Crônica da semana

Considerações sobre a criação artística

Algumas observações sobre a beleza e o sentido na arte

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Qual o sentido da arte?

Na tentativa de responder a pergunta, fui buscar literatura sobre o assunto. Logo no início do livro “A Beleza”, de Roger Scruton, apenas sobre essa que seria uma das propriedades da arte, as considerações do filósofo eram tão básicas e tão profundas, os problemas para os quais ele buscava solução eram tão intrincados, que percebi o tamanho da minha ingenuidade. O trabalho, além de árduo, prometia ser completamente infrutífero. Tudo bem. Já então havia encarado o fato de que a vida é assim mesmo. Quanto mais alto se está, mais longe se vê, e quanto mais longe se vê, mais difícil enxergar.

Curioso é que o que deveria me desanimar por completo acabou surtindo efeito contrário. Nunca mais parei de pensar ou ler sobre o assunto. Só que esse meu “nunca mais” tem uns dois, três anos, no máximo. Sou um leitor jovem, embora não seja um jovem leitor, de modo que o texto talvez sofra de uma ingenuidade maior do que a do início da empreitada. Aliás, tenho a impressão de não sair do início, que vai se revelando mais e mais comprido a medida que avanço. Resolvi botar no papel. Joseph Brodsky, num ensaio sobre a poeta russa Anna Akhmatova, escreveu:

a prosódia sabe mais sobre o tempo do que um ser humano gostaria de se ver forçado a lidar”.

Escrever é às vezes uma tentativa de encontrar na prosódia, ainda que precária, algum significado que nos escapa. Se ao final deste texto, verificar tratar-se de uma rematada bobagem, fica como um mero registro de momento, uma dessas fotografias nas quais, tempos depois, sequer nos reconhecemos.

Foi “Em alguma parte alguma”, que achei uma dica do Ferreira Gullar:

“dir-se-ia
então
que
para dizer
a desordem
da fruta
teria a fala
– como a pera –
que se desfazer?
que de certo
modo
apodrecer?”

A linguagem é o meio, mas também um obstáculo a ser vencido. Cada arte tem sua linguagem própria. Não se transforma um quadro em música ou um romance em escultura sem que a obra também não se modifique a ponto de obliterar alguns sentidos e deslindar outros. A linguagem dá vida à obra, mas também é um elemento balizador, um trilho para a percepção. O poeta tenta descortinar a realidade através da linguagem poética que o limita.

Acontece que a arte é transcendente. A realidade a contém, mas ela transborda. A realidade, ilimitada, está presa, mas a arte, delimitada pela linguagem, é livre, guarda em seus limites a eternidade. Podemos dizer que, de certo modo, a realidade contém a arte na forma (uma tela, ondas sonoras em movimento, um livro na estante), mas esta contém aquela na substância. Através da arte podemos vislumbrar uma dimensão da realidade que nos escapa. O contato com literatura, música, pintura, expande e tonifica nossa imaginação. E sem imaginação não se pode compreender coisa alguma.

A respeito dessa relação entre imaginação e realidade, li certa vez:

Só a mentira bem contada é capaz de restabelecer a verdade perdida”.

Não lembro o autor (talvez o Rubem Braga) e não importa. O fato é que gravei a frase, ou o que absorvi, pois não posso assegurar que as palavras sejam exatamente aquelas. Hoje, me dá um certo mal estar quando ouço um artista dizer que está “expressando a sua verdade”. Além de implicar na relativização de um conceito de caráter absoluto, tenho a sensação de que qualquer artista deixa de ser verdadeiro no exato momento em que começa a acreditar em si. E tampouco o seria se, ao contrário, duvidasse. Existe um precipício no qual deve atirar-se, caso queira produzir algo valoroso. É um salto de fé. É aceitar ser a obra e não o autor.

O sentido da arte, portanto, não é algo para ser explicado. A arte revela aquilo que podemos absorver mesmo sem compreender e por isso somos incapazes de explicar. Estamos diante de um mistério tão profundo quanto o descrito por Santo Agostinho nas “Confissões” a respeito do tempo.

Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; porém, se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.”

A essa altura, me virei do avesso e nem saí do lugar. Desisti de responder a pergunta, mas não de procurar a resposta. Afinal, a busca é tão prazerosa quanto inglória.

Isolando a música, com a qual tenho mais contato, cheguei a esboçar algumas idéias sobre o sentido da arte. Vão aqui em períodos curtos. É com cautela que devemos tatear o desconhecido.

Dividimos o tempo porque somos incapazes de abarcá-lo. Dobramos. Redobramos. Inventamos tempos menores. E contratempos. Tentamos extrair um todo aos pedaços. A música é a cristalização do tempo. Um tempo que nasce enquanto morre. Existir é aprender a morrer. E não queremos morrer. Desesperadamente, juntamos células amorfas em busca de algum sentido. Retalhos de tempo perdido são re-agrupados por nós na esperança vã de restabelecermos uma unidade capaz de entrar em ressonância com o eterno. Acontece que é próprio da eternidade não caber em si, se entendemos que um fragmento do infinito também não tem fim. Resta que cada tempo – ou contratempo – é repleto em sua infinitude e vazio em sua singularidade. E dessa matéria a um só tempo densa e rarefeita tentamos extrair alguma identidade. Tentamos colocar o efeito antes da causa. Queremos recriar a nota fundamental do universo fazendo vibrar seus harmônicos. Acabamos por nos conectar, efetivamente, ou quase, mesmo que apenas por instantes, com uma existência sem as dores do existir. Vibramos, por assim dizer, na frequência do sagrado. Nos encontramos na euforia dos trinados e na solidão das pausas. E cada vez que isso acontece, nos sentimos um pouco melhores do que a realidade nos faz crer no instante seguinte.

Carlos de Freitas, um sujeitinho formidável, mostrando a que veio ao mundo, cravou: “a religião nos revela o quanto somos pequenos e a arte nos revela o quanto podemos ser grandes”.

Eu confesso que já nem sei mais se sou grande ou pequeno. Mas, diante de tanto mistério e beleza, e ao lado de tantos sujeitinhos formidáveis, sei que quero viver eternamente.

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