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Hey, hey, hey, hey

Foi pela Reforma da Previdência, estúpido!

Só quem lucraria encontrando autoritarismo nas manifestações de domingo encontrou. O povão sempre soube que era pela Previdência, Moro e Lava Toga

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protesto Bolsonaro reforma previdência

O enredo das manifestações ocorridas no domingo último (26) é claro para quase todos os brasileiros: Bolsonaro foi eleito para realizar algumas reformas extremamente impopulares para a média de um país como o Brasil (e, sobretudo, dos políticosdo Brasil), como a da Previdência, e um pacote anti-crime, capitaneado pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro, que não seria aceito facilmente por um Congresso “eleito democraticamente”, mas mais fisiológico do que o cadáver apodrecido de uma preguiça gigante.

Assim, os eleitores de Bolsonaro fizeram uma pressão no Congresso mostrando que quem perderia o braço de ferro do establishment contra os reformistas seria o Legislativo. Sobretudo Rodrigo Maia, o “articulador”.

Ao menos o enredo é facilmente perceptível para o povão – você, eu, a tia do Zap. Para os grandes analistas políticos do país, gente que “estudou”, que passa 25 horas por dia lendo notícias (ou melhor, comentários das mesmas únicas duas ou três notícias do ano, desde janeiro), foi praticamente impossível entender tal obviedade. Aliás, é difícil até agora.

Uma turma que coincidentemente tem os mesmos interesses contra Bolsonaro aventou a ridícula idéia de que as manifestações seriam para “fechar o Congresso e o STF”. Apenas por mera coincidência, claro, quem ventilou que esta era a pauta tem o verdadeiro desejo de Bolsonaro se estrepar, e então aparecer como alguém “melhor” – seja como futuro presidente, seja como um jornalista que tanto demonizou Bolsonaro, para apenas perder credibilidade perante o público.

Ninguém viu tal pauta surgindo. Até mesmo nas redes sociais, onde achamos de tudo (e onde jornalistas, políticos e palpiteiros interessados podem tratar qualquer piadinha e arroubo retórico como sinal de um novo nazismo) é possível encontrar algum perfil com alguma relevância (e por “alguma relevância” falamos de, sei lá, 10 curtidas) falando em fechar o Congresso sendo levado a sério.

Nosso produtor Filipe Trielli desnudou a maracutaia pilantra que praticam, para jurar de pés juntos que a pauta “inicial” (sic) das manifestações era autoritarismo, violência, tiro, porrada e bomba (vale acompanhar a thread):

Mesmo os Cheroques Rolmes que pululam por aí abusam do mesmo expediente derrisório. Um gênio apresentou-nos a prova de que havia vários tweets direcionados ao presidente (oohh, que prova) pedindo fechamento do Congresso, e nos enviou o link. Observe os tweets e o número de seguidores e concluam por você mesmo.

Ademais, no impeachment havia uma meia dúzia pedindo intervenção militar, até com o belicoso cartaz “Otário pede impeachment, patriota pede intervenção” (imagine o país hoje nas mãos de Mourão e Santos Cruz). Nas manifestações do PT pelo “Lula livre” e “impeachment é golpe”, até o MBL, que hoje também praticou o espalhafato da “manifestação pelo fechamento do Congresso”, encontrou gente defendendo pena de morte para gays e outras loucuras. Quantas vezes você viu alguém de direita afirmando que os protestos mortadeleiros eram por algo além de defender um corrupto amigo de ditadores?

Ou seja: apenas quem queria dizer que as manifestações eram autoritárias encontraram autoritarismo nas manifestações. E olha que arroubos de “fechar o Congresso” são a coisa mais comum da política brasileira desde pelo menos o Big Bang. Gritar “fechar o Congresso” é o pecado original do brasileiro: a medicina moderna já testemunhou que todo bebê brazuca já disse “Tem que fechar o Congresso” na primeira semana de gestação. Ainda assim, a pauta da manifestação sempre foi a Reforma da Previdência, além do pacote anti-crimes do Moro (um dos maiores líderes do país) e a MP 870, que acabou sendo votada antes mesmo dos protestos.

E, afinal, nós lá temos outro assunto neste ano?! Estou tentando ter uma conversa que não seja sobre a Previdência desde, pelo menos, fevereiro, e não consegui. O pedreiro da obra pergunta da Previdência. Minha tia do Zap milita pela Previdência. O psicólogo quer falar mais sobre a Previdência. A leitora de tarô tá em dúvida sobre a Previdência. O difícil é não falar dessa porcaria. Como alguém acha que logo a manifestação mais politiqueira do país NÃO seria sobre a Previdência, e sim sobre fechar o Congresso, embora ninguémtenha falado nisso?

O comentador político James Carville cunhou a frase it’s the economy, stupid como um bordão interno dos Democratas para a campanha de Bill Clinton contra George H. W. Bush. Pegou tão bem que virou o slogan oficial.

Parece que precisamos falar o mesmo. Mas não mais dos comentadores políticos high level em direção à classe trabalhadora: somos nós, os coitados zé-povinho, que precisamos explicar para jornalistas, ativistas, políticos e colunistas que supostamente deveriam nos informar: foi pela Reforma, estúpido!

E são esses políticos do establishment, estes jornalistas da mídia mainstream, e não o povo, que contarão a história destes dias que correm para as futuras gerações. O que explica exatamente qual é o problema do país.

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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs". Tem passagens pela Jovem Pan, RedeTV!, Gazeta do Povo e Die Weltwoche, na Suiça.

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