o esquema foi submetido após a trágica administração de François Hollande (uma das mais desaprovadas da história) –, defende a permanência da França no bloco europeu e afirma que a globalização é benéfica para a França, pois barateia produtos e movimenta a economia. Conclama, ainda, a uma vocação de solidariedade do povo francês que, por isso, deveria receber os “refugiados” de países do Oriente em guerra civil. Por fim, afirma que a França é soberana, ainda que integre um bloco que lhe impõe leis fabricadas, e não é subserviente à Alemanha – duas assertivas negadas pelos fatos.

Existem, portanto, duas visões de mundo em jogo. Este fato foi ressaltado por Marine Le Pen no debate presidencial do dia 03/05, no qual afirmou que Macron acredita que a França será respeitada por seu dinheiro ou por sua posição nos órgãos internacionais, enquanto que ela acredita que a França será respeitada por ser, simplesmente, a França: por sua cultura e sua herança, cuja reverência foi perdida quando a nação decidiu tornar-se subserviente à Alemanha e à União Européia. É exatamente a diferença que existe entre uma proposta globalista e uma proposta nacional.

Esse, portanto, o panorama das questões discutidas nas eleições francesas. Não por acaso, uma pesquisa de opinião ainda no primeiro turno das eleições apontava que quatro eram as principais preocupações dos franceses com estas eleições: os empregos, a imigração, a União Européia e a luta contra o terrorismo. Nos quatro problemas, as visões de Emmanuel Macron, o globalista, e Marine Le Pen, a nacionalista, são diametralmente opostas.

Análise do eleitorado de Jean-Luc Mélenchon

Jean-Luc Mélenchon, candidato do France Insoumise

Jean-Luc Mélenchon, candidato do France Insoumise

O ponto mais significativo destas eleições presidenciais, sem dúvida, foi a ascensão de partidos pouco usuais no espectro político francês. Os tradicionais Partidos Socialista, de esquerda, e Republicano, de direita, sequer ficaram entre os três primeiros; o desempenho do candidato socialista, aliás, foi vergonhoso: Benoît Hamon obteve 6% dos votos, o que é ridículo para um partido que está no governo, mas demonstra a desaprovação popular.

O En Marche!, de Emmanuel Macron, é partido criado no ano passado, para sustento do establishment político, quando percebeu que o governo de François Hollande destruíra sua imagem e uma nova seria necessária. O Front National, de Marine Le Pen, tem tradição na França, porém sempre ficara à margem, sendo esta a primeira vez que obtém um desempenho realmente vitorioso. Já o France Insoumise, de extrema-esquerda, cujo candidato foi o comunista Jean-Luc Mélenchon, surgiu como uma proposta de “recuperar o verdadeiro socialismo”, manchado pelo tradicional PS.

Jean-Luc Mélenchon foi o grande destaque das eleições francesas e demonstrou-se um candidato viável (apesar de que as razões para o seu resultado não estão, propriamente, ligadas ao fato de o partido ser de extrema-esquerda). Obtendo 20% dos votos e alcançando o terceiro lugar nas eleições, o France Insoumise naturalmente passou a ser cogitado para um apoio de segundo turno e uma estratégia de transferência de votos.

Normalmente, acreditar-se-ia que um partido de extrema-esquerda, ante um segundo turno em que um dos lados é um partido classificado como de “extrema-direita”, aliar-se-ia a qualquer outro candidato mais moderado espontaneamente, “pour faire barrage à l’extrême droit”, como dizem os franceses. E Macron, dizendo-se um candidato de centro, possui propostas que agradam à esquerda – especialmente em questões morais.

À esquerda vanguardista, mas não tanto à esquerda nacionalista, leninista ou trotskista, como é o perfil do France Insoumise e de outros dois partidos de esquerda que disputaram: o Nouveau parti anticapitaliste, de Philippe Poutou (1,1% dos votos), e o Lutte Ouvriére, de Nathalie Arthaud (0,6% dos votos).

Todos estes partidos compartilham uma plataforma eurocética, isto é, de rejeição à União Européia e à submissão da França à elite financeira ocidental e aos burocratas de Bruxelas – o nome do partido de Mélenchon é revelador: France Insoumise, França Insubmissa.

Mélenchon e os comunistas menores também defendem propostas econômicas de proteção ao emprego dos franceses e aos produtos nacionais, além de manutenção de empresas na França e retirada do país do bloco europeu e da zona do euro.

Por este motivo, todos estes candidatos se definem como antagonistas do liberalismo de Emmanuel Macron. Além disso, quando o En Marche! recebeu apoio dos partidos políticos tradicionais, o Partito socialista, de Hollande, e Les Republicains, de Sarkozy, um apoio da extrema-esquerda restou inviável, pois significaria a negação do discurso anti-establishment que eles sustentaram e, com isso, prejuízos nas eleições parlamentares de logo mais.

Por este motivo, um grande silêncio reinou na extrema-esquerda desde o fim do primeiro turno. Aqueles que esperavam uma resposta rápida de Mélenchon em apoio a Macron, se decepcionaram primeiro e, depois, se revoltaram. A esquerda vanguardista começou a acusar Mélenchon de traição, pois sua inércia representava um apoio, na prática, a Marine Le Pen, pois os votos da esquerda deveriam voltar-se naturalmente contra ela.

No sábado, 29/04, quando Marine Le Pen dirigiu-se ao eleitorado de Mélenchon, convocando-lhe a superar as diferenças e formar uma coalização pela nação francesa, ressaltando que ela compartilhava com eles o mesmo desprezo pela União Européia e o euro, além das mesmas preocupações com os empregos dos franceses e as fronteiras muito abertas, Jean-Luc Mélenchon anunciou que não daria um conselho de voto e que não seria guru de ninguém. A posição isenta de Mélenchon favoreceu Le Pen e assim foi interpretada, pois um quinto do eleitorado deixa de ser capitalizado em sua oposição. Apesar disso, o candidato de France Insoumise afirmava continuamente que não tinha que ver coma extrema-direita e que o seu voto seria em branco. Philippe Poutou e Nathalie Arthaud seguiram o mesmo caminho, propondo o voto em branco ou a abstenção, criticando sempre uma “extrema-direita” genérica, enquanto a crítica a Macron era dirigida nominal e pessoalmente a ele.

Mélenchon e os eleitores de France Insoumise.

Qual a razão para o silêncio sepulcral da extrema-esquerda?

Em primeiro lugar, porque, de fato, as propostas eurocéticas de Marine Le Pen são mais próximas daquelas de Mélenchon do que as propostas de Emmanuel Macron, a quem só a esquerda vanguardista e globalista apoia, por sua plataforma moral revolucionária. Um apoio a Macron significaria negar toda a oposição à União Européia e à elite financeira ocidental, que Mélenchon sustentou no primeiro turno – um candidato que se mostrou viável e está de olho nas eleições parlamentares não faria isso.

Em segundo lugar, porque a esquerda bolchevista internacional – como é o caso de France Insoumise e dos partidos menores – sempre pede as bênçãos da Rússia para qualquer de seus atos. Ora, o projeto globalista russo tem interesse na derrocada do globalismo ocidental – não por tudo de mal que esse projeto representa, mas por quererem, eles próprios, ocuparem o lugar. Por esse motivo, é evidente que Vladmir Putin não perderá a oportunidade de auxiliar para que uma candidata nacionalista vença e promova o Frexit, um rasgão a mais na textura da União Européia.

Marine Le Pen sempre foi dita como uma “aliada de Putin”. Uma aliança, contudo, necessária, uma vez que a candidata de Front National circunstancialmente não tinha em quem apoiar-se para seu propósito de retirar a França da União Européia. Com a vitória do Brexit e de Donald Trump, contudo, Marine Le Pen tem ensaiado cada vez uma aproximação com estas duas potências, os EUA e a Inglaterra, que já começaram a se opor ao globalismo – Putin já não é mais o único aliado possível. Mesmo assim, é do interesse da Rússia favorecer a derrocada da União Européia, ainda que a França não se torne mais uma aliada no futuro.

E uma das maneiras pelas quais a Rússia poderia fazer isso seria dando ordens ao bolchevismo internacional, como, de fato, fez. No dia seguinte ao primeiro turno, Alexander Dugin, o guru de Vladmir Putin, publicou um artigo no seu sítio eletrônico em que afirmava que Mélenchon e Le Pen tinham a mesma plataforma eurocética, mas com “sinal invertido”. Dugin questiona, ainda, se Mélenchon não irá apoiar Le Pen – o que é uma clara intimação aos bolchevistas.

O modo pelo qual os bolchevistas franceses poderiam apoiar Le Pen sem, contudo, comprometerem seu próprio discurso seria, é claro, não fazendo nenhuma aliança com Emmanuel Macron e propondo abstenção e votos brancos. Isso favorece Marine Le Pen claramente, pois os votos da extrema-esquerda, se contrários, levariam à vitória de Macron; mas, se abstinentes ou em branco, apenas manteriam o status quo e Le Pen teria condições de colher votos de outros candidatos, sendo esta a maneira de a esquerda ajudar o Fronte National.

Mais do que isso, a ascensão do Front National ao poder gera uma possibilidade de narrativa para o France Insoumise: seria a extrema-direita no poder e a extrema-esquerda na oposição, o que fortaleceria os bolchevistas tanto para as eleições parlamentares, como quanto partido oposicionista, quebrando a tradicional bipolarização entre socialistas e republicação.

Marine Le Pen é a candidata perfeita para a extrema-esquerda, ainda que por motivos completamente diversos dos que eles desejariam.

Por esse motivo, o partido de Mélenchon promoveu uma consulta aos seus militantes, cujo resultado foi divulgado no último dia 02/05, em que 2/3 resolveram pela abstinência ou voto em branco e apenas 1/3 decidiu apoiar Emmanuel Macron. Com este resultado, a posição oficial do Partido será por manter-se neutro.

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Isso ajuda Marine Le Pen por mais um motivo, ainda: é que nesta consulta foram interrogados apenas os militantes de France Insoumise, que compõem menos de 3,5% do seu eleitorado.

Os restantes 96,5% do eleitorado de Mélenchon são, em sua maior parte, operários que votaram pela proteção aos seus empregos ou simplesmente nacionalistas de espectro esquerdista.

Qual a tendência de voto destas pessoas? Se o voto não é ideológico, a sua tendência é de votarem no candidato mais aproximado aos motivos pelos quais votaram em Mélenchon, isto é, Marine Le Pen, que também possui uma plataforma eurocética e um discurso pela proteção dos empregos e dos produtos nacionais. Dentro o eleitorado operário, há até mesmo aqueles que se abstiveram no primeiro turno, mas, diante de uma possível vitória de Macron, sairão para votar em Marine Le Pen no segundo turno: “Por que não Marine Le Pen?”, pergunta um operário que se absteve, na notícia de France Bleu Touraine.

Incidente em fábrica em Whirlpool, Amiens

Incidente em fábrica em Whirlpool, Amiens, que está sendo deslocalizada para a Polônia: Macron é mal recebido pelos operários.

Semelhante ao que Michael Moore detectou em relação a Donald Trump, é Marine Le Pen quem está demonstrando preocupação com os empregos dos trabalhadores, com a deslocalização das fábricas, com a invasão de produtos estrangeiros que diminuem a competição dos produtos nacionais – todas questões que estão sendo deixadas de lado por Emmanuel Macron, como também foram por Hillary Clinton.

E este eleitorado de Mélenchon tende a votar em Le Pen, enquanto que uma outra parte tende a se abster – nos dois casos, o resultado é favorável à candidata de Front National.

Por fim, Marine Le Pen se favorece do voto contestatório, especialmente forte no interior do país, cujo sentimento da população é de que são esquecidos pelo poder oficial. Em Rive-de-Gier, na região do Loire, centro da França, o voto em Le Pen e em Mélenchon foram uma contestação ao establishment político, como ressaltado por uma eleitora. O fenômeno, cada vez mais comum, de crescimento de outsiders do espectro político tradicional – e desacreditado – favorece Marine Le Pen neste segundo turno e prejudica Macron, que resolveu unir-se às raposas velhas de sempre – das quais, na verdade, ele nunca foi separado.

Percebendo a desconexão entre o interior da França e as grandes cidades (onde se concentra o eleitorado burguês de Macron), Le Pen tem concentrado sua campanha nas pequenas vilas rurais, nas instâncias operárias, nos rincões do país.

Esse desligamento entre o interior e as grandes zonas urbanas, mais atingidas pela mentalidade moderna e pela presença do Estado, também foi percebido por Donald Trump, que adotou igual estratégia – o que lhe levou a um landslide geográfico que pintou o mapa americano de vermelho.

Análise do eleitorado de François Fillon e outros minoritários

François Fillon, candidato de Les Republicains

François Fillon, candidato de Les Republicains

O candidato da direita tradicional francesa, figurada no partido Les Republicains, foi François Fillon, que se apresentava como um conservador católico e, nestas condições, foi apoiado por diversos movimentos da Igreja Católica da França.

Um católico na França, hoje, tem dois problemas: primeiro, o país padece ainda de um laicismo herdado da Revolução Francesa, cujos frutos tomam forma na União Européia, com sua imposição de legislação anti-católica e de valores contrários às raízes do Ocidente; em segundo lugar, o problema da invasão islâmica no país, com toda a violência e ódio ao Cristianismo que a hégira muçulmana representa.

Nessa situação concreta, seria de se esperar que um candidato conservador e católico, não tendo atingido o segundo turno, apoiasse a candidata que compartilha com os católicos a mesma preocupação com a União Européia e com a invasão muçulmana, mas não foi o que Fillon fez: ele resolveu apoiar Macron, que pretende abrir ainda mais as fronteiras e defende pautas morais contrárias aos valores cristãos. Não há muita surpresa no fato, pois a cúpula de Les Republicains faz parte do establishment burocrático francês e o Sr. Sarkozy sempre foi um grande aliado de Merkel.

É óbvio que essa situação gerou um racha nos republicanos, pois os setores gaullistas do eleitorado – conservadores da linha de Charles de Gaulle, que defendem a primazia da herança cultural francesa – e os católicos não querem apoiar Macron. Para estas principais parcelas do eleitorado que apoiou Fillon, Macron representa justamente aquilo que eles rejeitaram ao votar no candidato de Les Republicains. Por esse motivo, a tendência é que largos setores desse eleitorado votem em Le Pen, numa resistência ao projeto globalista de Macron, ainda que o façam de forma silenciosa. Na periferia, contudo, especialmente no Sul, onde Le Pen já obteve expressiva votação, alguns líderes católicos destacados em Les Republicains anunciaram expressamente voto em Le Pen

Movimentos de inspiração católica também passaram a apoiar Marine Le Pen contra Macron, como o Manif pour Tous, o principal movimento de oposição ao “casamento gay” na França. Marion Maréchal-Le Pen, sobrinha de Marine, uma católica praticante, responsável por um movimento interno em Front National na questão do aborto (o partido defendia progressos na pauta, mas agora afirma que não fará avanços na legislação atual; a imobilização da legislação é o que se pode, politicamente, obter na França para o momento), fez campanha aberta pelo voto católico desde o início da corrida presidencial. Os católicos do Sul deram voto de confiança em Marine Le Pen especialmente pelo trabalho de sua sobrinha.

Neste segundo turno, Marion sinalizou para os católicos que Front National fará alterações na Lei Taubira, que criou o “casamento gay” na França, substituindo o instituto por uniões meramente civis, que não detenham a nomenclatura jurídica de matrimônio. Marion Maréchal-Le Pen também é uma crítica contumaz da lei de François Hollande que criminaliza a propaganda de movimentos pró-vida na internet.

Marine Le Pen, à frente, e sua sobrinha, Marion Maréchal-Le Pen

A localização de Marion Maréchal-Le Pen no topo de Front National, como pessoa de confiança de Marine Le Pen, atraiu maior confiança dos católicos franceses. É uma aposta em alguma coisa contra o risco de um nada, pois Macron é o “anti-família”.

O apoio rápido e imediato de Fillon a Macron – assim que o primeiro turno foi encerrado – gerou muitas críticas também entre os gaullistas do partido. Para estes, teria sido melhor buscar uma negociação com Front National, para flexibilização de algumas de suas pautas, que permitisse um consenso entre os dois partidos. Os gaullistas também afirmam que Fillon e a cúpula de Les Republicains não consultaram as bases antes de anunciarem essa decisão.

Este é o principal eleitorado que Marine Le Pen precisa captar. São pessoas que entendem que a herança cultural francesa está se perdendo, que temem a ameaça muçulmana e o avanço da agenda globalista, que anula e o espírito e a cultura nacional; eles também se preocupam com as fronteiras do país e com a imigração em massa e descontrolada.

Para sacramentar uma abertura aos gaullistas, Marine Le Pen fez uma importante sinalização para esse eleitorado, de que está disposta a montar uma grande coalizão pela soberania da França: comprometeu-se a apontar como seu primeiro-ministro Nicolas Dupont-Aignan, candidato derrotado do partido Debout la France (um UKIP francês), que obteve 5% dos votos.

Um lance de mestre, pois sinaliza uma postura de realismo pragmático e maturidade política, além da disponibilidade e compromisso destas camadas do eleitorado conservador, das quais não obteve a confiança no primeiro turno.

Comprometendo-se com a nomeação de Dupont-Aignan para a formação de seu gabinete, Le Pen tende a atrair a confiança dos eleitores gaullistas, muito presentes no Debout La France. Dupont-Aignan é um gaullista soberanista, que compartilha com Le Pen a visão da necessidade de livrar a França da União Européia e do euro.

Mais que aos eleitores de Debout la France, a indicação de Dupont-Aignan como primeiro-ministro de Marine Le Pen foi uma abertura aos conservadores gaullistas que se sentiram traídos do François Fillon: a candidata de Front National demonstrou que está disposta a ouvi-los e inseri-los em suas decisões; que, acima de tudo, os interesses que compartilham são os da França. Isso confirma, ainda, a crítica interna no partido, de que Fillon foi muito apressado em apoiar Macron e de que deveria ter buscado negociar com Le Pen, fator que servirá para fortalecer essa opinião no eleitorado de Les Republicains e tenderá à atração de seus votos.

Nicolas Dupont-Aignan, do Debout la France, e Marine Le Pen, no dia em que selaram aliança.

Marine Le Pen também tem moldado o seu discurso para falar a esse eleitorado. Exemplo disso foi o último debate presidencial, no qual ela ressaltou por diversas vezes que a diferença entre ela e Macron estava nas suas visões de mundo e de França diametralmente opostas: uma privilegiando a herança cultural francesa; a outra, uma diluição da França num bloco europeu. Essa é a questão que toca especialmente ao eleitorado gaullista que votou em François Fillon.

Por esse motivo, acreditamos que parcela considerável do eleitorado de François Fillon deverá votar em Marine Le Pen, ainda que não o expresse nas pesquisas e que o faça de forma silenciosa.

Outra parcela que não se pode ignorar é a dos candidatos minoritários de centro e de direita: Jean Lassalle (Résistons), François Asselineau (Union populaire républicaine) e Jacques Cheminade (Solidarité et progrès). Todos estes candidatos tinham, em suas plataformas, propostas eurocéticas e soberanistas – até mesmo Jean Lassalle, definido como de centro. Ora, como quem vota em um candidato minoritário geralmente vota por adesão às propostas ou por contestação ao establishment, é muitíssimo improvável que esses votos migrem para Macron, restando uma tendência favorável a Le Pen. Numa eleição apertada, os 2,3% obtidos por estes candidatos podem ser a diferença entre a vitória e a derrota. Como no caso dos candidatos de extrema-esquerda, Lassalle, Asselineau e Cheminade optaram por não dar nenhum conselho de voto aos eleitores.

Este silêncio da maior parte dos candidatos ousiders sobre quem irão apoiar não deve surpreender. De olho na eleição legislativa e, ainda, percebendo que o espectro político tradicional caiu de vez, todos querem ter algum lugar na nova pintura do poder na França. Por isso, preferem ver para onde o vento leva a barca. Postura mais coerente, é claro, foi adotada por Nicolas Dupont-Aignan que, apesar de ser um tradicional crítico de Front National, teve a maturidade de formar com Le Pen uma coalização pelo bem da França.

Análise de algumas regiões geográficas

A disposição do mapa das eleições de primeiro turno é bem significativa. Em relação a 2012, pois revela o bem-sucedido crescimento de Marine Le Pen nos últimos cinco anos, conquistando muitas áreas que Sarkozy não fora capaz de conquistar contra Hollande na eleição passada. Marine venceu quase que unanimemente no Norte do país e teve significativa vitória no Sul. A disposição geográfica da votação confirma a tendência, já comentada acima, de desconexão entre o interior rural e operário e os grandes centros urbanos.

Mapa do primeiro turno de 2017

Mapa das Eleições de 2012

O desenho do mapa também demonstra uma tendência de “fechamento”: as áreas em eu Marine venceu formam como que uma “boca” a engolir as outras regiões, em que Macron venceu. Esse tipo de análise não é, de todo, desprovida de sentido, pois cada região transmite uma tendência à região vizinha, especialmente se as circunstâncias das duas são comuns (regiões rurais, operárias, urbanas, etc.).

Há regiões às quais, nesta análise, chamamos de “áreas de tensão”: são regiões em que Macron e Le Pen ou Macron e Mélenchon ficaram muito próximos, demonstrando uma tendência de voto anti-establishment, como, por exemplo, Hautes-Alpes, Savoia e Isére, a sudeste da França.

De outro lado, há as regiões em que Mélenchon venceu, como Dordogne e Ariége (as duas regiões vermelhas no Sul do mapa). Nestas regiões, Marine tende a vencer, seja por serem regiões com presença operária, seja também porque na Dordogne existe forte influência cultural dos britânicos, fazendo com que seus moradores observem com atenção o Brexit; na região vizinha de Haute-Garonne (uma área de forte concentração operária onde Macron venceu, mas Mélenchon veio colado), chamada Ariége, Mélenchon venceu, mas Marine Le Pen ficou em segundo lugar, deixando Macron muito atrás. A tendência é que a vitória, nestes lugares, seja de Le Pen e não de Macron, pois o voto nos outsiders foi bem maior. Haute-Garonne tem outro problema, que deve exercer importante papel na atração de votos para Le Pen: a grande presença de imigrantes muçulmanos no lugar, a maior parte usufruindo de serviços públicos como refugiados.

O recurso ao mapa das principais regiões operárias da França permite observar que onde Mélenchon obteve boa votação (no encalço de Macron e de Marine Le Pen) foi justamente nos lugares que concentram população operária, o que parece confirmar a percepção de que este eleitorado está votando não em um espectro ideológico, mas na proteção de seus empregos – o que, novamente, deverá reverter em favor de Le Pen, especialmente numa disputa contra o defensor do “mercado global”, Macron. 

Principais regiões operárias da França

Sobre o eleitorado de Fillon, é possível perceber que o voto católico teve influência. O mapa abaixo mostra as regiões com mais católicos nominais e aquelas com mais católicos praticantes. As regiões em que Fillon venceu, especialmente no Norte da França, possuem níveis altos de católicos praticantes; nestas mesmas regiões, Marine ficou em segundo lugar (salvo em Mayenne), o que já demonstra uma tendência de votação na candidata de Front National.

Católicos nominais e católicos praticantes na França

Da mesma forma, observando-se os dois mapas, é possível perceber que Marine Le Pen já venceu em regiões de forte presença de operários e de católicos, a norte e a sul, o parece confirmar que estas parcelas do eleitorado (que responderam a Mélenchon e a Fillon, respectivamente) tenderá em favor da candidata de Front National mais do que em favor do globalista de En Marche!

Um fator que favorece Marine Le Pen é a própria falta de entusiasmo despertada por Macron, visivelmente um boneco telemático de poderes superiores. Mesmo os seus eleitores afirmam que votam sem entusiasmo. Segundo uma pesquisa de primeiro turno, que aferiu a sociologia do eleitorado, 29% do eleitorado de Macron vota nela por não gostar das outras opções e apenas 32% o escolheram por suas propostas, enquanto Marine Le Pen possuía um voto de adesão de 59% do eleitorado, número semelhante ao de François Fillon (57%). Apesar de o modelo de pesquisas merecer muitas ressalvas, por desconsiderar o fator mentira (o Brexit e a eleição de Donald Trump demonstraram isso), não deixa de ser significativo que, mesmo com os modelos atuais, as pesquisas apontem uma adesão sem qualquer entusiasmo por parte do eleitorado de Macron.

Portanto, todas as tendências são bastante favoráveis para a candidata de Front National. Se elas se confirmarem, Marine Le Pen deverá vencer as eleições por uma votação de, pelo menos, 51% a 52% dos votos.

Deve-se atentar, contudo, à fraude eleitoral. Perder a França seria uma perspectiva trágica para o globalismo ocidental. Por esse motivo, sua elite está agindo em peso para não ter outra surpresa semelhante ao Brexit e a Trump. As denúncias de fraude vêm desde o primeiro turno.

Grupos inteiros de pessoas foram sumariamente excluídas das listas de votação e, quando compareceram para votar, não puderam. O fato ocorreu por todo o país e algumas das pessoas excluídas recorreram à Justiça para poder votar no segundo turno – e conseguiram. Mesmo assim, nem todos judicializaram o assunto e algumas decisões estão pendentes. 

O caso dos “électeurs radiés” (eleitores excluídos) promete ainda ser bastante discutido, sejam quais forem os resultados, inclusive porque um grupo de eleitores ligados a François Fillon pretende ingressar, no dia 09/05, com uma petição no Conselho Constitucional da França, pedindo a nulidade da eleição do primeiro turno, por causa destes problemas.

Outro problema que tem se verificado no país inteiro é o envio aos eleitores de cédulas de votação de Marine Le Pen já rasgadas, que seriam interpretadas como nulas, caso depositadas nesse estado. Na França, os envelopes com as cédulas de votação são enviados previamente para a residência dos eleitores. Em vários deles, lacrados, as cédulas de Le Pen já estão rasgadas; em outros, existe apenas uma cédula de Le Pen e três para Macron, o que permitiria triplicar o voto. Um grupo de Facebook chamado “Irrégularités Élection Présidentielle 2017” está recolhendo centenas de vídeos e fotografias, além de testemunhos, destes fatos.

Envelopes com possíveis fraudes nas eleições

Portanto, apesar de todas as tendências serem favoráveis a uma vitória de Marine Le Pen nas eleições, existe uma tendência negativa incontrolável do outro lado, que é a fraude praticada pelos globalistas em todas as eleições das quais participam – na França, ainda pior, pois a vitória de Le Pen representaria mais um passo para o fim definitivo da União Européia.

Esperamos que os franceses que estejam cansados do estado deplorável no qual se encontra sua nação sejam em maior número do que qualquer fraude. Se isso acontecer, Marine Le Pen – e não Merkel – será a próxima Presidente da França.

Taiguara Fernandes de Sousa é advogado, jornalista e analista político.

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Notas 

1 A esse respeito, o ProfessorOlavo  redigiu um artigo fundamental  que mostra a gravidade não apenas desse crime, mas, em especial, dos crimes daqueles apressadinhos que acusam de anti-semitismo quem não subscreve o credo revolucionário.

2 BNP é a sigla do British National Party, representando, em palavras muito pobres, a variante inglesa das idéias de Le Pen pai.

4 Não poderiam ser tomados como conservadores, por exemplo, no sentido britânico ou americano do termo, mas é a linguagem disponível para aglutinar as diversas facções gaullistas, mais ou menos patrióticas, que rejeitavam abertamente o ideário dos nostálgicos de Vichy.

6 A União Européia, fundada para ser uma gigantesca zona de livre comércio e para fazer frente, economicamente, aos Estados Unidos e à União Soviética, simultaneamente, tem, desde sua origem, um caráter federalista, isto é, de substituição dos países existentes por uma estrovenga de “Estados Unidos da Europa”. Esse era o intuito original de alguns de seus mais destacados membros, como Jean Monnet, e se baseava na compreensão de que o nacionalismo como um todo havia sido responsável pelas duas Guerras Mundiais, sendo o único caminho para a paz (kantiana, diga-se) uma aposta na supranacionalidade.

7 Algumas notas indispensáveis:
É indisfarçável o compromisso do Front National com Vladimir Putin, porém não pode ser excluída in limine a interpretação de que essa aliança, feita por Le Pen filha, tinha caráter ocasional, de sobrevivência financeira do partido, sem maiores comprometimentos com o esquema globalista russo. De outra banda, as conexões do FN com Putin são muitas, de modo que ambas as interpretações, embora válidas, não estão no mesmo patamar, sendo a segunda muito mais factível que a primeira. Por fim, de uma perspectiva estratégica, a solução mais realista seria optar entre os globalismos sem se tornar dependente de qualquer deles, jogando, sempre que possível, um contra o outro.

8 O ataque à base síria, por exemplo, foi muitíssimo mal interpretado, até mesmo pelos apoiadores de Trump. Não notaram que: a ordem foi dada durante o jantar com o presidente chinês (aliás, pouco antes de servida a sobremesa), destruiu uma base utilizada para armar o Hezbollah, enviou um sinal claríssimo à Coréia do Norte, foi precedida da única participação de Steve Bannon, o estrategista populista de Trump, em reunião do Conselho de Segurança Nacional e serviu para desviar as atenções da imprensa boboca da cobertura dos protestos contra a aprovação de Neil Gorsuch para a vaga deixada por Antonin Scalia na Suprema Corte.

9 A derrota na primeira tentativa de revogar o Obamacare, por exemplo, não desmoralizou Trump, mas seu adversário mais poderoso dentro da engrenagem republicana, o Speaker Paul Ryan. A aprovação do novo projeto, ocorrida ontem, deve-se exclusivamente ao deputado Mark Meadows, líder do Freedom Caucus, a facção mais conservadora (e mais trumpista) do partido, agora candidatíssimo a ser novo Speaker. 

10 Fonte: http://www.breitbart.com/london/2017/05/05/israeli-politician-endorses-marine-le-pen/.

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