Não houve “ocupação” do Centro Paula Souza, e sim “invasão”

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Na manhã desta sexta-feira (6), a Polícia Militar cumpriu ordem de reintegração de posse do Centro Paula Souza, no centro de São Paulo, invadido por cerca de 50 auto-declarados alunos por abrigar o centro de comando das ETE’s, as Escolas Técnicas Estaduais. A Alesp, Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, também foi “descupada” pela tarde.

O estado de São Paulo enfrenta a crise das merendas, quando foi descoberto que políticos desviaram verba das merendas escolares de diversas escolas. O caso é investigado pela Operação Alba Branca, da Polícia Civil e do Ministério Público. De repente, os setores que mais reclamam de investigações policiais passaram a amá-las. É um progresso.

Luiz Roberto dos Santos, conhecido como Moita, o ex-chefe de gabinete do secretário da Casa Civil do governo Alckmin Edson Aparecido, aparece em grampos pedindo dinheiro a uma das empresas investigadas e foi demitido assim que se soube. Nota-se uma diferença gritante em relação ao modus operandi dos investigados por corrupções bilionariamente maiores pelo PT. Moita é filiado ao PSDB.

ocupacaoalesp-merendaSem ter como desgastar a imagem do tucanato, que nem sequer se posicionou com firmeza sobre o impeachment (palavras da própria proponente do pedido, a dra. Janaína Paschoal), a esquerda brasileira se fiou em escandalizar escândalos tão menores que parecem infinitesimais perto dos desmandos do PT, envolvendo centenas de bilhões de reais, compra de votos e silêncio destruindo a separação de poderes, obstrução da justiça e negociatas com ditaduras. Por isso o grande apelo da máfia das merendas – que é crime gravíssimo em países civilizados, mas um simples senso das proporções revela que toda a grita ao redor é apenas nuvem de fumaça para disfarçar os grandes problemas do país.

Quando a PM cumpre a lei e realiza uma reintegração de posse, as experiências com invasões de reitoria da USP já o demonstraram, é gasto um efetivo policial gigantesco, que poderia estar aumentando a segurança da cidade, apenas para não ferir os alunos invasores: se forem poucos policiais, há uma chance de seus hormônios forçarem um confronto, enquanto um grande efetivo é uma linguagem plenamente universal para avisar que game over, hora de voltar para a triste realidade rotineira e afogada em tédio.

Os jovens, os ideais e o real

Qualquer pessoa do país tem um pensamento muito claro sobre os invasores de prédios públicos impedindo as pessoas normais de os utilizarem, incluindo escolas. Alguns até enxergam um certo idealismo nestes jovens e semi-jovens e eternos jovens, mas nada além disso: idéias que, por natureza, são irreais. O que fazem na prática é repudiado por 9 em cada 10 brasileiros para mais.

É a diferença entre intenções e sonhos pouco nítidos e prática cotidiana, empenho, metas, planejamento. É difícil crer que estes jovens terão um grande futuro se agirem de tal forma – a não ser nos bancos de partidos como PSOL ou REDE e nos diretórios e órgãos burocráticos de cursos de faculdade improdutivas. Quase sempre, trabalham com alguma forma de linguagem e imaginário coletivo. E é a linguagem e o imaginário coletivo que contaminam a visão deles próprios sobre a realidade.

Não é apenas a Globo que te manipula

O que fazem não é uma “ocupação”. Ocupação, em linguagem técnica, pode ser uma ocupação militar (o que não fizeram) ou ocupar espaços que permitam tal ocupação – como os assentos nas salas de aulas pré-determinados que estes estudantes poderiam estar ocupando.

O que fazem é uma invasão. Como uma invasão de domicílio – no caso, de um prédio público. São conceitos jurídicos chocantemente diferentes, com conseqüências absurdamente distintas em cada caso – mas, por um aparente parentesco na linguagem cotidiana, qualquer advogado de porta de cadeia deita, rola, dá a patinha e finge de morto usando a confusão conceitual, sobretudo em pessoas pouco versas em linguagem jurídica e figuras de retórica.

Algum jornalista questionou isto, ou apenas repetem sempre sobre “ocupação” como se fosse matéria a se buscar uma inocência possível?

violão-centro-paula-souza-ocupacao-estudantes-merendaAo ocupar um espaço, podemos impedir outra pessoa de ocupá-lo, como dois alunos não podem ocupar a mesma carteira escolar. Invadir implica tomar pela força um espaço que não foi destinado à sua presença naquele momento (como acampar num prédio público), o que também exige sua tomada exclusiva – o próprio mote dos invasores é “Não tem arrego. Você tira a minha merenda, e eu tiro o seu sossego”.

Basta ouvir a logorréia que o advogado ativista Daniel Biral enfiou na cabeça de jovens que nada entendem de Direito, quase nada de política e têm um grande desejo de aventura e heroísmo que não possui elementos na realidade (nenhum tem a força de Hércules, a espada de Sigfried ou a métis de Odisseu).

Usando-os como peões num jogo de xadrez, como bucha de canhão para suas próprias aspirações e como infantaria descartável sonhática, Biral passou uma mensagem de voz para os jovens que, na ânsia de viralização, acabou se tornando pública.

alesp_estudantes-merendaDaniel Biral afirma que eles cometem um “não-crime”, que é a desobediência civil. Esta expressão poderosa, sempre evocada nestes momentos, nada tem a ver com o que a portadecadeiosfera afirma que ela é – e é sempre usada como desculpa em casos de invasões de escolas, como no Paraná (sempre por mera coincidência, os estados governados por tucanos, enquanto a crise da educação no Rio beira a enfermidade pública, sem nenhuma invasão de escolas).

Desobediência civil é um termo cunhado por Henry David Thoreau em livro homônimo para definir que quando as leis são injustas, as pessoas podem se furtar a serem atingidas pela força do Estado que quer aplicá-las. Isto é, se furtar a participar da ordem social, escapando do convívio com a força política. Não à toa, o segundo livro mais famoso de Thoreau se chama Walden, “os bosques”, onde vai viver sem precisar lidar com as leis injustas de compatriotas.

Um exemplo óbvio de desobediência civil é quando os cidadãos param de pagar impostos diante de um governo que vai contra seus anseios. Foi desobediência civil o que fizeram o pastor conservador Martin Luther King, ferrenho adversário de comunistas, e Mahatma Gandhi, grande leitor de Thoreau. É desobediência civil o famoso lema “No taxation without representation” dos americanos. Será que os jovens apatetados por discursos ultrapassados, dados como a última novidade em matéria de organização social e política, estão a fim de parar de pagar impostos?

Segundo o advogado ativista Daniel Biral, eles podem “ocupar” devido à sua “posição política”, que lhe dá este “direito”. Tudo na argumentação é descrito como realidade o que é meramente analogia, o típico pensamento analógico que não busca definições e entender as coisas, mas fazer analogias com outras e confundir tudo.

Se “posição política” desse o “direito” de “ocupar” o espaço alheio, seria interessante perguntar o endereço do sr. Daniel Biral para “ocuparmos” o espaço de “posições políticas” opostas por “direito”. Uma dica está nos conselhos que dá aos jovens: “tentem evitar” arrombamentos de sala. Sabe como é, né?

alesp-ocupada-merendaNa noção de Biral, tudo o que os invasadores fizerem dentro do prédio precisam antes “deliberar em assembléia”. Mas será que precisam de maioria? Na Alesp, havia apenas 50 alunos (na verdade, pessoas, algumas delas visualmente ultrapassando os 40 anos) invadindo o prédio. E deliberações em “assembléias” (ou seja, pessoas juntas concordando) exigem a maioria dos internos – antes mesmo de perguntar se os 50 invasores são a maioria ou minoria do vasto sistema educacional de Escolas Técnicas Estaduais paulistas?

Palavras de Daniel Biral: “Pouco importa se vocês são a maioria ou a minoria. O direito político de vocês garante que vocês o exerçam sendo minoria. A democracia não é uma ditadura, muito menos a ditadura da democracia [sic]. Ou seja, não é a maioria, por única e exclusiva vontade deles, que vai determinar o que vocês tenham ou não que fazer. Essas pessoas [se] estiverem em maioria e não quiserem ocupação, elas que permaneçam do lado de fora.”

Outra pista, para quem ainda não se convenceu, fica no final de sua ensinança às crianças sobre o que fazer com quem não concorda com a invasão: “Vocês não precisam recebê-los dentro da ocupação”.

É esta turma que, em outros momentos, fala em “democratização” disso e daquilo, em “respeitar as urnas”, em “milhões de votos”, em “legitimidade” e, claro, o melhor para estes dias, em “golpe”.

Pegue um dicionário e sacuda as palavras e suas definições, até que elas estejam aparentemente próximas, mas não marquem o mesmo lugar. Tente agora se expressar, se comunicar e entender as pessoas e a realidade. Imagine, então, se a lei fosse organizada dessa forma. É isto o que o “advogados ativistas” fazem sem o menor pudor, e jornalistas, com uma precisão que nunca possuem em outros momentos, copiam ipsis litteris sem questionar, como a verdade que se fez carne.

E, claro, o radicalismo, mesmo visto, nunca pode ser dito – ou algum jornalista questionou por que bandeiras de órgãos partidários como a UNE (controlada pelo PCdoB) estão ali, “sem nenhum interesse”, tentando fazer propaganda contra Alckmin, mas sem coragem de criticar as centenas de milhões a menos que Dilma deixou para a educação?

Se é difícil ter alguma noção de realidade assim, imagine para nossos jovens, que se acham “críticos” e originais e perigosos quanto mais servem de bucha de canhão para quem realmente os manipula e os faz repirem roboticamente clichês e platitudes ultrapassadas por todos os que já viveram mais do que as crenças que a adolescência julga serem eternas.

Nas palavras do filósofo Homer J. Simpson, “os jovens são o futuro do país – a não ser que façamos alguma coisa.”

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