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Há um ano, Fantástico fazia Brasil se compadecer de estuprador de criança

Reportagem fez crianças mandarem cartas para "Suzi", que estuprou e matou asfixiado menino de 9 anos, e sofria "preconceito" na cadeia por ter virado "trans"

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No dia 1.º de março de 2020, “a trans” denominada “Suzy”, então com 30 anos, foi destaque no programa “Fantástico”, da Rede Globo. Em reportagem encabeçada por Dráuzio Varella, a emissora emplacava a narrativa de que detentas “trans” sofrem “preconceito” dentro da cadeia. Ficou destacado o abraço de Dráuzio Varella “na trans”, ensejando lágrimas emocionantes. “A” pobre Suzy não recebia visitas há 8 anos, “coitada”.

A história só contava o fim “da” suposta “detenta”. Em uma segunda-feira de maio de 2010, Rafael Tadeu de Oliveira Santos, futuro “Suzy”, pediu para um menino de 9 anos o ajudar a carregar um monitor. O jovem morava a duas casas de distância de Rafael. Rafael estuprou oral e analmente a criança, sabendo dos seus hábitos e de que seus pais não estariam na casa.

Digamos, “raciocinando” sobre como lidaria com o crime, achou por bem matar a criança com método cruel: asfixia, uma das mortes mais cruéis conhecidas pela humanidade.

Rafael escondeu o corpo em sua casa por 2 dias. Como o cadáver estava em avançado estado de putrefação, preferiu que os próprios pais da criança lidassem com o “problema”: deixou o corpo putrefato na frente da casa onde o jovem morava, avisou a mãe de que havia “um cadáver” ali, e ligou para o pai para avisá-lo de que seu filho havia falecido.

Realmente, como alguém pode passar tantos anos sem dar uma visitinha para saber como estava este ser tão angelical?

Só mesmo Dráuzio Varella, este homem tão científico, tão humano, demasiadamente humano, para mostrar como a humanidade está errada e ele está certo, e que Rafael Oliveira sofria muito preconceito… por ter virado “trans” na cadeia.

A narrativa que a Rede Globo tentou impingir à população era cristalina. Depois de menos de 5 anos martelando dia e noite na cabeça do povão a teoria da conspiração de que existem pessoas “trans” (preocupação que nunca existiu na humanidade sadia), era hora de testar novos níveis de aceitação da narrativa pelo vulgo.

Bastou, para isso, filmar o abraço “na detenta” trans que sofria “preconceito”, mas não comentar por qual crime “a coitadinha” não recebia visitas. Como assim, as pessoas são tão preconceituosas e de extrema direita que não abraçam quem estupra crianças, mata e joga o corpo para a mãe achar?! Alguns até acham que quem se auto-declara “trans” tem transtornos, estes anti-científicos!

A tratativa de controle social da Rede Globo foi excelente. Mais uma vez, um novo passo para a esquerda na Janela de Overton: aquilo que a população aceita, que trata hoje como “normal”, como uma postura “moderada”, talvez até meio “centrista” – um controle social que deixaria a extrema esquerda de cabelos em pé há uma década.

Em várias escolas, já na segunda-feira seguinte, a atividade escolar para criancinhas era enviar cartas de apoio ao Rafael (o estuprador de crianças, agora chamado “Suzy”, e não os pais da criança assassinada de maneira tão cruel por ele). Como sua personalidade extremamente psicótica e delirante agora inventou que é “uma mulher”, também recebeu chocolates e maquiagem. Em uma semana, Rafael recebeu mais de 234 cartas. É fácil imaginar em qual órgão deve tê-las esfregado.

Também ficava o recado para a sociedade: estuprou? Matou? Segundo o feminismo, é preciso gritar contra uma suposta “cultura de estupro” dia e noite. Mas basta o estupro ser contra uma criança para a aversão ao estuprador ser chamada de “preconceito”. Para a preocupação se voltar para a “solidão” do estuprador. Para a culpa ser da “sociedade” que tem “transfobia”. Que precisa ser combatida com uma narrativa como “feminismo”. Que favorece, olha só, políticos com ideologias e medidas do “progressismo”. E discordar destas políticas, até mesmo quando elas favorecem um estuprador e assassino de crianças, é “preconceito” de “extrema direita”.

Assim que o crime do Rafael (oh, escusas! que crime horrendo! devemos usar o tratamento adequado para alguém estupra oral e analmente uma criança! agora é “a Suzy”!) foi descoberto, Dráuzio Varella pediu desculpas amarelas: afirmou que não pesquisou o crime antes e, para cair atirando, defendeu-se alegando que não tinha intenção de ser candidato, como um ou outro afirmara na internet. Voilà! Mais uma vez, a culpa de tudo recai em quem recusa o progressismo! Essa ideologia do coitadismo com estupradores! Este preconceito com pedófilos só mostra o horror que é a extrema direita!

Aos primeiros muxoxos de reclamação nas redes sociais, Vera Magalhães, a jornalista do Roda Viva, se atirou em defesa de Dráuzio Varella – o que é uma espécie de sinônimo perfeito para “acusações à direita”. Como se ser acusado de não gostar de pedófilos fosse algo a denegrir alguém.

O Ministério Público considera a “personalidade deturpada” e a “periculosidade exarcebada” para manter Rafael preso. Sua própria tia foi testemunha de acusação, alegando que:

“Ele roubava, mentia, não ia para a escola, até doze anos coisas de criança, mas depois dos doze começou a roubar com arma, usava maconha. (…) Fiquei sabendo que ele trabalhava na padaria e foi acusado de estar abusando de uma criança de três anos e os parentes da criança foram na minha casa atrás dele, querendo matar ele. Fiquei sabendo que ele foi passar férias na casa do irmão e tentou estuprar meu sobrinho de cinco anos, quatro a cinco anos. (…) Na escola era acusado de pular o muro da escola, ir no banheiro passar a mão em alguém, roubava os professores, de estupro (…)”.

A tia narrou como o tal “Suzy” narrou outro estupro, “fechou a boca da criança e contou tudo, normal como eu estou contando”. Um segurança do bairro, quando do crime, afirmou: “A gente não entende como o ser humano é capaz de fazer tal coisa, tamanha maldade com a criança”.

Já na Rede Globo, fica só a imagem com tema “música triste do Chaves” de Dráuzio Varella dando um abraço no Rafael, chamando sua personalidade de “Suzy”e falando do “preconceito” contra “mulheres trans presas” (pobrezinhAs!), sobre “abandono”, “violência” e “solidão”. Não dá pra entender como nós somos pessoas tão violentos, nós ABANDONAMOS seres humanos indefesos e vítimas, nós deixamos que pessoas “trans” sejam tão… solitárias!

Na cadeia, dificilmente estupradores têm vida fácil. Pedófilos dificilmente têm vida. Na Rede Globo, basta dar mais um passo na loucura e se auto-declararem “trans” para se tornarem duplamente vítimas. Solitárias. Vítimas de “violência”. Merecem cartinhas de crianças. Danem-se os pais da vítima. Nenhum comentário sobre como é ser estuprado aos 9 anos e morto por asfixia, tendo seu cadáver deixado para sua mãe encontrar. E, se você discorda, é um perigosíssimo ser de “extrema direita” cheio de “ódio”.

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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record).

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