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Gente estúpida

Anthony Hopkins cita poema que estúpidos no Brasil chamam de “supremacista branco”

"Do not go gentle into that good night" foi citado por ator que não foi ao Oscar por preferir dormir em sua casa. Censores retardados sem cultura dizem que poema é "supremacista branco" por ter sido citado por Filipe Martins

Luigi Marnoto
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Anthony Hopkins cita poema que estúpidos no Brasil chamam de “supremacista branco”

Horas antes de levar o Oscar de melhor ator por seu desempenho no filme “Meu Pai”, Anthony Hopkins tuitou um vídeo emocionante em homenagem ao seu pai, morto em 1981.

https://twitter.com/AnthonyHopkins/status/1386358279446618112?s=20

No vídeo, filmado em um cemitério do País de Gales, sua terra natal, o ator declama um trecho do poema Do not go gentle into that good night , de Dylan Thomas (poeta galês, 1914-1953).

O gesto de Hopkins foi louvado por toda imprensa e pelos fãs do ator em todo mundo, inclusive no Brasil.

Mas, curiosamente, parte da imprensa brasileira não acusou o ator de “supremacista branco”, como aconteceu com o Assessor Especial de Assuntos Internacionais da Presidência da República, Filipe Mastins, ao postar o mesmo poema em sua página no Twitter, em 2019.

É compreensível. O poema de Dylan Thomas é citado há mais de meio século por qualquer pessoa com um mínimo de cultura – o que não é o caso de grande parte dos jornalistas brazucas.

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O fato é que, na época, quase que a totalidade dos escrevinhadores da nossa imprensa, em sua costumeira ignorância, não tinha a mais remota idéia de quem foi Dylan Thomas.

Até o dia em que um tal de Brenton Tarrant, um facínora australiano – este sim, supremacista branco – decidiu tocar o terror na cidade de Christchurch, na Nova Zelândia, abrindo fogo contra mulçumanos em ataques à duas mesquitas. Cinquenta e uma pessoas morreram.

Num manifesto de 74 páginas encontrado pela polícia intitulado The Great Replacement (A grande substituição), o terrorista começa por citar o poema mais popular de Dylan Thomas.

Pronto, foi o suficiente para ligar o tuite de Martins à supremacia branca e ao fascismo universal na mais pura lógica: Hitler gostava de cães. Você gosta de cães. Logo, és nazista.

A Folha de S.Paulo foi a primeira a tocar o bumbo: “Assessor da Presidência publica poema que abre manifesto de atirador da Nova Zelândia”.

Foi o suficiente para a fanfarra dos colunistas de opinião – que têm por hábito repetirem as opiniões uns dos outros – seguir tocando a banda difamatória.

Martins respondeu à Folha:

“Essa associação não é ofensiva apenas a mim, mas ao conjunto do governo brasileiro, de seu serviço exterior e, em grau ainda mais elevado, ao legado do poeta Dylan Thomas.”

“Poucas coisas se aproximam do terrorismo, em matéria de estupidez e incivilidade. Uma delas é a predisposição de permitir que terroristas de qualquer vertente se apropriem da cultura ou de expressões artísticas, estigmatizando pinturas, poemas, músicas e filmes consagrados pelo uso indevido que fazem do patrimônio cultural em nome de suas agendas niilistas de destruição, morte e pânico psicológico.”

“Insinuar, como faz a Folha de S.Paulo, que uma menção a um dos poemas mais conhecidos do mundo expressa qualquer tipo de vínculo com o terrorismo, com o supremacismo branco e outras práticas execráveis não é apenas sinal de ignorância e de grande incultura, mas uma ofensa criminosa à minha honra e uma contribuição aos propósitos do perpetrador do massacre.”

“Vale lembrar ainda que possuo um claro histórico de rejeição ao identitarismo de qualquer vertente e que sempre combati todo e qualquer esforço de dividir e balcanizar a sociedade em grupos separados de acordo com características físicas e biológicas.”

Mas os corneteiros não se cansam. Em março deste ano, durante uma sabatina de senadores com o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, Martins, ao ajeitar o vinco do paletó, fez um gesto que, segundo os demolidores de reputação, seria um sinal de supremacia branca.

E toca o bumbo…

O Poema de Dylan Thomas no original

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

Leia o poema na tradução de Ivan Junqueira

Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Pois a velhice deveria arder e delirar ao fim do dia;
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

Embora os sábios, ao morrer, saibam que a treva lhes perdura,
Porque suas palavras não garfaram a centelha esguia,
Eles não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os bons que, após o último aceno, choram pela alvura
Com que seus frágeis atos bailariam numa verde baía
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

Os loucos que abraçaram e louvaram o sol na etérea altura
E aprendem, tarde demais, como o afligiram em sua travessia
Não entram nessa noite acolhedora com doçura.

Os graves, em seu fim, ao ver com um olhar que os transfigura
Quanto a retina cega, qual fugaz meteoro, se alegraria,
Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

E a ti,meu pai, te imploro agora, lá na cúpula obscura,
Que me abençoes e maldigas com a tua lágrima bravia.
Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

E, aqui, uma versão musicada do cantor Iggy Pop:


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Luigi Marnoto
Luigi Marnoto

Luigi Marnoto é cozinheiro e só não foi guia de cego e bombeiro. Atualmente escreve no Senso em troca de uns caraminguas. É pai e avô quase exemplar e campeão de porrinha.

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