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A descoberta da leitura

Como gostar de ler mesmo sendo um adolescente quiromaníaco*

Pode-se chegar ao livro por vários caminhos: parecer inteligente, fugir da realidade, masoquismo (leia um Paulo Coelho pra entender), querer ser alto, forte e bonito, puro acaso, rebeldia impúbere. Uma coisa é certa: o livro me salvou

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* Esse texto foi publicado anteriormente com algumas modificações na página do Senso Incomum, no Instagram, com o título “A descoberta da Leitura”.

Meu primeiro contato mais sólido com a literatura aconteceu aos quatorze anos e foi uma atitude de revolta contra a escola. 

Após entregar uma prova sobre Dom Casmurro em branco, cheguei em casa, percorri a vasta biblioteca de uns 15 livros que meu pai mantinha na esperança de que algum de seus três filhos tomasse gosto por aquilo e, ao ver o nome de Machado de Assis e o título da obra que havia me proporcionado um zero gigantesco, pensei: vou ler essa “pistola” (não me lembro qual gíria eu usava para me referir a objetos quaisquer).

O meu descontentamento com aquele modo impositivo e extremamente chato de nos enfiar goela abaixo histórias absurdas de personagens que nem sabiam o que é um telefone,  quem era o Pelé, que nunca assistiram Indiana Jones, incomodara-me sobremaneira, mas, para mostrar minha total liberdade em relação ao nosso sistema de ensino, abri o livro e mergulhei fundo.

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Conheci Bentinho, Capitu dos olhos oblíquos e dissimulados, Escobar (traiu?) Mas mais do que isso, conheci Machado de Assis e seu repertório de palavras e frases que me apanharam de imediato.

Em algum ponto entre o extremo da Groenlândia e o mais distante cu de Judas, mergulhado no meio das minhas tralhas, está o caderno em que anotei algumas das palavras mais extraordinárias que já havia lido: alcunha, exortação, esboroar, escanhoar… Lembro-me destas de cabeça, pois as usei muito na vã tentativa de angariar risinhos das meninas no colégio.

Deixei a gíria tipo Patropi e assumi a linguagem de um seminarista do século XIX. Bastava uma advertência de minha tia e eu me saía assim: “naturalmente acha que sou criança, néscia!” E lá me vinha um catiripapo na orelha. 

Como diria Fernando Pessoa: “A leitura é a maneira mais inteligente de desprezar a vida”.

Guardei daquele tempo a alegria do menino que, ainda tateando a realidade, encontrara o seu Monte Pascoal. Não imaginava que, anos mais tarde, como resultado daquele ato de insubmissão, eu povoaria toda minha vida com uma multidão de autores e personagens que, como seu único defeito, continuam sem ter visto o Pelé jogar. 

Como em Cântico Negro, do José Régio, só descruzei os braços para escorregar no becos, redemoinhar aos ventos; desflorei minha floresta virgem, desenhei meu próprio passo na areia inexplorada. 

Um rompante de estupidez juvenil foi minha salvação. Não imagino e nem quero imaginar um destino diferente. 

Capitu traiu Bentinho? Não tem a mínima importância.

P.S. Hoje, além da profunda alegria em dizer que alguns dos autores que admiro viram o Pelé jogar, me orgulho de ser amigo deles.


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Carlos de Freitas

Carlos de Freitas é o pseudônimo de Carlos de Freitas, redator e escritor (embora nunca tenha publicado uma oração coordenada assindética conclusiva). Diretor do núcleo de projetos culturais da Panela Produtora e editor do Senso Incomum. Cutuca as pessoas pelas costas e depois finge que não foi ele. Contraiu malária numa viagem que fez aos Alpes Suiços. Não fuma. Twitter: @CFreitasR

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