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Cinema

Era uma vez no Globo de Ouro

A noite de premiação do cinema e TV foi marcada por poucas surpresas, uma grande esnobada na Netflix e críticas jocosas (mas pesadas) à elite de Hollywood

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No último domingo, 5 de janeiro, teve início a temporada de premiações de Hollywood com a entrega dos troféus Golden Globes, que contempla produções para a TV e para o cinema.

Tida como uma espécie de prévia do Oscar, a premiação foi uma noite de luxo em que a elite da meca do cinema foi confrontada com algumas críticas sobre seu hábito de expor publicamente opiniões políticas. Os Golden Globes sãos concedido pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood desde 1944.

Rick Gervais: tocando o terror

O apresentador da cerimônia, pela quinta e (promete ele) última vez foi o comediante e ator britânico Ricky Gervais (da versão original de The Office, entre outros). Gervais sempre mostrou um humor ácido em suas outras vezes à frente da premiação, mas desta vez pisou no acelerador e atropelou qualquer cautela.

Com as piadas de seu monólogo de abertura, cutucou diversas figuras conhecidas e hábitos um tanto vergonhosos dos seus companheiros da indústria.

Ele, por exemplo, comentou que chegou ao Hotel Beverly Hilton, local de premiação, em uma limusine cuja placa teria sido feita por Felicity Huffman (do seriado Desperate Housewives), atriz de Hollywood que foi condenada por seu envolvimento em um escândalo de fraude universitária, ao contratar um terceiro para realizar exames classificatórios para boas faculdades no lugar sua filha. Ela cumpriu 14 dias de prisão na California, onde geralmente os detentos trabalham produzindo placas de automóveis para o estado.

Felicity Huffman: da frente das câmeras para detrás das grades

Outra piada pesada de Gervais foi sobre a morte de Jeffrey Epstein, financista americano condenado por abuso sexual de menores e que teria se suicidado na cadeia em agosto de 2019 – embora pairem sérias dúvidas sobre sua morte, com algumas teorias indicando que ele teria sido assassinado antes que pudesse implicar outros nos casos de abuso. Epstein, que era amigo de diversos nomes em Hollywood e de políticos como o casal Clinton e o presidente Donald Trump, costumava emprestar seus aviões particulares a eles.

Ao comentar que o seriado britânico Afterlife teria uma segunda temporada, o que é uma indicação que seu personagem central não havia tirado a própria vida ao final da primeira, Gervais o comparou a Epstein e cutucou os presentes: “A segunda temporada vem aí, então ele não se matou. Igual ao Jeffrey Epstein.”  Após uma reação pouco empolgada da plateia, Gervais completou: “Calem a boca. Eu sei que ele era amigo de vocês e não dou a mínima. Tiveram que vir para cá em seus próprios aviões, não é?”

Epstein e seu amigo Bill

Gervais não parou por aí. Talvez suas piadas mais incisivas tenham sido sobre o hábito da elite hollywoodiana em fazer discursos contra o governo ou defendendo sua visão política em qualquer oportunidade. “Se você ganhar um prêmio esta noite, por favor, não use isto como uma plataforma para fazer um discurso político. Vocês não estão em posição para dar lições ao público sobre nenhum assunto. Vocês não sabem nada sobre o mundo real. A maioria de vocês passou menos tempo na escola que a Greta Thunberg. Então, se você ganhar, suba aqui, aceite seu premiozinho, agradeça a seu agente e ao seu deus e dê o fora.”

Gervais continuou com suas piadas ao longo da noite. A mais incisiva, talvez, tenha se dado quando chamou Sandra Bullock ao palco e fez referência ao foto de que muitas pessoas que trabalhavam com o poderoso produtor Harvey Weinstein, acusado de abusar sexualmente de diversas atrizes ao longo de sua carreira, afirmaram ignorar os hábitos do executivo: “Nossa próxima apresentadora estrelou Bird Box, um filme no qual as pessoas sobrevivem ao fingir que não estivessem vendo nada – mais ou menos como trabalhar com Harvey Weinstein.”

Weinstein: indiciado por assédio

A grande telinha

É possível argumentar que Gervais tenha sido a presença mais interessante da noite, já que houve poucas grandes surpresas entre os vencedores. A premiação para as categorias televisivas contemplou, em sua maioria, os favoritos. Succession, da HBO, sobre os conflitos de uma família em busca do poder em um conglomerado de mídia, levou como Melhor Seriado Dramático, enquanto o veterano Brian Cox ganhou como Melhor Ator em Série Dramática.

A britânica Fleabag (disponível no Brasil pela Amazon Prime), sobre as desventuras de uma jovem londrina, levou como Melhor Série de Comédia ou Musical, assim como sua estrela, Phoebe Waller-Bridge ganhou como Melhor Atriz de Comédia. Olivia Colman, de The Crown, levou Melhor Atriz Dramática – foi a única premiação de uma produção da Netflix, entre as 17 indicações para as categorias televisivas que o serviço de streaming recebeu.

Ramy Youssef ficou com Melhor Ator de Série Comédia ou Musical por Ramy, sobre um descendente de muçulmanos que vive em Nova Jersey. Como esperado, a elogiada Chernobyl, da HBO, sobre os fatos que levaram ao trágico acidente na usina nuclear do título, em 1986, foi premiada como Melhor Minissérie ou Filme para a Televisão.

A produção também deu a Stellan Skarsgard, conhecido como o Dr. Erik Selvig nos filmes da Marvel, o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante na categoria.

Succession: o melhor drama televisivo de 2019

Do lado feminino, a vencedora foi Patricia Arquette, pela primeira temporada da série The Act, que terá trama e elenco diferente a cada temporada. Arquette, opositora de Donald Trump, foi uma das celebridades que não seguiu o conselho de Rick Gervais e, em seu discurso de aceitação, fez um apelo para que os americanos não deixassem de votar nas eleições para presidente ao final do ano e ainda avisou que os Estados Unidos poderiam estar à beira de uma nova guerra – na opinião dela, note-se.

Michelle Williams foi outra que seguiu a agenda, com uma mensagem sobre a opção de escolha feminina em seu discurso, ao aceitar o prêmio de Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para Televisão por Fosse/Verdon, sobre o relacionamento entre o coreógrafo Bob Fosse e a dançarina Gwen Verdon, lendas da Broadway. Na categoria masculina venceu Russell Crowe, por The Loudest Voice, sobre a ascensão do canal Fox News nos Estados Unidos.

Phoebe Waller-Bridge em Fleabag

Netflix esnobada

Para os prêmios cinematográficos, parece ter ficado clara uma certa má-vontade com a Netflix, apesar da previsão inicial de Rick Gervais de que a empresa levaria a maior parte dos prêmios da noite. Mesmo concorrendo a mais 17 prêmios de cinema com algumas das produções mais elogiadas do ano, como O Irlandês,  de Martin Scorsese, e História de um Casamento, que – muitos apostavam – poderia dar o prêmio de Melhor Ator a Adam Driver (o Keylo Ren, da nova trilogia de Star Wars), o gigante do streaming levou apenas um troféu: o de Melhor Atriz Coadjuvante, para Laura Dern, em História de um Casamento.

Era uma Vez: vencedor de três prêmios

O maior vencedor da noite foi Era Uma Vez em Hollywood, a homenagem de Quentin Tarantino ao mundo do cinema e da televisão no final dos anos 1960. A produção ganhou como Melhor Comédia ou Musical, Melhor Ator Coadjuvante em Comédia ou Musical (para a ótima atuação de Brad Pitt como o dublê Cliff Booth) e Melhor Roteiro de Comédia ou Musical, para Tarantino.

Último dos indicados a estrear nas telas, o drama 1917, passado durante a Primeira Guerra Mundial, surpreendeu ao levar os dois prêmios mais importantes: Melhor Filme e Melhor Direção, para Sam Mendes.

Como esperado pela maioria, o prêmio de Melhor Ator Dramático ficou com Joaquin Phoenix por sua incômoda e brilhante atuação no papel-título de Coringa. Com uma visão diferente e mais realista sobre a origem do vilão dos quadrinhos, o filme – que já vencera o Leão de Ouro no Festival de Veneza – ainda levou o Globo de Ouro como Melhor Trilha Sonora, para Hildur Guonadóttir, a primeira vez que uma compositora ganhou sozinha na categoria.

Renée Zellweger ganhou como Melhor Atriz Dramática por Judy, cinebiografia da icônica estrela dos musicais, Judy Garland.

Coringa: prêmio de Melhor Ator Dramático para Joaquin Phoenix

Outra cinebiografia premiada foi Rocketman, que deu o prêmio de Melhor Ator em Comédia ou Musical para Taron Egerton, que interpreta o cantor Elton John. O próprio astro do rock estava presente para ganhar um outro prêmio para o filme, o de Melhor Canção Original, para “(I’m Gonna) Love Me Again”, ao lado do compositor Bernie Taupin. Uma curiosidade: Egerton e Elton John já tinham aparecido juntos nas telas antes na aventura de espionagem, Kingsman: O Círculo Dourado.

Outra estrela da música recebeu um prêmio: a rapper e atriz Awkwafina, americana de origem chinesa, ganhou como Melhor Atriz em Comédia ou Musical por The Farewell, sobre uma família que descobre que a avó tem uma doença terminal.

1917: o drama de guerra levou prêmios importantes

O prêmio de Melhor Animação foi uma surpresa: ficou com o azarão Link Perdido, sobre a descoberta de um ancestral primitivo da humanidade por um aventureiro. Já o prémio de Melhor Filme em Língua Estrangeira foi para o esperado Parasita, da Coreia do Sul. Dirigido e coescrito por Bong Joon-ho, o filme conta a história de uma família em dificuldades financeiras que se envolve com um grupo de milionários.

Talvez a Netflix possa ter mais sorte na entrega do Oscar, marcada para 9 de fevereiro, mas ainda é uma incógnita. A empresa obviamente mudou a maneira como o cinema vai ser consumido daqui para a frente, mas Hollywood ainda não sabe muito bem como lidar com ela.

Por enquanto, ainda é patente que a elite do cinema aceitou que precisa convidar a Netflix para suas festas – mais ainda não quer que a empresa leve um pedaço de bolo para casa. Ou, assim como age com Rick Gervais, Hollywood até se diverte com a Netflix, mas a trata como um intruso um tanto incômodo.

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Assuntos:
Maurício Muniz

Maurício Muniz é jornalista especializado em cultura geek, tradutor e editor de quadrinhos, livros e revistas e do blog O Pastel Nerd. É coautor dos livros Vampiros na Cultura Pop e O Império dos Gibis e do quadrinho Kris Klaus: Papai Noel Casca-Grossa

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