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Riso invisível

A crise da piada no Brasil: humorismo progressista e sua graça infinita

É impossível não ter falta de ar, não passar mal de rir, engasgar até ter derrame, porque eles não gostam do Bolsonaro. Ainda mais com "Beijo me liga" e “fui” no fim

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Um fenômeno pouco explorado tem se alastrado no Brasil há pelo menos uns dez anos. É a praga do humorismo oficial de nicho. Chamo oficial aquele humorismo cometido na grande mídia, em geral oriundo do Stand Up – outra praga que merece um ensaio próprio. De nicho pois atinge um pequeno grupo de pessoas para quem rir, ver o Domingão do Faustão ou atirar casca de amendoins na cabeça de transeuntes pressupõe o mesmo movimento da alma.

Essa segmentação do humor até que poderia ser louvável, afinal, na vasta composição dos temperamentos humanos, muitas vezes, o que um acha graça pode irritar outro. O grande humorista sabe aquilo que tem de melhor e naturalmente vai atraindo o seu tipo de público. E a vastidão de temperamentos do humorista é que cria um produto genuíno. Ronald Golias não tem absolutamente nada em comum com Jerry Seinfeld, por exemplo, no entanto, ambos são engraçadíssimos. 

O humorismo brasileiro oficial está acelerando o processo de estiagem do nosso caráter. A paranóia da identidade de gênero aqui atinge também as profissões. A presunção de um idiota auto persuadido da sua própria graça é capaz de fazer estragos permanentes. Uma alma sutil e refinada, atributos essenciais a quem queira colocar uma bola vermelha no nariz, nada pode contra. A ascensão dos cretinos fundamentais, preconizada por Nelson Rodrigues, atacou o cerne da índole brasileira: a anedota.

Os tipos não variam muito. Levei quase dez anos para descobrir que Marcelo Adnet, Rafinha Bastos e Danilo Gentili eram pessoas diferentes. Acostumado com as mil personas de um Chico Anysio, tive que fazer um esforço tremendo para separar Oscar Filho, Maurício Meirelles e Fábio Rabin. A contaminação da piada sem riso ataca também a classe menos privilegiada intelectualmente no Brasil: os jornalistas. 

Não é raro abrir o Twitter e se deparar com arranhão de garfo no fundo da panela travestido de piada da Vera Magalhães; um dedo mindinho coçando a orelha fantasiado de chiste de um Ricardo Noblat. Essas figuras não conseguem descrever a forma de um salgadinho com precisão quanto mais inseri-lo numa piada. Aliás, o povo que alçou o Fandangos ao estrelato na piada não merece essa geração tacanha de sujeitinhos que acham que cutucar o nariz em público é o suprassumo da comicidade.

É a irresistível atração dos humoristas progressistas pela supressão do riso na piada. Uma tese bem fundamentada. Provas abundam. Do Salão de baile às UTIs: a habilidade impressionante e a graça irresistível dos humoristas progressistas no Brasil.

Para não dizerem que estou a confabular apenas com meus próprios botões, elenquei algumas pérolas produzidas pela atual geração de piadistas canarinhos. A geração que acha que descrever sua ida ao banheiro é tão engraçado quanto Gargântua e Pantagruel.

Oscar Filho escreveu: “Michelle Bolsonaro com COVID! Eles TRANSARAM, finalmente! Tô feliz pelo presidente!” Vou desconsiderar a aptidão expressiva do jovem humorista, sua tara por exclamações. Dá pra ver a cena: Filho em seu sofá, excitado feito um pilar de concreto, berrando frase por frase. O conteúdo é excepcional. Refinamento puro.

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Rafinha Bastos é outro que, produzindo uma piada, faz um esforço titânico para conseguir juntar sujeito, verbo e predicado. Para não dizer que pego no pé das opiniões políticas dos nossos humoristas, pinçei um tuíte aleatório. Ao elucubrar sobre uma noite de sábado, o humorista genial escreveu: “Se vc tá aqui as 5h da manhã de um sábado, sua noite foi um fracasso… ou foi sensacional. Não tem meio termo.” É claro que esse deve ser o centro motriz da alma de Rafinha: saber se sua madrugada de sábado foi um fracasso… ou foi sensacional, sem meios termos. É a piada de fim de balada por excelência. Sempre sobra algum bêbado pra rir.

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Fábio Rabin disse: “O Dólar Caiu! Só falta Bolsonaro…” Acho que na falta do que dizer, nossos humoristas apelam para uma pontuação exagerada a fim de produzir em quem os lê uma sensação ensurdecedora. Penso em Rabin esmiuçando um dicionário e chegando a essa composição anedótica de fazer inveja… ao Jorge Kajuru, talvez. 

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Ancorada nesses princípios vem a bela Gabriela Prioli. A loira que só emite opiniões científicas (não me perguntem como uma opinião pode ser científica, talvez seja essa a graça) também se aventura cientificamente no universo da piada. Percebam o humor: “Nesse vai não vai das eleições norte americanas, eu fico com uma dúvida: se adiar, quem assume é o Aécio?” 

A sabedoria popular diz que se você contar uma piada a uma loira na quarta, ela vai rir só no sábado. Gabriela, no caso, foi além. Ao elaborar sua piada ela conseguiu atingir o público de 2014. Piada retroativa de viés científico eu nunca tinha visto. Acho que a loira estudou esses anos todos a viabilidade acadêmica da anedota. Foi quase no timing certo. 

E é com ela que eu provo minha tese. A de que o idiota auto persuadido de sua própria graça transformou o humor brasileiro numa convenção de suicidas. No post seguinte, Gabriela diz que está numa fase “piadista”. Que fase difícil essa. A fase piadista de Gabriela me lembra a fase da neblina no primeiro Enduro do Atari. 

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Não preciso dizer que existem honrosas exceções. O brasileiro comum é infinitamente mais engraçado que a linha de adolescente babões que pensam ser comediantes. Temos gente boa dando continuidade a essa nossa riquíssima tradição, a de fazer graça até com coisa séria. Mas eles estão pulverizados por aí em perfis de Twitter e Facebook, em botecos ou em casa mesmo. 

Nosso riso é um antídoto contra as misérias que nos devastam desde que o país foi descoberto por tipos como o Joaquim, que ao ser perguntado pela esposa se estava a gozar, respondeu, sisudo, que não, pois obviamente estava levando aquilo muito a sério; ou como o Manoel que ao entrar numa casa suspeita perguntou à rapariga de plantão: quanto é o programa? Depende do tempo, respondeu a moça. Manoel hesitou, mas acabou devolvendo: Bem… Suponhamos que chova?

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Carlos de Freitas

Carlos de Freitas é o pseudônimo de Carlos de Freitas, redator e escritor (embora nunca tenha publicado uma oração coordenada assindética conclusiva). Diretor do núcleo de projetos culturais da Panela Produtora e editor do Senso Incomum. Cutuca as pessoas pelas costas e depois finge que não foi ele. Contraiu malária numa viagem que fez aos Alpes Suiços. Não fuma. Twitter: @CFreitasR

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