Crônica da semana

Relatos místicos

As verdadeiras verdades são aquelas que se pode inventar. O travesso mundo das experiências transcendentais

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Estava eu, e isso sempre me ocorre nos dias pares, profundamente entediado com a vida aqui na terra, embora nunca tenha vivido em qualquer outro lugar, o que me entediou ainda mais, quando resolvi levantar-me e fazer pipocas. Despejei o milho na panela Oxford que pertenceu a minha avó Arminda, um pouco de óleo e um fio de azeite – esse filete é que dá o sabor único da minha pipoca. 

Enquanto escutava cada milhozinho estourando, resolvi abrir a Wanda, meu scotch whisky de dezoito aninhos. O tédio me induz a beber. Entretido com o aroma inconfundível, único, da minha Wanda, esqueci-me totalmente da pipoca. Fiz o que todo mundo faz: esmurrei o armário lateral e amaldiçoei minha avó Arminda, embora ela não tivesse culpa alguma. Esperei a panela parar de gemer e a abri. Uma pétala de milho saltou em minha direção e quase me cegou. 

Por que relatei esse fato? Porque ao ver a trajetória do milho, encarei-o e tive a nítida sensação de que aquele milho era Wolfgang Amadeus Mozart. Atordoado com a visão, passei meses refletindo se havia feito a coisa certa ao abandonar as aulas de piano na segunda série do primário. 

Será que aquele milho era mesmo Mozart irritado por eu não ter me dedicado à música?

Comentando o caso com meu senhorio, Lindomar, ele me disse que eu havia passado por uma experiência mística. Encucado, agoniado, e sem entender por que diabos Wolfang Amadeus Mozart metamorfoseara-se num pequenino milho, resolvi pesquisar sobre o assunto.

Aqui vão alguns dos relatos mais interessantes que encontrei:

Num jornal local leio o depoimento do sr. Solano Pederneiras, de Hortolândia, São Paulo: A pobreza roía-me as vísceras e chegava a tirar-me umas lascas da alma. Nunca fui um homem ganancioso, mas precisava comer. Desesperado, entrei num empório e roubei duas latas de caviar beluga Petrossian. Na saída, me dei conta de que sem panquequinhas russas a coisa não ia cair bem. Dei meia volta e, enquanto distraía a vendedora pagando pelo caviar, surrupiei umas torradinhas – não as panquequinhas russas, como imaginava. Antes que me desse conta do erro, surgiu uma luz tão forte que quase me cegou. Fui colocado numa espécie de máquina com rodas que começou a se mover em baixa velocidade. Foi então que percebi que estava no banco de trás da minha Mercedes AMG GT-R enquanto meu motorista, Januário, me perguntava se eu estava bem. Tudo que consegui dizer foram estas emocionadas palavras: cadê as panquequinhas? As panquequinhas!

O sr. Joseph Stalin, de Gori, Geórgia, disse: eu me preparava para assistir ao enforcamento de oito dissidentes que ousaram interpretar a décima tese de Feuerbach de um modo mais liberal, quando o telefone toca e meu assessor Dmitri Kassipilanovich Yeguitutchenko Drassilov, Viki para os mais chegados, me informou que Yuri Lenthkov Awinka Mihailitovic, o Gorka, sentiu uma dor feroz nos rins e teve que adiar a ordem do fuzilamento dos oitenta e quatro mil uzbeques que aguardavam há um ano pela execução da sentença. Imediatamente esmurrei o tampo da minha escrivaninha de mogno dos alpes suíços, o que causou uma luxação no meu pulso. Como sou um homem de temperamento calmo, respirei fundo e sai para deliciar-me com os enforcamentos (o que mais poderia acalmar a alma de um bom homem?). Quando o terceiro sujeito despencou pelo patíbulo, ouvi algo como: Joseph, pare de jogar dados às quartas-feiras!. Fui tomado pela emoção e desde então, uso tampões de ouvido em todas as execuções. 

Disse o sr. Arthur Schopenhauer, de Danzig: elucubrando nas altas da madrugada, sem sono e sem carinho, cheguei a conclusão precipitada de que para a representação existir é necessária a relação entre o sujeito e o objeto. Dessa relação o sujeito é a parte que conhece (embora, muitas vezes, ele se faça de desentendido), é ele que sustenta o fenômeno da representação e do conhecer. Ou seja, o objeto não existe sem o sujeito, o que pude comprovar ao dar com a testa no batente da porta do meu quarto. Para criar a representação do mundo, nosso intelecto organiza as formas a priori do tempo e espaço utilizando a categoria da causalidade, embora as formas de Fraulein Bianca Schmitz, que surgiram na minha mente depois do choque com o batente, tenham se organizado muito rapidamente e de modo ainda incompreensível para mim. Essa experiência revelou-me a noção de que meu ego é paranóico e que a representação das nádegas de Fraulein Bianca Schmitz me dava uma vontade danada de ampliar a interação entre sujeito e sujeito, deixando os objetos como meros coadjuvantes.

Isso em nada me ajudou. Continuo sem entender como as experiências místicas acontecem sem indução, ou seja, sem a ajuda de uns remedinhos. Se bem que li também que qualquer sadhu jovem dá conta de um tanto dessas experiências, e sem precisar de qualquer ajuda, mas como eles em geral fazem voto de silêncio e não contam suas histórias em revistinhas ou sites de fofoca, temo que nunca saiba como aquele floco de milho compôs a Sinfonia n° 40 ou a Pequena Serenata Noturna.

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